sábado, 20 de fevereiro de 2016

Autobiografia de Santo Inácio de Loyola


 
AUTOBIOGRAFIA de Santo Inácio de Loiola

Tradução: António José Coelho, S.J.

ALGUMAS NOTAS PRÉVIAS...

Primeira – Em traduções de textos antigos, como acontece com a desta Autobiografia (no caso, espanhol e italiano do século XVI), apresentam-se duas opções (ou porventura outras). Primeira: tentar «modernizar» a maneira de escrever da época em questão. Segunda: conservar o estilo e a maneira de falar, ainda, evidentemente, com as «adaptações» necessárias à compreensão do texto. Nós optámos pela segunda, por nos parecer que isso corresponderia melhor ao espírito do texto, tal qual ele foi escrito, dentro de determinada época e mentalidade.

Segunda – A designação de Autobiografia dada à narração que Santo Inácio fez da sua vida, foi dada pela primeira vez por J.F. O’Conor em Nova Iorque, em 1900, tendo sido seguido por outros na Alemanha, Espanha e Itália.

Terceira – As 13 Adições feitas pelo P. Gonçalves da Câmara devem ter sido acrescentadas mais tarde. Infelizmente, nem nos arquivos de Portugal nem da Itália foi encontrado texto original. Serão postas sempre entre colchetes e em itálico, para as distinguir do resto do texto.

Quarta – Não podemos duvidar do valor histórico da Autobiografia. Por várias afirmações do P. Luís da Câmara, sabemos que ele foi absolutamente fiel ao que ouviu de Santo Inácio, não só pela excelente memória que tinha (segundo testemunha o P. Nadal), mas também pelo rigor que pôs em reproduzir o que Santo Inácio lhe disse e como lho disse. Diz-nos ele: «He trabajado de ninguna palabra poner, sino las que he oído al Padre» («Esforcei-me por escrever somente as palavras que ouvi ao Padre»).

INTRODUÇÃO

 Dá-se com toda a justiça o nome de Autobiografia (ainda que ao longo da história tenha aparecido sob outras designações), ao relato que Santo Inácio fez da sua vida ao P. Luís Gonçalves da Câmara. Santo Inácio não escreveu as suas memórias de sua própria mão, mas a reprodução das suas palavras é tão fiel, que é como se ele as tivesse escrito. O P. Câmara e outros historiadores dizem que Santo Inácio as ditou e que o seu confidente as tomou dos seus lábios; expressões estas que nos revelam que este relato, ainda que traçado por pena alheia, conserva toda a espontaneidade de uma verdadeira autobiografia.  Santo Inácio, nos seus últimos anos, concretamente entre 1553 e 1555, acedendo aos reiterados pedidos dos seus filhos, decidiu finalmente referir-lhes o percurso da sua vida, mas não de toda. O relato vai somente até ao ano de 1538, quando o governador de Roma concedeu sentença favorável em seu favor e dos seus companheiros. A partir desta data, só temos algumas breves notas sobre as obras de apostolado fundadas ou promovidas pelo Santo em Roma e uma breve indicação sobre o modo como escreveu os Exercícios e as Constituições.  Porque é que Santo Inácio terminou aqui a sua narração? É possível que tenha sido porque o resto da sua vida era perfeitamente conhecido pelos seus companheiros. Mas a razão principal deve buscar-se na rápida partida do confidente, P. Câmara, no dia 23 de Outubro de 1555. No prólogo que este escreveu (ver adiante) lemos como quis aproveitar até às últimas horas da sua permanência em Roma, mas a partida impediu-o de continuar. Ainda que é de lamentar que o relato autobiográfico não se tenha prolongado até aos últimos anos da vida do santo, aquilo que nos deixou é de capital importância para conhecer a evolução interior de Santo Inácio e a gênese da Companhia de Jesus. A Autobiografia é o fruto do natural desejo que sentiram os mais íntimos colaboradores de Santo Inácio de conhecer os pormenores da vida do seu pai em espírito. Em 1546, o jovem Ribadeneira mostrou desejos de escrever a vida do fundador. Um ano mais tarde, o P. João de Polanco pediu ao P. Diogo Laínez que lhe revelasse os fatos da vida de Santo Inácio, que ele conhecia muito bem.

Mas entre todos os que desejaram conhecer a vida do santo, distingue-se o P. Nadal que teve a coragem de se dirigir directamente ao fundador, pedindo-lhe que contasse a sua vida. Pode-se assegurar que se hoje temos a Autobiografia, o devemos ao P. Nadal. Este pretendia dar assim um modelo à Companhia, porque pensava que a vida de Santo Inácio era o fundamento da mesma Companhia (ver prólogo do P. Câmara, n.4). Os prólogos do P. Nadal e do P. Câmara, que antepomos à Autobiografia, referem-nos a maneira como ela foi escrita. O P. Luís da Câmara diz-nos que Santo Inácio se decidiu a narrar a sua vida, movido por impulso interior, «falando de maneira que mostrava ter lhe Deus concedido grande clareza em dever fazê-lo» (prólogo, n.1) e que tinha determinado que fosse a ele que descobrisse estas coisas.

A partir de então, o P. Câmara foi-lhe recordando todos os dias o seu compromisso, até que em Agosto de 1553, o santo deu início à sua narração. Santo Inácio não referiu a sua vida ao P. Câmara de uma só vez, mas em três ocasiões, separadas entre si por um longo período de tempo. A primeira, de Agosto a Setembro de 1553; a segunda, em Março de 1555; a terceira em Setembro-Outubro do mesmo ano (n.4-5 do prólogo). A última conversa com Santo Inácio teve lugar entre os dias 20 e 22 de Outubro de 1555, véspera da partida do P. Luís da Câmara. Este, por causa da pressa, não teve tempo suficiente para redactar as suas notas em Roma, e viu-se forçado a deixar esse trabalho para Génova, donde embarcaria para Portugal. Por não dispor, em Génova, de amanuense espanhol, foi obrigado a ditá-las em italiano. É esta a razão da passagem brusca para esta língua, a partir do n.79.

O relato inaciano tem todas as garantias de fidelidade e veracidade. Conhecemos o modo de contar as coisas usado pelo santo, «que é com tanta clareza, que parece que torna a pessoa presente em tudo aquilo que se passou». Por seu lado, o P. Câmara, que tinha muito boa memória, uma vez ouvido o relato de Inácio, «ia imediatamente escrevê-lo…, primeiro em pontos da minha mão e depois mais longamente, como está escrito» (prólogo, n.3).  A fidelidade estende-se às próprias palavras: «Esforcei-me por não pôr nenhuma palavra a não ser as que ouvi do Padre», e se alguma falta houve foi que, «para não me desviar das palavras do Padre, não pude explicar bem a força delas» (ib.). O próprio desalinho do estilo, nos leva à convicção de que não só os factos narrados, mas também as próprias palavras são de Inácio. Possuímos na íntegra o relato de Inácio? Não há razões para duvidar disso. Mas temos motivos para pensar que falta algo no princípio, já que Santo Inácio contou ao seu confidente «toda a sua vida e as travessuras de mancebo, clara e distintamente com as circunstâncias» (prólogo, n.2), e Câmara encerra todo este período da juventude de Iñigo na afirmação geral com que dá início à sua narração: «Até aos vinte e seis anos de idade, foi homem dado às vaidades do mundo, e deleitava-se principalmente no exercício das armas, com um grande e vão desejo de ganhar honra».  Em relação aos factos narrados na Autobiografia nota-se uma grande diversidade. Encontramos tanto factos externos da vida de Inácio, como fenómenos internos da sua vida mística de união com Deus. Há episódios secundários referidos com muitos pormenores e, pelo contrário, chama a atenção o silêncio sobre factos importantes. Por exemplo, entre os muitos dados que encontramos sobre a vida de Santo Inácio em Manresa, falta toda a indicação sobre a composição dos Exercícios, da qual só se dá uma ligeira insinuação no fim do livro, já fora da narração cronológica dos factos (n.99). 

O que dissemos sobre a exactidão e fidelidade da Autobiografia, não deve aplicar-se do mesmo modo às notas marginais que o P. Câmara escreveu mais tarde e que no texto colocamos entre colchetes e em itálico, como já dissemos. Ao falar da verdade histórica deste documento, pode perguntar-se se foi sujeito à revisão de Santo Inácio; mas esta pergunta só se pode fazer acerca da parte escrita em castelhano, a única que o P. Luís da Câmara redigiu em Roma. Há umas palavras no prólogo do P. Câmara que nos levam a pensar que Santo Inácio nem sequer soube que o seu confidente ia pondo por escrito aquilo que ele lhe contava. Afirma ele que, depois de ouvir o Santo, «vinha logo imediatamente a escrevê-lo, sem dizer nada ao Padre, primeiro em pontos da minha mão…» (prólogo n.3). Sabemos, contudo, por testemunho do P. Ribadeneira, que se fizeram cópias da Autobiografia antes de o P. Câmara ter saído de Roma, no dia 23 de Outubro de 1555, e que Santo Inácio mandou que se desse uma ao P. Ribadeneira. Se assim é, não parece improvável que Santo Inácio tenha visto o escrito do P. Câmara. Contudo, não temos provas de que o corrigisse ou revisasse.

A Autobiografia inaciana chegou até nós em várias cópias manuscritas. Não se conservaram nem os pontos breves tomados pelo P. Câmara, imediatamente depois de os ouvir de Inácio, nem a redacção mais extensa feita posteriormente. Contudo, as cópias que possuímos são antigas e de grande valor. Entre todas merece preferência a que possuiu o P. Jerónimo Nadal (designamo-la por texto N), levando-a consigo, mesmo nas viagens fora de Itália. Não tem o prólogo do P. Câmara, mas além de nos oferecer o texto autobiográfico íntegro, contém também 13 anotações marginais postas por Luís da Câmara posteriormente. Constituem, por assim dizê-lo, uma terceira redacção do texto. Além do texto em espanhol e italiano, possuímos cópias das traduções latinas escritas uma pelo P. du Coudret e outra pelo P. João Viseto. A tradução do P. du Coudret foi feita, com toda a probabilidade, entre os anos 1559-1561, durante os quais o tradutor esteve no Colégio Romano. Tem ainda o interesse de ter sido corrigida pelo P. Nadal.

Hoje pode parecer-nos inexplicável o facto de a Autobiografia ter sido publicada somente no século XVIII, e mesmo nessa altura segundo a tradução do P. du Coudret, e que o seu texto original só tenha aparecido em 1904, pela mão dos editores de Monumenta Historica Societatis Iesu. Neste texto aparecem somente as línguas originais; mas na nova edição, feita em 1943, pareceu útil publicar simultaneamente a tradução latina. Nos princípios da Companhia, houve dificuldade em que se difundisse o texto original da Autobiografia. Quando S. Francisco de Borja, em 1566, encarregou oficialmente o P. Ribadeneira de escrever a Vida de Santo Inácio, mandou que se recolhessem todos os exemplares existentes do relato inaciano, e até proibiu que se lessem e difundissem. A razão que Ribadeneira dava desta proibição era que «sendo coisa imperfeita [no sentido de inacabada ou fragmentária], não convinha que estorvasse a fé daquilo que se escreve mais perfeitamente». Na realidade, a Vida de Santo Inácio escrita pelo P. Ribadeneira não é, em grande parte, mais que a Autobiografia posta em estilo clássico castelhano.

Devemos aos Bolandistas o mérito de terem arrancado do esquecimento o principal documento narrativo sobre a vida de Santo Inácio. Foi o P. João Pien o autor do erudito Commentarius praevius que enriquece o tomo sétimo dos Acta Sanctorum Iulii.

PRÓLOGO DO PADRE NADAL

1. Tínhamos ouvido dizer, outros Padres e eu, ao nosso Pai Inácio que tinha desejado que Deus lhe concedesse três graças, antes de morrer: a primeira, que o instituto da Companhia fosse confirmado pela Sé Apostólica; a segunda, que fossem aprovados os Exercícios Espirituais; a terceira, que pudesse escrever as Constituições.

2. Ao recordar o desejo, e vendo que já tinha conseguido tudo isso, temia que Deus o chamasse em breve de entre nós para melhor vida. E sabendo que os santos fundadores de algum instituto monástico tinham deixado aos seus descendentes, a modo de testamento, os conselhos que haviam de os ajudar à perfeição, procurava a oportunidade de pedir o mesmo ao P. Inácio. Aconteceu, pois, que estando juntos um dia de 1551, disse-me o P. Inácio: – Agora estava eu mais alto que o céu –, dando a entender, segundo creio, que acabava de experimentar algum êxtase ou arroubo, como com frequência lhe acontecia. Perguntei-lhe com toda a reverência: – Que quer dizer com isso, Padre? – Ele desviou a conversa. Pensando que aquele era o momento oportuno, pedi-lhe insistentemente que nos quisesse expor o modo como Deus o tinha guiado desde o princípio da sua conversão, a fim de que esse relato pudesse ser para nós como um testamento e ensinamento paterno. – Porque, disse-lhe eu, tendo-vos Deus concedido aquelas três coisas que desejáveis ver antes da vossa morte, tememos que nos sejais chamado em breve para a glória –.

3. O Padre desculpava-se com as suas ocupações, dizendo que não podia dedicar a sua atenção e o seu tempo a isso. Contudo, acrescentou: – Celebrai três missas por esta intenção, vós, Polanco e Pôncio, e depois da oração dizei-me o que pensais –. – Padre, pensaremos o mesmo que pensamos agora –. E ele acrescentou, com grande suavidade: – Fazei o que vos digo –. Celebrámos as missas e depois de lhe referirmos o que pensávamos, prometeu que faria o que lhe pedíamos.  No ano seguinte, depois do meu regresso da Sicília, e estando a ponto de ser enviado a Espanha, perguntei ao Padre se tinha feito alguma coisa. – Nada, disse-me ele. Quando regressei de Espanha, no ano de 1554, voltei a perguntar-lhe; não tinha feito nada. Então, movido por não sei que impulso, insisti novamente: – Há quase quatro anos que vos peço, Padre, não só em meu nome, como em nome dos outros, que nos conteis o modo como o Senhor vos foi conduzindo desde o princípio da vossa conversão, porque pensamos que isso será sumamente útil para nós e para a Companhia. Mas como vejo que não o fazeis, quero assegurar-vos uma coisa: se nos concedeis o que tanto desejamos, nós aproveitaremos muito desta graça; se não fazeis, nem por isso desanimaremos, mas teremos tanta confiança no Senhor, como se tivésseis escrito tudo – .

4. O Padre não respondeu nada, mas penso que nesse mesmo dia chamou o P. Luís Gonçalves, e começou a contar-lhe as coisas que este, depois, com a sua excelente memória, punha por escrito. São estes os Actos do P. Inácio que correm de mão em mão. O P. Luís foi eleitor na primeira Congregação geral, e na mesma foi eleito Assistente do Geral, P. Laínez. Mais tarde, foi preceptor e director espiritual do rei de Portugal, D. Sebastião. Padre de insigne virtude. O P. Luís escreveu parte em espanhol e parte em italiano, segundo os amanuenses de que podia dispor (como já foi referido). Fez a tradução o P. Aníbal du Coudret, homem douto e piedoso. Escritor e tradutor vivem ainda.

PRÓLOGO DO P. LUÍS GONÇALVES DA CÂMARA

1. No ano de 1553, uma sexta-feira de manhã, 4 de Agosto, véspera de Nossa Senhora das Neves, estando o Padre no horto, junto da casa ou aposento que se chama do Duque1, comecei a contar-lhe algumas particularidades da minha alma, e entre outras coisas falei-lhe da vanglória. O Padre deu-me como remédio que referisse muitas vezes a Deus todas as minhas coisas, procurando oferecer-Lhe todo o bem que em mim encontrasse reconhecendo-o como seu e dando-Lhe graças por ele. E falou-me de tal modo sobre isto que me consolou muito, a ponto que não pude reter as lágrimas.  E assim me contou o Padre que durante dois anos tinha sido incomodado por este vício [vanglória], de tal maneira que quando estava para embarcar em Barcelona para Jerusalém, não se atrevia a dizer a ninguém que ia para Jerusalém e também noutras particularidades semelhantes e falou ainda da paz que depois disto tinha experimentado na sua alma. Daí a uma ou duas horas, fomos comer, e estando a comer com ele o Mestre Polanco e eu, o nosso Padre disse que muitas vezes lhe tinham pedido uma coisa Mestre Nadal e outros da Companhia, e nunca se tinha determinado a isso; e que depois de ter falado comigo, tendo-se retirado para o seu quarto, tinha sentido grande devoção e inclinação para fazê-lo; e, – falando de uma maneira que mostrava ter-lhe dado Deus grande clareza para o fazer – se tinha decidido inteiramente; e a coisa [que lhe tinha sido pedida] era declarar tudo o que tinha passado pela sua alma até ali e que tinha também determinado que fosse a mim que descobrisse estas coisas.

2. O Padre estava muito doente nessa altura e nunca costumava prometer-se um dia de vida, e quando algum dizia: – Farei isto daqui a oito ou quinze dias –, o Padre, como que espantado, dizia sempre: – Como?! E pensais viver durante tanto tempo? – E contudo, daquela vez disse que esperava viver três ou quatro meses para acabar este assunto. No dia seguinte perguntei-lhe quando queria que começássemos e respondeu-me que lho recordasse cada dia (não me lembro quantos dias) até que tivesse disposição para isso. E assim, não encontrando essa disposição por causa das ocupações, pediu depois que lho recordasse cada domingo. E assim, em Setembro (não me lembro quantos dias), o Padre chamou-me e começou a contar toda a sua vida e as travessuras de jovem clara e distintamente com todas as circunstâncias. E depois chamou-me no mesmo mês três ou quatro vezes, e chegou com a história até quando esteve em Manresa alguns dias, como se vê escrito em letra diferente.

3. O modo que o Padre tem de narrar é o que lhe é habitual em todos os assuntos, que é com tanta clareza que parece que torna presente à pessoa tudo aquilo que é do passado. Por isso, não era necessário perguntar-lhe nada, porque o Padre dizia tudo aquilo que podia interessar. Eu vinha imediatamente a escrevê-lo, sem dizer ao Padre, primeiro em pontos tomados pela minha mão e depois mais longamente, como aqui vai escrito. Esforcei-me por referir somente as palavras do Padre. E quanto àquilo que temo ter faltado, foi porque para não me desviar das palavras do Padre, não pude explicar bem a força de alguma delas. E assim escrevi isto, como fica referido acima, até Setembro de 1553. Desde então até que chegou o P. Nadal, a 18 de Outubro de 54, o Padre foi-se desculpando com algumas enfermidades e vários negócios que apareciam, dizendo-me: – Quando tal negócio estiver resolvido, volte a recordar-me –. E quando esse negócio estava resolvido, lembrava-lho e ele dizia: – Agora estamos neste outro; volte a recordar-mo –.

4. Mas, depois da vinda do P. Nadal, alegrando-se muito por aquilo que já estava começado, mandou-me que importunasse o Padre, dizendo-me muitas vezes que em nada podia fazer mais bem à Companhia que em fazer isto, e que isto era fundar verdadeiramente a Companhia. E assim falou ele próprio ao Padre muitas vezes, e o Padre disse-me que lho lembrasse logo que terminasse o assunto da dotação do colégio4; e depois de terminado este, logo que terminasse o do Preste e partisse o correio. Retomámos a história a 9 de Março. Logo a seguir começou a perigar a vida do Papa Júlio III, e morreu no dia 23, e o Padre foi diferindo o assunto até que fosse eleito o Papa. Este, apenas foi eleito, também ficou doente e morreu (que foi Marcelo). O Padre diferiu o assunto até à eleição do Papa Paulo IV e continuou a diferi-lo por causa dos grandes calores e das muitas ocupações, até ao dia 21 de Setembro, quando começou a tratar de mandar-me a Espanha. Por isso insisti muito com o Padre para que cumprisse o que me tinha prometido. Marcou-o nesse momento para o dia 22 de Setembro de manhã, na Torre Vermelha e assim, depois de dizer Missa9, apresentei-me a ele para lhe perguntar se era a hora.

5. Respondeu-me que o esperasse na Torre Vermelha para que quando ele chegasse, eu lá estivesse. Compreendi que tinha que aguardá-lo muito tempo naquele lugar e enquanto me entretive num pórtico a falar com um irmão que me tinha perguntado qualquer coisa, chegou o Padre e repreendeu-me porque tinha faltado à obediência e não o tinha esperado na Torre Vermelha, e não quis fazer nada em todo aquele dia.

Depois voltámos a insistir muito com ele. E assim voltou à Torre Vermelha e ditava passeando, como sempre tinha ditado antes. Eu, para observar o seu rosto, aproximava-me sempre um pouco dele e o Padre dizia-me: – Observe a regra –. E alguma vez que, esquecendo-me do seu aviso, me aproximei dele (e isso aconteceu-me duas ou três vezes), o Padre repetiu-me o mesmo aviso e foi-se embora. Por fim voltou depois para acabar de me ditar na mesma Torre aquilo que aqui fica escrito. Mas, como eu estava há muito tempo para pôr-me a caminho (já que a véspera dessa viagem foi o último dia em que o Padre falou comigo desta matéria), não pude redigir tudo por extenso em Roma. E como em Génova não tinha um amanuense espanhol, ditei em italiano aquilo que tinha trazido escrito de Roma em resumo, e terminei a redacção em Dezembro de 1555, em Génova.

AUTOBIOGRAFIA

CAPÍTULO I

O cavaleiro de Pamplona (1); Risco de morte e convalescença (2-6); Conversão a Deus (7-12)

1. Até aos vinte e seis anos de idade, foi homem dado às vaidades do mundo e deleitava-se sobretudo no exercício das armas, com um grande e vão desejo de honra. E assim, estando numa fortaleza que os franceses combatiam, e sendo todos de parecer que se entregassem, com a condição de não matarem, pois viam claramente que não se podiam defender, ele deu tantas razões ao governador da cidade1, que o persuadiu à defesa, ainda que contra o parecer de todos os cavaleiros, os quais se animavam com a sua bravura e esforço. 

E chegando o dia em que se esperava o assalto, confessou-se com um dos seus companheiros de armas; e depois de o assalto durar um bom tempo, uma bombarda acertou-lhe numa perna e partiu-a toda e como a bala passou entre as pernas, também a outra ficou bastante ferida.

2. E assim, quando ele caiu, os da fortaleza renderam-se logo aos franceses, os quais depois de se terem apoderado dela, trataram muito bem o ferido, com cortesia e amizade. E depois de ter estado doze ou quinze dias em Pamplona, levaram-no numa liteira para a sua terra.  E encontrando-se aqui muito mal, e tendo chamado todos os médicos e cirurgiões de muitas partes, estes disseram que era necessário partir outra vez a perna e pôr os ossos de novo no seu lugar, dizendo que por terem sido mal postos na primeira vez, ou por se terem deslocado no caminho, estavam fora dos seus lugares e assim não podia curar. E fez-se de novo a carnificina, na qual, como em todas as outras por que passara e passou depois, nunca disse uma palavra, nem mostrou sinal de dor, a não ser apertar fortemente os punhos.

3. Ia entretanto piorando, sem poder comer, e com os outros sintomas que costumam ser sinais de morte. E chegado o dia de S. João, como os médicos tinham pouca esperança de o salvar, aconselharam-no a que se confessasse. E assim recebendo os sacramentos na véspera de S. Pedro e S. Paulo, os médicos disseram que se até à meia noite não sentisse melhoras, se podia dar por morto. O enfermo era devoto de S. Pedro e assim quis nosso Senhor que naquela mesma meia noite se começasse a sentir melhor e foram crescendo tanto as melhoras que daí a alguns dias se pensou que estava fora do perigo de morte.

4. E quando os ossos já estavam soldados uns aos outros, ficou-lhe um osso encavalitado sobre outro por baixo do joelho, por isso a perna ficava mais curta e o osso tão levantado que ficava feio. E não querendo ele resignar-se a isso, porque determinava seguir o mundo, e pensava que aquilo o deformaria, informou-se junto dos cirurgiões se aquilo se podia cortar. Eles disseram que se podia cortar, mas que as dores seriam maiores que todas as que já tinha suportado, por aquele osso já estar curado e ser necessário espaço para o cortar. E apesar disso decidiu martirizar-se por sua própria vontade, ainda que o seu irmão mais velho4 se admirava e dizia que ele não se atreveria a sofrer aquela dor; mas o ferido sofreu com a costumada paciência.

5. E cortada a carne e o osso que ali sobrava, usaram-se remédios para que a perna não ficasse tão curta, aplicando-lhe muitos unguentos e estirando-a continuamente com instrumentos, que o martirizaram durante vários dias. Mas nosso Senhor foi-lhe dando saúde e foi ficando tão bem que em tudo o resto estava são; só que não podia apoiar-se sobre a perna e por isso era obrigado a ficar na cama.  E porque era muito dado a ler livros mundanos e falsos, que costumam chamar-se de cavalaria, sentindo-se bem, pediu que lhe dessem alguns para passar o tempo, mas na casa não se encontrou nenhum daqueles que ele costumava ler e por isso deram-lhe uma Vita Christi e um livro da vida dos Santos em língua pátria.

6.  Lendo-os muitas vezes, algum tanto se ia afeiçoando ao que ali encontrava escrito. Mas, parando de os ler, algumas vezes ficava a pensar nas coisas que tinha lido, e outras vezes pensava nas coisas do mundo nas quais costumava pensar antes.  E de muitas coisas vãs que se ofereciam, uma se apossara tanto do seu coração, que ficava logo embebido a pensar nela duas, três ou quatro horas sem se dar conta, imaginando o que havia de fazer em serviço de uma senhora, os meios que usaria para poder ir à terra onde ela estava, os motes e as palavras que lhe diria, os feitos de armas que faria ao seu serviço. E ficava tão envaidecido com isso, que não via como era impossível alcançá-lo, porque a senhora não era de vulgar nobreza: nem condessa nem duquesa, mas o seu estado era mais alto que qualquer destes.

7. Contudo, nosso Senhor o socorria, fazendo com que a estes pensamentos sucedessem outros que nasciam das coisas que lia. Porque, ao ler a vida de nosso Senhor e dos santos, parava a pensar, raciocinando consigo próprio: – E se eu fizesse aquilo que fez S. Francisco e aquilo que fez S. Domingos? – E assim discorria por muitas coisas que achava boas, propondo-se sempre a si mesmo coisas difíceis e importantes, e ao fazê-lo parecia-lhe encontrar em si facilidade de as levar a cabo. Mas todo o seu discorrer era dizer a si próprio: – S. Domingos fez isto; também eu tenho que fazê-lo. S. Francisco fez isto; também eu tenho que fazê-lo –. Estes pensamentos duravam muito tempo, e depois de se intrometerem outras coisas, apareciam os do mundo mencionados antes, e também neles se detinha muito tempo. E esta sucessão de pensamentos tão diversos durou bastante tempo, detendo-se sempre no pensamento que voltava, quer fosse das façanhas mundanas que desejava fazer, quer outras coisas de Deus que se ofereciam à fantasia, até que sentindo-se cansado deixava tudo isso e ocupava-se doutras coisas.

8. Notava, ainda, esta diferença: quando pensava nas coisas do mundo, sentia um grande prazer; mas quando depois de cansado as deixava, sentia-se árido e descontente. E quando pensava ir a Jerusalém, descalço e comendo só ervas, e em fazer todos os mais rigores que via que os santos tinham feito, não só sentia consolação quando estava nesses pensamentos, mas também depois de os deixar, ficava contente e alegre. Mas não reparava nisso nem se detinha a ponderar esta diferença, até que uma vez se lhe abriram um pouco os olhos e começou a maravilhar-se desta diferença e a fazer reflexão sobre ela. Compreendeu então por experiência que de uns pensamentos ficava triste e de outros alegre, e pouco a pouco veio a conhecer a diversidade dos espíritos que se agitavam: um do demónio e o outro de Deus.  [Foi esta a primeira reflexão que fez nas coisas de Deus. E depois, quando fez os Exercícios, daqui começou a tomar luz para o que diz sobre a diversidade de espíritos].

9. E recebida não pouca luz desta lição, começou a pensar mais a sério na sua vida passada e quanta necessidade tinha de fazer penitência dela. E aqui se lhe ofereciam os desejos de imitar os santos, não olhando a mais circunstâncias que prometer-se assim com a graça de Deus de fazer aquilo que eles tinham feito.  Mas tudo o que desejava fazer, logo que estivesse bom, era ir a Jerusalém, como atrás ficou dito, com tantas disciplinas e abstinências, quantas uma alma generosa, acesa do amor de Deus, costuma desejar fazer.

10. E já se ia esquecendo dos pensamentos passados com a força destes santos desejos que experimentava, os quais lhe foram confirmados por uma visão que se deu do modo seguinte. Estando uma noite desperto, viu claramente uma imagem de Nossa Senhora com o santo Menino Jesus, com a qual recebeu, durante bastante tempo, uma grandíssima consolação, e ficou com tal asco de toda a vida passada, e especialmente de coisas da carne, que lhe parecia terem desaparecido da alma todas as imagens que antes nela tinha impressas.

 Assim, desde aquela hora até ao mês de Agosto de 53, em que isto se escreve, nunca mais teve nem o mínimo consentimento em coisas da carne. Por este efeito se pode julgar ter sido coisa de Deus, ainda que ele não se atrevia a confirmá-lo, e só afirmava o sucedido. Mas, tanto o seu irmão como os outros da casa, foram conhecendo pelo exterior a mudança que se tinha operado interiormente na sua alma.

11. Ele, não se preocupando com nada, perseverava na sua leitura e nos seus bons propósitos e gastava todo o tempo em que conversava com os da casa com coisas de Deus, e com isto produzia proveito nas suas almas. E gostando muito daqueles livros, veio-lhe o pensamento de tirar deles um resumo das coisas mais essenciais da vida de Cristo e dos santos. E assim, pôs-se a escrever um livro com muita diligência, porque já começava a levantar-se e a andar pela casa. [O livro teve quase 300 páginas, todas escritas em quarto]. Escrevia as palavras de Cristo com tinta vermelha e as de Nossa Senhora com tinta azul. O papel era liso e com linhas, e a letra bonita, porque escrevia muito bem. Parte do tempo gastava-o a escrever, outra parte na oração. E a maior consolação que recebia era contemplar o céu e as estrelas, o que fazia muitas vezes e durante muito tempo, porque com aquilo sentia em si uma grande vontade de servir nosso Senhor. Pensava muitas vezes no seu propósito, desejando estar já completamente curado para se pôr a caminho.

12. E pensando no que faria depois de voltar de Jerusalém, para viver sempre em penitência, ocorria-lhe entrar na Cartuxa de Sevilha, sem dizer quem era para que o tivessem em menos conta, e ali não comer senão ervas. Mas quando voltava a pensar nas penitências que pensava fazer, andando pelo mundo, esfriava-se-lhe o desejo da Cartuxa, temendo não poder exercitar contra si o ódio que tinha pensado. Contudo, mandou a um criado da casa que ia a Burgos, que se informasse sobre a regra da Cartuxa, e a informação que dela teve pareceu-lhe bem. Mas, pela razão que se disse acima, e porque andava todo embebido na viagem que pensava fazer brevemente, e só trataria disso depois de regressar, não ligou muito ao assunto.  Achando-se já com algumas forças, pareceu-lhe que era tempo de partir, e disse ao seu irmão: – Senhor, o duque de Nájera, como sabeis, já sabe que estou bom. Será bom que eu vá a Navarrete (o duque estava ali nessa altura). [O irmão e alguns da casa suspeitavam que ele queria fazer alguma grande mudança]. O irmão levou-o a um quarto e depois a outro, e com muitas admirações começou a pedir-lhe que não se deitasse a perder e que visse quanta esperança toda a gente depositava nele e quanto podia ajudar, e outras palavras semelhantes, todas no propósito de o afastar do bom desejo que tinha. Mas a resposta foi de tal maneira que, sem se afastar da verdade (disso tinha já uma grande exigência) se desembaraçou do irmão.

CAPÍTULO II

Em Aránzazu e Navarrete (13). Encontro com um mouro (14-15). Em Monserrate (16-18)

13. E assim, cavalgando uma mula, outro irmão seu quis ir com ele até Oñate, ao qual persuadiu no caminho a que fizessem uma vigília em nossa Senhora de Aránzazu [Desde que partiu da sua terra, disciplinava-se sempre cada noite]. Na oração daquela noite ganhou forças para o caminho, e tendo deixado o irmão em Oñate em casa de uma irmã que ia visitar, ele foi para Navarrete.  E lembrando-se de uns tantos ducados que lhe deviam em casa do duque, pareceu-lhe que seria bom cobrá-los, e para isso escreveu uma cédula ao tesoureiro. E dizendo o tesoureiro que não tinha dinheiro, e sabendo disto o duque, disse que para tudo podia faltar, mas que para Loyola não faltassem, ao qual desejava dar um bom posto, se ele o quisesse aceitar, pelo crédito que tinha ganho no passado. E cobrou o dinheiro e mandou-o distribuir por certas pessoas em relação às quais se sentia obrigado, e outra parte para uma imagem de Nossa Senhora que estava danificada, para que se restaurasse e embelezasse muito bem. E assim, despedindo os dois criados que iam com ele, partiu sozinho na sua mula de Navarrete para Monserrate.

14. E neste caminho aconteceu-lhe uma coisa que será bom escrever-se, para que se entenda como Nosso Senhor dirigia esta alma que ainda estava cega, ainda que com grandes desejos de O servir em tudo o que visse ser seu serviço. E assim determinava fazer grandes penitências, não considerando já tanto satisfazer pelos seus pecados, mas para agradar a Deus. E assim quando se lembrava de fazer alguma penitência que os santos tinham feito, propunha-se fazer a mesma e mais ainda.  E nestes pensamentos tinha toda a sua consolação, não olhando a nenhuma coisa interior, nem sabendo o que era humildade, nem caridade, nem paciência, nem discrição para regular ou medir estas virtudes, senão toda a sua intenção era fazer grandes obras exteriores, porque os santos também as tinham feito para glória de Deus, sem olhar a qualquer outra circunstância. [Tinha tanto aborrecimento dos pecados do passado e desejava tão vivamente fazer grandes coisas por amor de Deus, que sem ajuizar se os seus pecados estavam perdoados, nas penitências que fazia não se lembrava muito deles].

15. Indo, pois, pelo seu caminho, alcançou-o um mouro, montado num macho e começando os dois a conversar, aconteceu falar de Nossa Senhora. E o mouro dizia que lhe parecia bem ter a Virgem concebido sem intervenção de homem, mas não podia acreditar ter dado à luz e continuar virgem, dando para isso motivos naturais que lhe ocorriam. Por mais razões que lhe deu o peregrino não conseguiu mudar-lhe a opinião. E o mouro se adiantou com tanta pressa que o perdeu de vista, ficando ele a pensar naquilo que o mouro lhe tinha dito. E de repente sentiu umas moções que produziam descontentamento na sua alma, parecendo-lhe que não tinha feito o seu dever, e causaram-lhe também indignação contra o mouro, parecendo-lhe que tinha feito mal em consentir que um mouro dissesse tais coisas de Nossa Senhora, e que era obrigado a defender a sua honra. E assim vinham-lhe desejos de ir atrás do mouro e dar-lhe punhaladas por aquilo que tinha dito. E perseverando muito no combate a estes desejos, no fim ficou na dúvida, sem saber a que era obrigado. O mouro, que se tinha adiantado, tinha-lhe dito que ia a um lugar que estava um pouco adiante no seu mesmo caminho, muito próximo do caminho real, mas que este caminho não passava por lá.

16. E assim depois de cansado de examinar o que seria bom fazer, não encontrando coisa certa a que se determinasse, resolveu deixar ir a mula com a rédea solta até ao lugar onde se dividiam os caminhos. E que se a mula fosse pelo caminho da vila, ele buscaria o mouro e lhe daria punhaladas; e se não fosse em direcção à vila, mas pelo caminho real, não lhe faria nada. E fazendo aquilo que pensou, quis Nosso Senhor que, ainda que a vila estava a pouco mais de trinta ou quarenta passos, e o caminho que levava a ela era muito largo e muito plano, a mula tomasse o caminho real, e deixasse o da vila. E chegando a um grande povoado antes de Monserrate, quis comprar ali o vestido que determinara vestir, com o qual iria a Jerusalém. Comprou tela de que costumam fazer sacos, de uma que não é muito tecida e tem muitas farpas e mandou fazer com ela uma veste comprida até aos pés. Comprou mais um bordão e uma cabacinha, e colocou tudo diante do arção da mula. [Comprou também umas alpargatas, das quais só levou uma, não por cerimónia mas porque tinha uma perna toda ligada com uma venda e bastante maltratada, de tal modo que mesmo indo a cavalo, cada noite via que estava inchada e pareceu-lhe que era preciso levar este pé calçado].

17. E continuou o seu caminho para Monserrate, pensando, como sempre costumava fazer, nas façanhas que iria fazer por amor de Deus. E como tinha todo o entendimento repleto daquelas coisas, Amadis de Gaula e outros livros semelhantes, vinham-lhe ao pensamento coisas semelhantes àquelas. E assim resolveu velar armas toda a noite, sem se sentar nem deitar, mas ora de pé ora de joelhos, diante do altar de Nossa Senhora de Monserrate, onde determinara deixar as suas vestes e vestir-se as armas de Cristo. Partindo deste lugar, foi, segundo o seu costume, pensando nos seus propósitos e, chegado a Monserrate, depois de fazer oração e tendo combinado com o confessor, fez confissão geral por escrito, e a confissão demorou três dias. Acertou com o confessor que mandasse recolher a mula e pendurasse a espada e o punhal no altar de Nossa Senhora. E foi este o primeiro homem a quem revelou a sua determinação, porque até ali não a tinha descoberto a nenhum confessor.

18. Na véspera de Nossa Senhora de Março (era assim chamada a festa da Anunciação que já então se celebrava a 25 de Março), de noite, no ano de 22, foi ter com um pobre, o mais secretamente que pôde, e despojando-se de todos os seus vestidos, deu-os ao pobre, e vestiu-se do seu desejado vestido e foi prostrar-se de joelhos diante do altar de Nossa Senhora e, umas vezes de joelhos, outras de pé, com o seu bordão na mão, passou [ali] toda a noite. Partiu logo ao amanhecer10, para não ser conhecido, e foi não pelo caminho direito a Barcelona, onde encontraria muitos que o conhecessem e lhe prestassem honras, mas desviou-se para um povoado chamado Manresa, onde determinava ficar num hospital alguns dias, e também anotar algumas coisas no seu livro que levava bem guardado e com o qual ia muito consolado.  E indo já a uma légua de Monserrate, alcançou-o um homem que vinha com muita pressa atrás dele e perguntou-lhe se tinha dado uns vestidos a um pobre, como o pobre dizia. E respondendo que sim, saltaram-lhe as lágrimas dos olhos, de compaixão pelo pobre a quem tinha dado os vestidos; de compaixão porque viu que o molestavam, pensando que os tinha roubado. Mas, por muito que ele fugisse à estimação, não pôde estar muito tempo em Manresa sem que as pessoas dissessem grandes coisas, opinião motivada por aquilo que acontecera em Monserrate; imediatamente cresceu a fama para afirmar mais do que era: que tinha deixado tanto rendimento, etc.

CAPÍTULO III

Penitência em Manresa (19-21); Moções interiores (22-34); De viagem para Barcelona (35-37)

19. Em Manresa pedia esmola cada dia. Não comia carne nem bebia vinho, mesmo que lho dessem. Nos domingos não jejuava e se lhe davam um pouco de vinho, bebia-o. E porque tinha sido muito vaidoso em cuidar do cabelo, como era costume naquele tempo, e ele o tinha muito bonito, resolveu deixá-lo à sua natureza, sem o pentear nem cortar, nem cobri-lo com alguma coisa, de noite e de dia. E pela mesma razão deixava crescer as unhas das mãos e dos pés, porque também nisto fora vaidoso. Estando neste hospital, aconteceu-lhe muitas vezes em pleno dia ver uma coisa no ar, junto de si, a qual lhe dava muita consolação, porque era sobremaneira formosa. Não conseguia ver bem o que era, mas de alguma maneira parecia-lhe que era uma serpente, e tinha muitas coisas que brilhavam como olhos, ainda que não o eram. Ele deleitava-se e consolava-se muito ao ver esta coisa e quantas mais vezes a via, mais crescia a consolação, e quando aquela coisa desaparecia, ficava desgostado.

20. Até esta altura tinha sempre continuado quase num mesmo estado interior, com uma grande igualdade de alegria, sem ter nenhum conhecimento de coisas interiores espirituais. Nos dias que durou aquela visão, ou um pouco antes dela começar (porque ela durou muitos dias), veio-lhe um pensamento muito forte que o molestou, representando-se-lhe a dificuldade da sua vida, como se lhe dissessem dentro da alma: – E como poderás tu suportar esta vida nos setenta anos que hás-de viver? Mas a isto respondeu também interiormente com muita força (vendo que era do inimigo): – Ó miserável, podes tu garantir-me uma hora de vida? – E assim venceu a tentação e ficou tranquilo.

E foi esta a primeira tentação que lhe veio, depois do que foi dito acima. E isto sucedeu ao entrar numa igreja, na qual ouvia todos os dias a Missa maior, as Vésperas e Completas, tudo cantado, sentindo nisso grande consolação e ordinariamente lia a Paixão durante a missa, sempre em grande tranquilidade interior.

21. Mas, logo depois da mencionada tentação, começou a ter grandes variações na sua alma, encontrando-se às vezes tão desanimado que não sentia gosto nem em rezar, nem em ouvir missa, nem em qualquer outra oração que fizesse. Outras vezes, tudo era tão diferente disto e tão subitamente, que parecia que lhe tinham tirado a tristeza e a desolação, como quem nos tira a capa. E aqui começou a espantar-se destas variações que nunca antes tinha experimentado, e a dizer consigo: – Que nova vida é esta que agora começamos? –  Nesse tempo conversava com pessoas espirituais, que o estimavam e desejavam conversar com ele, porque embora não tivesse conhecimento de coisas espirituais, contudo ao falar mostrava muito fervor e muita vontade de progredir no serviço de Deus. Havia nesse tempo em Manresa uma mulher de idade avançada, e há muito tempo também serva de Deus, e conhecida como tal em muitas partes de Espanha, de tal maneira que o Rei católico a tinha chamado uma vez para comunicar-lhe algumas coisas. Esta mulher ao conversar um dia com o novo soldado de Cristo, disse-lhe: – Oh! Praza ao meu Senhor Jesus Cristo que um dia vos queira aparecer –. Mas ele, espantando-se disto, tomou a coisa por uma brincadeira. – Como me há-de a mim aparecer Jesus Cristo? – Perseverava nas suas costumadas confissões e comunhões cada domingo.

22. Mas entretanto veio a sofrer muitos trabalhos de escrúpulos. Porque, ainda que a confissão geral que tinha feito em Monserrate tinha sido feita com muito cuidado e toda por escrito, como ficou dito, contudo, às vezes parecia-lhe que não tinha confessado algumas coisas, e isto causava-lhe muita aflição, porque mesmo confessando aquilo, não ficava satisfeito.  E assim começou a buscar alguns homens espirituais que o livrassem desses escrúpulos, mas nada o ajudava. E por fim um doutor da Sé, homem muito espiritual que ali pregava, disse-lhe um dia na confissão que escrevesse tudo aquilo de que se pudesse lembrar. Assim o fez, mas depois de confessado, voltavam-lhe os escrúpulos, e as coisas pioravam, de modo que ele se sentia muito atribulado. E embora soubesse em parte que aqueles escrúpulos lhe causavam muito dano e que seria bom livrar-se deles, não era capaz de o fazer. Algumas vezes pensava que seria bom remédio que o seu confessor lhe mandasse, em nome de Jesus Cristo, que não confessasse nenhuma das coisas passadas, e assim desejava que o confessor lho mandasse, mas não tinha coragem de o dizer ao confessor.

23. Mas, sem que ele lho dissesse, o confessor acabou por lhe mandar que não confessasse nenhuma coisa das passadas, se não fosse alguma coisa muito clara. Mas como ele tinha todas aquelas coisas como muito claras, não aproveitava nada esta ordem, e continuava a sua aflição.  Neste tempo estava num quartinho que lhe tinham dado os dominicanos no seu mosteiro, e perseverava nas suas sete horas de oração, de joelhos, levantando-se muitas vezes à meia noite, e em todos os exercícios já mencionados, mas em nenhum encontrava remédio para os seus escrúpulos, depois de muitos meses a ser atormentado por eles. E uma vez, muito atribulado por eles, pôs-se em oração, com cujo fervor começou a gritar a Deus, dizendo: – Socorre-me, Senhor, porque não encontro nenhum remédio nos homens, nem em nenhuma criatura; porque se eu pensasse poder encontrá-lo, nenhum trabalho me pareceria pesado. Mostra-me Tu, Senhor, onde o posso encontrar, porque mesmo que seja necessário ir atrás de um cachorrinho para que me dê o remédio, eu o farei –.

24. Estando nestes pensamentos, vinham-lhe muitas vezes tentações, com grande ímpeto, para deitar-se de um buraco grande que havia junto do lugar onde fazia oração. Mas, sabendo que era pecado matar-se, voltava a gritar: – Senhor, não farei nada que Te ofenda –, repetindo estas palavras, assim como as primeiras, muitas vezes.  E assim veio-lhe ao pensamento a história de um santo, que para alcançar de Deus uma coisa que muito desejava, esteve sem comer muitos dias, até que a alcançou. E depois de pensar nisto durante bastante tempo, resolveu-se a fazê-lo, dizendo consigo que não comeria nem beberia, até Deus o resolver ou até que visse a morte já muito próxima. Porque se lhe acontecesse sentir-se já nas últimas, de tal modo que se não comesse morreria, então determinava pedir pão e comer (caso ele pudesse, naquele extremo, pedi-lo ou comê-lo).

25. Isto aconteceu num domingo depois de ter comungado, e toda a semana continuou a não meter nada na boca, sem deixar de fazer os exercícios do costume, e de ir aos ofícios divinos, e de fazer a sua oração de joelhos, mesmo à meia noite, etc. Mas, quando chegou o outro domingo, em que era necessário ir confessar-se, como costumava contar ao seu confessor com os pormenores tudo o que fazia, disse-lhe também que naquela semana não tinha comido nada. O confessor ordenou-lhe que acabasse com aquela abstinência; e ainda que ele se encontrava com forças, contudo obedeceu ao seu confessor, e viu-se, aquele dia e o outro, livre de escrúpulos.  Mas no terceiro, que era uma terça-feira, estando em oração, começou a lembrar-se dos pecados, e como uma coisa que se vai enfiando, ia pensando de pecado em pecado do tempo passado, parecendo-lhe que era necessário voltar a confessá-los. Mas no fim destes pensamentos vieram-lhe uns desgostos da vida que levava, com alguns ímpetos de deixá-la; com isto quis o Senhor que despertasse como de um sonho. E como já tinha alguma experiência da diversidade de espíritos, com as lições que Deus lhe dera, começou a reparar nos meios pelos quais aquele espírito tinha vindo, e assim resolveu, com grande clareza, não confessar mais nenhuma das coisas passadas. E assim daquele dia em diante ficou livre daqueles escrúpulos, tendo por certo que Deus nosso Senhor o tinha querido libertar, por sua misericórdia.

26. Para além das suas sete horas de oração, ocupava-se em ajudar algumas almas que ali o vinham procurar, por coisas espirituais, e todo o resto do dia que lhe ficava, dedicava-o a pensar em coisas de Deus, a respeito daquilo que tinha lido ou meditado naquele dia.  Mas quando se ia deitar, vinham-lhe, muitas vezes, grandes conhecimentos e grandes consolações espirituais, de tal modo que lhe faziam perder muito tempo que ele tinha destinado para dormir, que não era muito. E reparando algumas vezes nisto, veio a concluir que tinha muito tempo destinado a tratar com Deus depois todo o resto do dia. E por aqui começou a duvidar se aqueles conhecimentos vinham do bom espírito e veio a concluir que era melhor deixá- -los e dormir o tempo destinado, e assim o fez.

27. E perseverando na abstinência de não comer carne, e estando firme nisso, que de nenhuma maneira pensava mudar, um dia de manhã ao levantar-se, representou-se-lhe diante dele carne para comer, como se a visse com olhos corporais, sem ter tido nenhum desejo dela. E veio-lhe também juntamente um grande assentimento da vontade para que dali em diante a comesse; e mesmo que se recordasse do seu propósito anterior, não podia duvidar disso, e determinar que devia comer carne. E contando-o depois ao seu confessor, o confessor dizia-lhe que visse se isso não seria tentação; mas ele examinando-o bem, nunca pôde duvidar disso.  Neste tempo, Deus tratava-o como um mestre-escola trata uma criança, ensinando-o. E quer isto fosse pela sua rudeza e fraca inteligência, ou porque não tinha quem lhe ensinasse, ou pela firme vontade que Deus lhe tinha dado de O servir, via claramente e sempre pensou que Deus o tratava desta maneira. Pelo contrário, se duvidasse disto, pensaria ofender sua Divina Majestade. E isto pode ver-se pelos cinco pontos seguintes.

28. Primeiro. Tinha muita devoção à Santíssima Trindade, e por isso fazia todos os dias oração às três Pessoas separadamente; fazendo também outra conjuntamente à Santíssima Trindade, vinha-lhe o pensamento de como é que fazia 4 orações à Trindade. Mas este pensamento dava-lhe pouco ou nenhum trabalho, como coisa de pouca importância. E estando um dia a rezar, junto à escadaria do mosteiro, as Horas de Nossa Senhora, começou a elevar-se-lhe o pensamento, como se visse a Trindade em figura de três teclas, e isto com tantas lágrimas e soluços que não se podia conter. E indo naquela manhã numa procissão que saía dali, nunca pôde reter as lágrimas até à hora de comer, nem depois de comer podia deixar de falar senão na Santíssima Trindade. E isto com muitas comparações e muito diversas, e com muito gozo e consolação, de tal modo que em toda a sua vida lhe ficou esta impressão de sentir grande devoção, ao fazer oração à Santíssima Trindade.

29. Segundo. Uma vez se lhe representou no entendimento, com grande alegria espiritual, o modo com que Deus tinha criado o mundo, que lhe parecia ver uma coisa branca, da qual saíam alguns raios, e que dela Deus fazia luz. Mas estas coisas nem as sabia explicar, nem se lembrava totalmente das luzes espirituais que naqueles tempos Deus lhe imprimia na alma. Terceiro. Na mesma Manresa, onde esteve quase um ano, depois que começou a ser consolado por Deus, e viu o fruto que fazia no trato com as almas, deixou aqueles excessos que antes praticava e já cortava as unhas e o cabelo. Assim, que estando neste povoado, na igreja do mencionado mosteiro, ouvindo um dia missa, na elevação do Corpus Domini viu com os olhos interiores, uns como raios brancos que vinham de cima. E ainda que depois de tanto tempo não pode explicar isto muito bem, contudo, o que ele viu com o entendimento, foi ver claramente como estava naquele Santíssimo Sacramento Jesus Cristo nosso Senhor. Quarto. Muitas vezes e por muito tempo, estando em oração, via com os olhos interiores, a humanidade de Cristo, e a sua figura, que lhe parecia como um corpo branco, não muito grande nem muito pequeno, mas não via distinção de membros. Isto viu em Manresa muitas vezes: se dissesse vinte ou quarenta, não se atreveria a julgar que era mentira. Viu-o outra vez quando estava em Jerusalém, e outra vez caminhando junto a Pádua. A Nossa Senhora também a viu de modo semelhante, sem distinguir as partes. Estas coisas que viu então, confirmaram-no e deram-lhe tanta confirmação da fé, que muitas vezes pensou consigo que se não houvesse Escritura que nos ensinasse estas coisas da fé, ele se determinaria a morrer por elas, só por aquilo que viu.

30. Quinto. Uma vez, ia, por sua devoção, a uma igreja que estava a pouco mais de uma milha de Manresa, que creio eu que se chama S. Paulo, e o caminho vai junto ao rio. E indo assim nas suas devoções, sentou-se um pouco, virado para o rio que corria fundo. E estando ali sentado, começaram a abrir-se-lhe os olhos do entendimento; e não que visse alguma visão, senão entendendo e conhecendo muitas coisas, tanto de coisas espirituais, como de coisas da fé e das letras. E isto com uma ilustração tão grande, que todas as coisas lhe pareciam novas. E não se podem declarar os particulares que então entendeu, ainda que foram muitos, senão que recebeu uma grande claridade no entendimento, de tal modo que em todo o decurso da sua vida, até aos sessenta e dois anos, coligindo todas as ajudas recebidas de Deus, e todas as coisas que soube, ainda que as junte todas, não lhe parece ter alcançado tanto como daquela só vez. [Nisto ficou com o entendimento de tal modo ilustrado, que lhe parecia como se fosse outro homem e tivesse outro entendimento diferente do que tinha antes].

31. E depois disto ter durado um bom espaço, foi prostrar-se de joelhos diante de uma cruz que estava ali perto, a dar graças a Deus, e ali lhe apareceu aquela visão que muitas vezes lhe aparecia e nunca a tinha conhecido, a saber, aquela coisa que antes se disse que lhe parecia muito bonita, com muitos olhos. Mas bem viu, estando diante da cruz, que aquela coisa não tinha uma cor tão bonita como era costume. E teve um conhecimento muito claro, com grande assentimento da vontade, que aquele era o demônio. E assim, depois muitas vezes, durante muito tempo, costumava aparecer-lhe, e ele, a modo de menosprezo, o afastava com um bordão que costumava trazer na mão.

32. Estando uma vez doente em Manresa, esteve à morte com uma febre tão forte, que pensava que a alma iria sair em breve. E nisto vinha-lhe um pensamento que lhe dizia que ele era justo, e causava-lhe tanta aflição que só lhe dava repugnância e pondo-lhe diante os seus pecados; e tinha mais trabalho com este pensamento que com a própria febre. Mas não conseguia vencer este pensamento, por muito que trabalhasse para o vencer. Mas, aliviado um pouco da febre, não estando já mais naquele extremo de expirar, e começou a dar grandes gritos a umas senhoras que tinham vindo visitá-lo, que por amor de Deus, quando o vissem outra vez a ponto de morrer, lhe gritassem em altas vozes, dizendo-lhe: «Pecador! Lembra-te das ofensas que cometeste contra Deus!».

33. Outra vez, vindo de Valência para a Itália, com mar muito tempestuoso, partiu-se o timão da nave, e a coisa chegou a termos, que a juízo dele e de muitos que vinham na nave, naturalmente não se poderia escapar da morte. Neste tempo, examinando-se bem e preparando-se para morrer, não podia ter temor dos seus pecados, nem de ser condenado; mas tinha grande confusão e dor, por julgar que não tinha empregado bem os dons e as graças que Deus Nosso Senhor lhe tinha comunicado. Outra vez no ano 50, esteve muito mal de uma grave enfermidade, que a seu juízo e também de muitos, era tida como a última.

Neste tempo, pensando na morte, tinha tanta alegria e tanta consolação espiritual por ter de morrer, que se derretia todo em lágrimas. E isto veio a ser tão contínuo, que muitas vezes deixava de pensar na morte, para não ter tanto aquela consolação.

34. Vindo o Inverno, adoeceu de uma enfermidade muito grave, e para o curar, a cidade colocou-o em casa do pai de um Ferrera, que depois foi criado de Baltasar de Faria. E ali era curado com muita diligência, e pela veneração que já tinham com ele, muitas senhoras principais vinham velá-lo de noite. E refazendo-se desta enfermidade, ficou ainda muito debilitado e com frequentes dores de estômago. E assim por estas causas e também por ser o Inverno muito frio, fizeram com que se vestisse e calçasse e cobrisse a cabeça. E assim fizeram com que ele tomasse duas roupas pardas, de pano muito grosso e um boné do mesmo, como meia gorra. E neste tempo, havia muitos dias que ele era muito ávido de praticar sobre coisas espirituais, e de encontrar pessoas que fossem capazes delas. Ia chegando o tempo que ele tinha pensado para partir para Jerusalém.

35. E assim, no princípio do ano 23 partiu para Barcelona para aí embarcar. E ainda que se ofereciam algumas companhias, quis ir sozinho, porque toda sua ideia era ter só a Deus por refúgio. E assim a uns que lhe instavam muito, porque não sabia a língua italiana nem a latina, para que tomasse uma companhia, dizendo quanto o ajudaria e louvando-a muito, ele disse que ainda que fosse filho ou irmão do duque de Cardona, não iria na sua companhia, pois desejava alcançar três virtudes: caridade, fé e esperança. E levando um companheiro, quando tivesse fome, esperaria ajuda dele; e quando caísse, ajudá-lo-ia a levantar-se. E assim também se confiaria a ele e lhe teria afeição por estes motivos; e que esta confiança, afeição e esperança, as queria ter só em Deus. E isto que dizia desta maneira, o sentia assim no coração.

E com estes pensamentos, tinha desejos de embarcar, não somente só, mas sem nenhuma provisão. E começando a negociar a embarcação, conseguiu do mestre da nave que o levasse de graça, pois não tinha dinheiro, mas com a condição de meter no navio alguns biscoitos para se manter, pois de outra maneira por nada do mundo o receberiam.

36. E querendo negociar os tais biscoitos, vieram-lhe grandes escrúpulos: – É esta a esperança e a fé que tu tinhas em Deus, que não te faltaria? – etc. E isto com tanta eficácia que lhe dava muito trabalho. E por fim, sem saber que fazer, porque via razões das duas partes, determinou pôr-se nas mãos do seu confessor; e assim declarou-lhe quanto desejava seguir a perfeição e aquilo que mais fosse glória de Deus, e as causas que o faziam duvidar se devia levar mantimento. O confessor resolveu que pedisse o necessário e o levasse consigo. E pedindo-o a uma senhora, ela perguntou-lhe para onde queria embarcar. Ele esteve duvidando um pouco se lho diria e por fim não se atreveu a dizer senão que ia a Itália e a Roma. E ela, como espantada, disse-lhe: – A Roma quereis ir? Pois os que lá vão, não sei como vêm (querendo dizer que em Roma se aproveitavam pouco de coisas espirituais).  E a causa pela qual não ousou dizer que ia a Jerusalém, foi por temor da vanglória. Este temor afligia-o tanto, que não ousava dizer de que terra nem de que casa era. Por fim, conseguidos os biscoitos, embarcou. Mas encontrando-se na praia com cinco ou seis moedas das que lhe tinham dado, ao pedir esmola pelas portas (porque assim costumava viver), deixou-as num banco que encontrou ali junto da praia.

37. E embarcou depois de ter estado em Barcelona pouco mais de vinte dias. Estando ainda em Barcelona, antes de embarcar, segundo o seu costume, buscava todas as pessoas espirituais, mesmo que estivessem em ermidas fora da cidade, para tratar com elas. Mas nem em Barcelona nem em Manresa, durante todo o tempo que ali esteve, pôde encontrar pessoas que o ajudassem como ele desejava. Somente em Manresa, aquela mulher de que atrás se falou (n.21), que lhe tinha dito que pedia que lhe aparecesse Jesus Cristo: só esta lhe parecia que entrava mais nas coisas espirituais. E assim, depois de partir de Barcelona, perdeu totalmente esta ânsia de buscar pessoas espirituais.

CAPÍTULO IV

De viagem para Roma (38-41). De Veneza a Jerusalém (42-48)

38. Tiveram vento tão violento de popa, que chegaram de Barcelona a Gaeta em cinco dias com as suas noites, ainda que com muito medo de todos, pela muita tempestade. Por toda aquela terra se temia a peste, mas ele, logo que desembarcou, começou a caminhar para Roma. Dos que vinham na nave, juntaram-se em sua companhia, uma mãe, com uma filha que vestia roupas de rapaz, e um outro moço. Estes seguiam-no porque também mendigavam. Chegados a uma herdade, encontraram uma grande fogueira e muitos soldados à volta dela, os quais lhes deram de comer e lhes davam muito vinho, convidando-os, de maneira que parecia quererem embebedá-los. Depois separaram-nos, pondo a mãe e a filha em cima, num quarto, e o peregrino com o moço, no estábulo. Mas quando chegou a meia noite, ouviu que lá em cima se davam grandes gritos: e levantando-se para ver o que era, encontrou a mãe e a filha em baixo, no pátio, muito chorosas, queixando-se que as queriam forçar. A ele [peregrino] veio-lhe, por causa disso, um ímpeto tão grande que se pôs a gritar: – Isto se há-de sofrer? – e queixas semelhantes, as quais dizia com tanta eficácia, que todos os da casa ficaram admirados, sem que nenhum lhe fizesse qualquer mal. O moço já tinha fugido, e os três começaram a caminhar assim de noite.

39. E chegados a uma cidade que estava perto, e não podendo entrar, os três passaram aquela noite, de muita chuva, numa igreja que ali havia. De manhã não quiseram abrir-lhes a cidade e por fora não encontravam esmola, nem sequer num castelo que parecia perto dali, no qual o peregrino se sentiu fraco, tanto pela viagem por mar, como por tudo o mais, etc. E não podendo caminhar mais, ficou por ali e a mãe e a filha continuaram para Roma.  Aquele dia saiu muita gente da cidade, e sabendo que vinha ali a senhora da terra, pôs-se diante dela, dizendo-lhe que estava doente de pura fraqueza, e pedia-lhe que o deixasse entrar na cidade para buscar algum remédio. Ela concedeu-lho facilmente. E começando a mendigar pela cidade, encontrou muitos quatrins, e refazendo-se ali dois dias, voltou a prosseguir o seu caminho, e chegou a Roma no Domingo de Ramos.

40. Aqui, todos os que falavam com ele, sabendo que não levava dinheiro para ir a Jerusalém, começaram a dissuadi-lo da ida, afirmando-lhe com muitas razões que era impossível arranjar passagem sem dinheiro. Mas ele tinha uma grande certeza na sua alma, de tal modo que não podia duvidar de que havia de encontrar modo de ir a Jerusalém.  E tendo recebido a bênção do papa Adriano VI, partiu para Veneza, oito ou nove dias depois da Páscoa da Ressurreição. Levava ainda seis ou sete ducados que lhe tinham dado para a passagem de Veneza a Jerusalém e que ele recebera, vencido um pouco pelos temores que lhe incutiam de não poder passar de outra maneira.  Mas dois dias depois de ter saído de Roma, começou a ver que aquilo tinha sido desconfiança que tinha tido, e pesou-lhe muito ter aceite os ducados, e pensava se seria bom deixá-los. Mas por fim determinou-se a gastá-los generosamente com aqueles que lhe apareciam, que ordinariamente eram pobres. E fê-lo de tal maneira, que quando depois chegou a Veneza, não levava mais que alguns quatrins, que naquela noite lhe foram necessários.

41. Todavia, por este caminho até Veneza, por causa dos vigias contra a peste, dormia pelos pórticos. E aconteceu-lhe uma vez, ao levantar-se de manhã, topar com um homem, que ao vê-lo se pôs a correr cheio de medo, porque parece que o viu muito pálido.

 Caminhando chegou a Choza e, com alguns companheiros que se lhe tinham juntado, soube que não os deixariam entrar em Veneza. Os companheiros determinaram ir a Pádua, para ali tomar a cédula de saúde, e assim partiu com eles; mas não pôde caminhar tanto, porque caminhavam muito depressa, e deixaram-no, quase de noite, num descampado, onde lhe apareceu Cristo da maneira que lhe costumava aparecer, como dissemos atrás, e confortou-o muito.  E com esta consolação, no outro dia de manhã, sem apresentar cédula, como (creio) tinham feito os seus companheiros, chegou à porta de Pádua, e entrou sem que os guardas lhe pedissem nada, e o mesmo lhe aconteceu à saída. Disso se espantaram muito os seus companheiros que acabavam de tomar cédula para ir a Veneza, com a qual ele não se preocupou.

42. E chegados a Veneza, vieram os guardas ao barco para examinar, um por um, a todos os que ali estavam, e só a ele deixaram. Mantinha-se mendigando, e dormia na praça de S. Marcos, e nunca quis ir a casa do embaixador do imperador, nem fazia diligência especial para buscar dinheiro para a passagem. Tinha uma grande certeza na sua alma de que Deus lhe havia de dar modo de ir a Jerusalém e esta certeza o confirmava tanto, que nenhumas razões e medos que lhe punham o faziam duvidar. Um dia encontrou-o um homem rico, espanhol, e este perguntou-lhe o que fazia e onde queria ir, e sabendo da sua intenção, levou-o a comer em sua casa, e depois hospedou-o alguns dias até se preparar a partida. Tinha o peregrino este costume, já desde Manresa, que quando comia com outros, nunca falava à mesa, só respondendo brevemente; mas escutava o que se dizia, e retendo algumas coisas, das quais tomasse ocasião de falar de Deus, fazia-o no fim da refeição.

43. E foi esta causa pela qual o homem de bem, com toda a sua casa, tanto se afeiçoaram a ele, que o quiseram reter e obrigar a ficar em sua casa. E o mesmo hospedeiro levou-o ao duque de Veneza, para que lhe falasse, isto é, alcançou-lhe a entrada e a audiência. O duque, logo que ouviu o peregrino, mandou que lhe dessem embarcação no navio dos governadores que ia para Chipre.

Ainda que naquele ano tinham vindo muitos peregrinos [para ir] a Jerusalém, a maior parte deles tinham voltado para as suas terras, pelo novo caso sucedido da tomada de Rodes.Todavia havia treze na nau peregrina, que partiu primeiro, e oito ou nove ficaram para a dos governadores. Estando esta para partir, veio-lhe ao nosso peregrino uma doença de febres, que depois de o terem incomodado alguns dias o deixaram e a nave partia no dia em que ele tinha tomado uma purga. Os da casa perguntaram ao médico se podia embarcar para Jerusalém e o médico disse que para ser sepultado lá, podia embarcar. Mas ele embarcou e partiu aquele dia; e vomitou tanto que ficou aliviado e começou a sarar completamente. Nesta nau cometiam-se algumas indecências e torpezas manifestas, que ele repreendia com severidade.

44. Os espanhóis que ali iam avisavam-no que não fizesse aquilo, porque os da nau tratavam de o deixar nalguma ilha. Mas quis Deus Nosso Senhor que chegassem depressa a Chipre, onde deixada aquela nave, foram por terra a outro porto que se chama Las Salinas, que estava a dez léguas dali, e entraram na nau peregrina, na qual também não meteu mais para seu mantimento, que a esperança que levava em Deus, como tinha feito na outra. Em todo este tempo aparecia-lhe muitas vezes Nosso Senhor, que lhe dava muita consolação e ânimo; mas parecia-lhe que via uma coisa redonda e grande, como se fosse de ouro, que se lhe representava. Depois de partidos de Chipre, chegaram a Jafa.  E caminhando para Jerusalém nos seus burrinhos, como é costume, duas milhas antes de chegar a Jerusalém, um espanhol, nobre, segundo parecia, chamado Diego Manes, disse, com muita devoção, a todos os peregrinos que já que dali a pouco haviam de chegar ao lugar donde se podia ver a cidade santa, seria bom que todos se preparassem em suas consciências, e que fossem em silêncio.

45. E parecendo bem a todos, começou cada um a recolher-se; e um pouco antes de chegar ao lugar donde se via [a cidade], apearam-se, porque viram os frades, com a cruz, que os estavam esperando. E vendo a cidade, teve o peregrino grande consolação; e segundo os outros diziam, foi universal em todos, com uma alegria que não parecia natural; e a mesma devoção sentiu sempre nas visitas dos lugares santos. O seu firme propósito era ficar em Jerusalém, visitando sempre aqueles lugares santos e tinha também o propósito, para além desta devoção, de ajudar as almas; e para este efeito trazia cartas para o guardião, que lhe entregou e disse-lhe a sua intenção de ficar ali por sua devoção; mas não a segunda parte, de querer aproveitar às almas, porque isto a ninguém o dizia, e a primeira [parte] a tinha manifestado muitas vezes.

O guardião respondeu-lhe que não via como pudesse ficar, porque a casa estava em tanta necessidade, que não podia manter os frades, e por esta causa estava determinado a mandar alguns com os peregrinos para estas partes [Europa]. O peregrino respondeu que não queria nada da casa, senão somente que quando algumas vezes viesse ele a confessar-se, o ouvissem de confissão. E com isto o guardião lhe disse que daquela maneira podia fazer, mas que esperasse até que viesse o Provincial (creio que era o supremo da Ordem naquela terra), o qual estava em Belém.

46. Com esta promessa se assegurou o peregrino, e começou a escrever cartas para Barcelona, para pessoas espirituais. Tendo já uma escrita e estando a escrever outra, na véspera da partida dos peregrinos, vêm a chamá-lo da parte do provincial e do guardião, porque este tinha chegado. O provincial disse-lhe, com boas palavras, como tinha sabido da sua boa intenção de ficar naqueles lugares santos e que tinha pensado muito na coisa, e que pela experiência que tinha de outros, pensava que não convinha. Porque muitos tinham tido aquele desejo, e uns tinham sido presos e outros tinham morrido e que depois a religião ficava obrigada a resgatar os presos; e que, portanto, se preparasse para ir no outro dia com os peregrinos. Ele respondeu a isto que tinha este propósito muito firme, e que julgava por nenhuma coisa deixar de o pôr por obra, dando honestamente a entender que, ainda que ao provincial não lhe parecesse, se não fosse coisa que o obrigasse em pecado, que ele não deixaria o seu propósito por nenhum temor. A isto disse o provincial que eles tinham autoridade da Sé Apostólica para fazer sair ou ficar a quem lhes parecesse, e poder excomungar a quem não quisesse obedecer, e que neste caso eles julgavam que não devia ficar, etc.

47. E querendo mostrar as bulas, pelas quais podiam excomungá-lo, ele disse que não era preciso vê-las, e que acreditava em suas reverências e pois que assim julgavam com a autoridade que tinham, que lhes obedeceria. E acabado isto, voltando para onde antes estava, veio-lhe um grande desejo de visitar o monte Olivete, antes de partir, já que não era vontade de nosso Senhor que ele ficasse naqueles lugares santos. No monte Olivete, está uma pedra da qual subiu nosso Senhor aos céus, e se vêem ainda agora as pisadas impressas31, e isto era o que ele queria tornar a ver. E assim, sem dizer nada nem tomar guia (porque os que vão sem turco por guia, correm grande perigo), abandonou os outros, e foi sozinho ao monte Olivete. E os guardas não o queriam deixar entrar. Deu-lhes [então] um canivete da escrivaninha que levava, e depois de ter feito oração, com muita consolação, veio-lhe o desejo de ir a Betfagé. E estando ali, voltou a lembrar-se que no monte Olivete não tinha visto bem para que parte estava o pé direito e para que parte o esquerdo, e voltando ali, parece que deu as tesouras aos guardas, para que o deixassem entrar.

48. Quando se soube no mosteiro que ele tinha partido, assim sem guia, os frades fizeram diligências para o encontrar. E assim, ao descer do monte Olivete, encontrou-se com um cristão da cintura, que servia no mosteiro, o qual com um grande bastão, e com mostras de grande aborrecimento, fazia sinais de bater-lhe. Chegando a ele, travou-o fortemente do braço e ele deixou-se facilmente levar. Mas o bom homem não o largou. Indo pelo caminho, assim agarrado pelo cristão da cintura, teve grande consolação do Senhor, parecendo-lhe que via a Cristo sempre sobre ele. E isto durou sempre com grande abundância, até chegar ao mosteiro.

CAPÍTULO V

Regresso da Palestina e passagem por Chipre, até Veneza e Ferrara (49-50). Vai de Ferrara a Génova e embarca para Barcelona (51-53)

49. Partiram no outro dia e chegados a Chipre, os peregrinos dividiram-se por diversas naves. No porto havia três ou quatro para Veneza. Uma era de turcos, e outra era um navio muito pequeno, e a terceira era uma nave muito rica e poderosa de um rico homem veneziano. Os peregrinos pediram ao patrão desta que quisesse levar o peregrino, mas ele como soube que não tinha dinheiro, não quis, ainda que muitos lhe pediram, louvando-o, etc. O patrão respondeu que se era santo, passasse como passou Santiago, ou uma coisa parecida. Estes mesmos intercessores conseguiram-no muito facilmente do patrão do pequeno navio.

Partiram um dia, com vento próspero, pela manhã, e à tarde sobreveio-lhes uma tempestade, por causa da qual [as naus] se separam umas das outras, e a grande veio a perder-se junto das mesmas ilhas de Chipre e só se salvaram as pessoas. E na mesma tormenta perdeu-se a nave dos turcos e toda a gente com ela. O navio pequeno passou muito trabalho e por fim vieram aportar a uma terra de Pulla, e isto na força do Inverno e por isso fazia grandes frios e nevava. E o peregrino não levava mais roupa que uns calções de tela grossa, até aos joelhos, e as pernas nuas, com sapatos e um gibão de tela preta, com muitas aberturas, pelos ombros, e um casaco curto com pouco pelo.

50. Chegou a Veneza a meados de Janeiro do ano 24, tendo estado no mar, desde Chipre, todo o mês de Novembro, Dezembro e parte de Janeiro. Em Veneza, encontrou-o um daqueles dois que o tinham acolhido em sua casa, antes da partida para Jerusalém e este deu-lhe de esmola 15 ou 16 júlios e um pedaço de pano no qual fez muitas pregas e colocou sobre o estômago, pelo grande frio que fazia. Depois que o dito peregrino entendeu que era vontade de Deus que não estivesse em Jerusalém, sempre veio pensando consigo que faria, e ao fim inclinava-se mais a estudar algum tempo, para poder ajudar as almas e determinava-se a ir a Barcelona, e assim partiu de Veneza para Génova. E estando um dia em Ferrara, na igreja principal, cumprindo com as suas devoções, um pobre pediu-lhe esmola, e ele deu-lhe um marquete, que é moeda de 5 ou 6 quatrins. E depois daquele veio outro, e deu-lhe outra pequena moeda que tinha, um pouco maior. E ao terceiro, não tendo senão júlios, deu-lhe um júlio. E como os pobres viam que dava esmola, não faziam senão vir, e assim se acabou tudo o que trazia. E no fim vieram muitos pobres juntos pedir esmola e ele respondeu que lhe perdoassem, mas não tinha mais nada.

51. E assim partiu de Ferrara para Génova. Encontrou no caminho uns soldados espanhóis, que naquela noite o trataram muito bem e se espantaram muito por ele fazer aquele caminho, porque era necessário passar quase pelo meio de ambos os exércitos, franceses e imperiais, e pediam-lhe que deixasse a estrada real, e tomasse outra mais segura que lhe indicaram.  Mas ele não seguiu o seu conselho, e continuando pelo caminho em frente, veio dar a um povoado queimado e destruído, e assim até à noite não encontrou ninguém que lhe desse nada para comer. Mas ao pôr do sol, chegou a uma aldeia cercada, e os guardas agarraram-no logo, julgando que era um espião; e metendo-o numa casinha junto da porta, começaram a revistá-lo, como se costuma fazer quando existe suspeita. Ele respondia a todas as perguntas que não sabia nada. Despiram-no e até os sapatos lhe examinaram, e todas as partes do corpo, para ver se levava alguma carta. E não podendo saber nada por nenhuma via, agarraram-no para o levar ao capitão, que ele o faria falar. E pedindo ele que o levassem coberto com o seu casaco, não lho quiseram dar, e levaram-no assim com os calções e o gibão, atrás mencionados.

52. Nesta ida teve o peregrino como que uma representação de quando levaram Cristo, ainda que não foi uma visão como as outras. E foi levado por três ruas grandes, mas ele ia sem nenhuma tristeza, antes com alegria e contentamento. Ele tinha por costume falar, a qualquer pessoa que fosse, por vós, tendo esta devoção de que assim falavam Cristo e os apóstolos, etc. Indo assim por aquelas ruas, passou-lhe pela fantasia que seria bom deixar esse costume naquele transe e tratar o capitão por senhoria, e isto com alguns temores dos tormentos que lhe podiam dar, etc. Mas como viu que era tentação, [disse consigo]: – Pois assim é, não lhe falarei por senhoria, nem lhe farei reverência, nem lhe tirarei a carapuça.

53. Chegaram ao palácio do capitão e deixaram-no preso numa sala de baixo, e dali a um pouco falou-lhe o capitão. E sem fazer nenhum modo de cortesia, respondeu-lhe poucas palavras, e com notável espaço entre uma e outra. E o capitão tomou-o por louco e assim o disse aos que o tinham trazido: – Este homem não tem juízo; dai-lhe o que é dele e ponde-o fora daqui –. Saído do palácio, logo encontrou um espanhol que ali vivia, e que o levou para sua casa e lhe deu de comer e tudo o mais necessário para aquela noite.

 E partindo de manhã, caminhou até à tarde, altura em que o viram dois soldados que estavam numa torre, e desceram a prendê-lo. E levando-o ao capitão, que era francês, o capitão perguntou-lhe, entre outras coisas, de que terra era, e ouvindo que de Guipúzcoa, disse-lhe: – Eu sou dali perto, parece que junto de Baiona, e disse logo: – Levai-o e dai-lhe de cear, e tratai-o bem – . Neste caminho de Ferrara para Génova, sucederam-lhe outras coisas de menos importância, e por fim chegou a Génova, onde o reconheceu um biscainho chamado Portundo, que outras vezes lhe tinha falado, quando servia na corte do Rei Católico. Este [espanhol] fê-lo embarcar numa nave que ia para Barcelona, na qual correu grande perigo de ser capturado por Andrea Dória, que então era francês e lhe deu caça.

CAPÍTULO VI

Estudos em Barcelona (54-55). Estudos em Alcalá, onde também dá Exercícios, é preso e solto (55-62). Sai de Alcalá em direcção a Valhadolid e Salamanca (63)

54. Chegado a Barcelona manifestou a sua intenção de estudar a Isabel Roscer e com um mestre chamado Ardévol que ensinava gramática. A ambos pareceu muito bem, e ele ofereceu-se para o ensinar de graça, ela [Isabel Roser] dar-lhe o que fosse necessário para o sustentar. O peregrino conhecera em Manresa um frade, creio que de S. Bernardo, homem muito espiritual, e desejava estar com ele, para aprender, e para poder dar-se mais comodamente ao espírito, e também aproveitar às almas.  E assim respondeu que aceitava a oferta, se em Manresa não encontrasse a comodidade que desejava. Mas tendo lá ido, disseram-lhe que o frade tinha morrido. Por isso regressando a Barcelona, começou a estudar com muita diligência. Mas impedia-o muito uma coisa, e era quando começava a decorar, como é necessário nos princípios da gramática, vinham-lhe novas inteligências de coisas espirituais e novos gostos, e isto de tal maneira que não podia decorar, nem por muito que se esforçasse as podia afastar.

55. E pensando muitas vezes sobre isto, dizia consigo: – Nem quando estou na oração e na missa, me vêm estas inteligências tão vivas – . E assim a pouco e pouco veio a conhecer que aquilo era tentação. E depois de feita oração, foi a Santa Maria del Mar, perto da casa do mestre, tendo-lhe pedido que o quisesse ouvir um pouco naquela igreja. E assim, sentados, declarou-lhe fielmente tudo o que lhe passava pela alma, e quão pouco proveito tinha tido até então, por aquela causa, mas que fazia ao mestre esta promessa: – Eu vos prometo nunca faltar às vossas aulas estes dois anos, enquanto em Barcelona encontrar pão e água com que possa manter-me –. Fez esta promessa com tal eficácia, que nunca mais teve aquelas tentações.  A dor de estômago que o atacou em Manresa, por causa da qual calçou sapatos, largou-o, e ficou bom do estômago, desde que partira para Jerusalém. E por isso, estando a estudar em Barcelona, veio-lhe o desejo de voltar às penitências passadas. E assim começou a fazer um buraco nas solas dos sapatos. Ia-os alargando a pouco e pouco, de tal maneira que quando chegou o frio do Inverno, só já tinha a sola de cima.

56. Acabados dois anos de estudo, nos quais, segundo lhe diziam, tinha aproveitado, disse-lhe o seu mestre que já não podia ouvir Artes, e que fosse para Alcalá. Contudo, ele fez-se examinar por um doutor em teologia, o qual lhe aconselhou o mesmo. E assim partiu sozinho para Alcalá, se bem que já tivesse alguns companheiros, segundo creio.

Chegado a Alcalá, começou a viver de esmolas. E depois, dali a dez dias que vivia desta maneira, um dia, um clérigo e outros que estavam com ele, vendo-o a pedir esmola, começaram a rir-se dele, e a dizer-lhe algumas injúrias, como se costuma fazer aos que mendigam, apesar de terem saúde. E passando nessa altura o responsável do novo hospital de Antezana, mostrando pesar por aquilo, chamou-o, e levou-o para o hospital, onde lhe deu um quarto e tudo o necessário.

57. Estudou em Alcalá quase ano e meio. Tendo chegado a Barcelona na quaresma de 1524, onde estudou dois anos, no ano de 26 chegou a Alcalá e aí estudou Termos de Soto e Física de Alberto, e o Mestre das Setenças.  E estando em Alcalá exercitava-se em dar exercícios espirituais e declarar a doutrina cristã, e com isto fazia-se fruto para a glória de Deus. E houve muitas pessoas que chegaram a grande conhecimento e gosto de coisas espirituais; outras tinham várias tentações, como aconteceu com uma que querendo-se disciplinar, não o podia fazer, como se lhe detivessem a mão, e outras coisas que causavam rumores entre o povo, sobretudo pelo muito concurso de gente que havia onde quer que ele declarasse a doutrina. [Recordar-me-ei do temor que ele próprio passou uma noite]. Logo que chegou a Alcalá, conheceu D. Diego de Eguía, que estava em casa de um irmão seu que tinha uma imprensa em Alcalá e tinha bem o necessário. E assim o ajudavam com esmolas para manter os pobres, e tinha os três companheiros do peregrino em casa. Uma vez, vindo a pedir-lhe esmola para algumas necessidades, disse-lhe D. Diego que não possuía dinheiro, mas abriu-lhe uma arca em que tinha diversas coisas, e assim deu-lhe cobertas de cama de várias cores, alguns candeeiros e outras coisas semelhantes que o peregrino embrulhou num lençol e pôs às costas, e foi remediar os pobres.

58. Como se disse antes, havia um grande rumor por toda aquela terra das coisas que se faziam em Alcalá, e uns diziam uma coisa e outros outra. E isto chegou a Toledo, aos ouvidos dos inquisidores. Estes vieram a Alcalá, e o peregrino foi avisado pelo seu hospedeiro, dizendo-lhe que os chamavam os «ensaialados» e creio que «alumbrados» e que iriam fazer carnificina entre eles. E começaram logo a fazer inquirição e processo da sua vida, e por fim voltaram para Toledo sem os ter chamado, apesar de terem vindo só para esse efeito, e deixaram o processo ao vigário Figueroa, que agora está com o imperador.  O qual [vigário Figueroa] daí a alguns dias os chamou e lhes disse como se tinha feito inquirição e processo das suas vidas pelos inquisidores, e que não se encontrava nenhum erro na sua doutrina nem na sua vida, e que portanto podiam fazer o mesmo que faziam, sem nenhum impedimento. Mas não sendo eles religiosos, não parecia bem andarem todos com um mesmo hábito; que seria bom, e ordenava, que os dois, e apontava para o peregrino e Artiaga, pintassem as suas roupas de preto, e os outros dois, Calixto e Cáceres, as pintassem de alaranjado e Juanico [Joãozinho], rapazinho francês, podia ficar assim.

59. O peregrino disse que fariam o que lhes era mandado. – Mas não sei, disse ele, para que são estas inquirições: que a um tal não lhe quis um sacerdote, no outro dia, dar o sacramento [a comunhão], porque comunga cada oito dias e a mim também me faziam dificuldade. Queríamos saber se nos encontraram alguma heresia. – Não, disse Figueroa, porque se a encontrassem vos queimariam –. – Também vos teriam queimado a vós, disse o peregrino, se vos tivessem encontrado heresia –. Pintaram as vestes como lhes tinham mandado, e dali a quinze ou vinte dias Figueroa mandou ao peregrino que não andasse descalço, mas que se calçasse. Ele obedeceu calmamente, como em todas as coisas parecidas que lhe mandavam [R.(ecordar-me) do que me contou Bustamante].  Dali a quatro meses, o mesmo Figueroa voltou a fazer inquirições sobre eles e para além das causas costumadas, creio que foi também

alguma ocasião que uma mulher casada e nobre tinha especial devoção ao peregrino. Para não ser vista, vinha coberta, como é costume em Alcalá de Henares, entre duas luzes, ao amanhecer, ao hospital. E ao entrar descobria-se e ia ao quarto do peregrino. Mas nem desta vez lhes fizeram nada, nem depois de feito o processo os chamaram, nem disseram coisa alguma.

60. Dali a outros quatro meses em que ele estava já numa casinha fora do hospital, vem um dia um oficial de justiça, chama-o e diz-lhe: – «Vinde um pouco comigo» –. E deixando-o na prisão, disse-lhe: – «Não saiais daqui até que outra coisa vos seja ordenada». Isto era em tempo de verão e ele não estava incomunicável e assim vinham muitos visitá-lo [Miona, seu confessor, era um deles] e fazia o mesmo que quando estava solto: dar doutrina e exercícios. Nunca quis tomar advogado nem procurador, ainda que muitos se ofereceram.

Lembra-se especialmente de dona Teresa de Cárdenas que o mandou visitar e se ofereceu muitas vezes para o tirar dali, mas não aceitou nada, dizendo sempre: – «Aquele por cujo amor aqui entrei, me tirará, se assim for servido»– .

61. Esteve dezasseis dias na prisão, sem que o examinassem, nem ele soubesse a causa disso, no fim dos quais Figueroa veio à prisão e examinou-o de muitas coisas, chegando até a perguntar se aconselhava a guarda do sábado. E se conhecia duas certas mulheres, que eram mãe e filha; e sobre isto disse que sim. E se tinha sabido da sua partida antes que partissem; e disse que não, pelo juramento que tinha recebido. Então o vigário, pondo-lhe a mão sobre o ombro, com mostra de alegria, disse-lhe: – «Esta era a causa de terdes vindo para aqui» –.  Entre as muitas pessoas que seguiam o peregrino, havia uma mãe e uma filha, ambas viúvas, e a filha muito nova e bonita, que tinham entrado muito em espírito, sobretudo a filha a tal ponto que sendo nobres, tinham ido à Verónica de Jaén a pé, e não sei se mendigando, e sozinhas. Isto levantou muitos boatos em Alcalá, e o doutor Ciruelo que tinha alguma protecção delas, pensou que o peregrino as tinha induzido [a ir em peregrinação] e por isso o mandou prender.  Quando o preso ouviu o que dissera o vigário, disse-lhe: – Quereis que fale um pouco mais longamente sobre esta matéria? – Sim, disse ele. – Pois deveis saber, disse o preso, que estas duas mulheres muitas vezes instaram comigo para que as deixasse ir por esse mundo a servir os pobres nos hospitais. E eu sempre as desviei desses propósitos, por a filha ser tão nova e tão bonita, etc. E disse-lhes que quando quisessem visitar os pobres, o podiam fazer em Alcalá e ir a acompanhar o Santíssimo Sacramento. E acabadas estas práticas, Figueroa foi-se embora com o seu notário, levando tudo escrito.

62. Naquele tempo estava Calixto em Segóvia e [Inácio], ao saber da sua detenção veio logo, ainda que recém convalescido de uma grande doença e meteu-se com ele na prisão. Mas ele [Santo Inácio] disse-lhe que seria melhor ir apresentar-se ao vigário, que o tratou bem e disse-lhe que o mandaria para a prisão, porque era necessário que aí ficasse, até que regressassem aquelas mulheres, para ver se confirmavam o que ele [o peregrino] dissera. Calixto esteve alguns dias na prisão; mas vendo o peregrino que lhe fazia mal à saúde do corpo, por ainda não estar completamente restabelecido, fê-lo sair da prisão, por meio de um doutor, seu grande amigo. Desde o dia em que entrou na prisão, até que o tiraram de lá, passaram-se quarenta dias, ao fim dos quais, tendo já voltado as duas devotas, o notário foi à prisão ler-lhe a sentença: que ficasse livre e vestissem como os outros estudantes, e que não falassem de coisas da fé, durante quatro anos nos quais estudassem mais, pois não sabiam letras. Porque, na verdade, o peregrino era aquele que sabia mais, e elas eram com pouco fundamento; e esta era a primeira coisa que costumava dizer quando o examinavam.

63. Com esta sentença ficou um pouco duvidoso do que faria, porque parece que lhe fechavam a porta para aproveitar às almas, não lhe dando razão alguma senão a de não ter estudado. Por fim determinou ir ao arcebispo de Toledo, Fonseca, e colocar as coisas nas suas mãos.  Partindo de Alcalá, encontrou o arcebispo em Valladolid, e contando-lhe fielmente aquilo que se passava, disse-lhe que embora não estivesse já dentro da sua jurisdição, nem fosse obrigado a cumprir a sentença, contudo faria o que lhe ordenasse (tratando-o por «vós», como fazia com todos). O arcebispo recebeu-o muito bem, e [percebendo que desejava passar a Salamanca, disse] que também em Salamanca tinha amigos e um colégio, oferecendo-lhe tudo, e mandando-lhe dar logo à saída, quatro escudos.

CAPÍTULO VII

Preso e solto em Salamanca (64-70). Decide ir para Paris (71-71)

64. Chegado a Salamanca, estando a fazer oração numa igreja, reconheceu-o uma devota como um da companhia, porque os quatro companheiros já havia dias que ali se encontravam, e perguntou-lhe pelo seu nome e levou-o à pousada dos companheiros.  Quando em Alcalá deram sentença que se vestissem como estudantes, disse o peregrino: – Quando nos mandastes pintar as vestes, fizemo-lo; mas agora não podemos fazer isto, porque não temos com que comprá-las –. E assim o mesmo vigário os proveu de vestes e bonés, e tudo o mais próprio de estudantes; e vestidos desta maneira partiram de Alcalá. Em Salamanca confessava-se a um frade de S. Domingos, em Santo Estêvão. Dez ou doze dias depois de ter chegado, disse-lhe um dia o confessor: – Os Padres da casa queriam falar-vos –; e ele disse: – Em nome de Deus –. Pois, disse o confessor, será bom que venhais aqui a comer no domingo; mas queria avisar-vos de uma coisa, e é que eles quererão saber muitas coisas de vós –. E assim no domingo veio com Calixto. E depois de comer, o subprior, na ausência do prior, com o confessor e creio que com outro frade, foram com eles a uma capela, e o subprior, com muita afabilidade, começou a dizer quão boas novas tinham da sua vida e costumes, e da sua pregação à maneira apostólica, e que gostariam de saber destas coisas mais particularmente. E assim começou a perguntar o que tinham estudado. E o peregrino respondeu: – Entre todos nós aquele que mais estudou fui eu – ; e deu-lhe claramente conta do pouco que tinha estudado, e com quão pouco fundamento.

65. – Pois então, que é que pregais? – Nós, disse o peregrino, não pregamos; só falamos familiarmente com alguns de coisas de Deus, como por exemplo depois de comer com aqueles que nos convidam. – Mas, disse o frade, de que coisas de Deus falais? Porque é isso que nós queríamos saber. – Falamos, disse o peregrino, já de uma virtude, já de outra e isto com louvor; ora de um vício, ora de outro e com repreensão. – Vós não sois letrados, disse o frade, e falais de virtudes e vícios e disto ninguém pode falar, a não ser de duas maneiras: ou por letras, ou por Espírito Santo. Não por letras; logo por Espírito Santo –. [E isto do Espírito Santo é que nós queríamos saber]. Aqui esteve o peregrino um pouco sobre si, não lhe parecendo bem aquela maneira de argumentar; e depois de ter calado um pouco, disse que não era preciso falar mais destas matérias. Instou o frade: – Pois agora que há tantos erros de Erasmo e de tantos outros que enganaram o mundo, não quereis esclarecer o que dizeis?

66. O peregrino disse: – Padre, eu não direi mais do que já disse, se não for diante dos meus superiores que me podem obrigar a isso –. Antes disso tinha perguntado porque viera Calixto assim vestido, o qual trazia um saio curto e um grande chapéu na cabeça e um bordão na mão e uns botins quase até meia perna e por ser muito alto parecia ainda mais disforme. O peregrino contou-lhe como tinham sido presos em Alcalá e lhes tinham mandado vestir de estudantes, e aquele seu companheiro, por causa dos grandes calores, tinha dado a sua «loba» a um clérigo pobre. Aqui o frade, como entre dentes, dando sinais de que não lhe agradava, [murmurou]: – A caridade começa por si mesmo. Pois, voltando à história, não podendo o subprior arrancar outra palavra ao peregrino senão aquela, disse: – Pois ficai aqui, que já faremos com que digais tudo –. E assim se retiraram todos o frades, com alguma pressa. Perguntando antes o peregrino se queriam que ficassem, ou onde queriam que ficassem, respondeu o subprior que ficassem na capela. Logo os frades fecharam todas as portas e negociaram, segundo parece, com os juízes.  Contudo, os dois estiveram ainda dois dias no mosteiro, sem que ninguém lhes falasse da parte da justiça, comendo no refeitório com os frades. E quase sempre o seu quarto estava cheio de frades que vinham vê-los, e o peregrino sempre falava do que era costume, de modo que entre eles já havia divisão, havendo muitos que se mostravam tocados.

67. Ao fim de três dias veio um notário e levou-os para a prisão. Não os puseram com os malfeitores, em baixo, mas num aposento alto, onde, por ser casa velha e desabitada, havia muita sujidade. Prenderam aos dois com uma mesma corrente por um dos pés. E a corrente estava presa a um poste que estava no centro da casa e tinha 10 ou 13 palmos. Cada vez que um queria fazer qualquer coisa, o outro tinha que o acompanhar. E toda aquela noite estiveram em vigília. No outro dia, quando na cidade se soube da sua prisão, mandaram-lhes um colchão e tudo o necessário, com muita abundância. E sempre vinham muitos a visitá-los e o peregrino continuava os seus exercícios de falar de Deus, etc. O bacharel Frias veio examiná-los, um de cada vez, e o peregrino deu-lhe todos os seus papéis, que eram os Exercícios, para que os examinassem. E perguntando-lhes se tinham companheiros, disseram que sim e onde estavam, e logo foram buscá-los, por ordem do bacharel. E trouxeram Cáceres e Artiaga à prisão e deixaram Juanico, que depois se fez frade. Mas não os puseram em cima com os dois, mas em baixo, com os presos comuns. Também aqui não quis tomar advogado nem procurador.

68. E alguns dias depois, foi chamado diante de quatro juízes, os três doutores, Sanctisidoro, Paravinhas e Frias, e o quarto o bacharel Frias, os quais tinham já todos visto os Exercícios. E nesta altura perguntaram-lhe muitas coisas, não só dos Exercícios, mas de teologia, por exemplo como entendia os mistérios da Trindade e do Sacramento [Eucaristia]. Ele fez primeiro o seu prólogo. Depois, mandado pelos juízes, falou de tal maneira, que não tiveram em que censurá-lo. O bacharel Frias, que nestas coisas se tinha mostrado sempre [mais severo] que os outros, perguntou-lhe também um caso de cânones. E a tudo foi obrigado a responder, dizendo sempre primeiro que ele não sabia o que diziam os doutores sobre aquelas coisas. Depois mandaram-lhe que explicasse o primeiro mandamento da maneira que costumava fazer. E ele pôs-se a fazê-lo e deteve-se tanto e disse tantas coisas sobre o primeiro mandamento, que não tiveram vontade de lhe perguntar mais coisas. Antes disto, quando falavam dos Exercícios, insistiram muito num só ponto que estava ao princípio: quando um pensamento é pecado venial e quando é mortal. A questão estava em que não sendo ele letrado ousara determinar aquilo. Ele respondia: – Se isto é verdade ou não, vós o determinareis; e se não é verdade, condenem-no –. E por fim foram-se embora sem condenar nada.

69. Entre os muitos que vieram falar com ele à prisão, veio uma vez em companhia do bacharel Frias, D. Francisco de Mendonça, que agora se diz cardeal de Burgos. Perguntando-lhe familiarmente como se encontrava na prisão e se lhe pesava estar preso, respondeu-lhe: – Responderei o que respondi hoje a uma senhora que dizia palavras de compaixão por me ver preso –. Disse-lhe: – Nisto mostrais que não desejais estar presa por amor de Deus. Pois tanto mal vos parece que seja a prisão? Pois digo-vos que não há tantos grilhões e cadeias em Salamanca, que eu não deseje mais por amor de Deus.  Aconteceu nesse tempo que os presos fugiram todos, e os dois companheiros que estavam com eles não fugiram. E quando de manhã foram encontrados com as portas abertas e eles sozinhos sem nenhum outro, isto causou grande edificação na cidade e logo lhes deram por prisão um palácio que estava ali perto.

70. Ao fim de vinte e dois dias de prisão, chamaram-nos para ouvir a sentença, que era de que não se encontrava nenhum erro, nem na vida nem na doutrina e por isso podiam continuar a fazer como faziam antes, ensinando a doutrina e falando de coisas de Deus, contanto que nunca definissem: isto é pecado mortal, ou isto é venial, senão quatro anos depois que tivessem estudado mais.  Lida esta sentença, os juízes mostraram muito amor, como a querer que fosse bem aceite. O peregrino disse que faria tudo o que a sentença mandava, mas que não a aceitaria, pois, sem condená-lo em coisa alguma, fechavam-lhe a boca para que não ajudasse os próximos no que pudesse. E por muito que insistiu o doutor Frias, que se mostrava muito afeiçoado, o peregrino só voltou a dizer que enquanto estivesse na jurisdição de Salamanca faria o que lhe mandava.  Foram logo tirados da prisão, e ele começou a encomendar-se a Deus e a pensar no que devia fazer. E encontrava grande dificuldade em estar em Salamanca, pois que, para aproveitar às almas, parecia-lhe ter a porta fechada, com esta proibição de não definir pecado mortal e venial.

71. E assim determinou-se ir estudar para Paris. Quando o peregrino em Barcelona ia pensando se estudaria e quanto, toda a questão estava em se, depois de ter estudado, entraria em religião ou andaria assim pelo mundo. E quando lhe vinham pensamentos de entrar em religião, logo lhe vinham desejos de entrar numa relaxada e pouco reformada, entrando assim para poder padecer mais nela, e pensando também que talvez Deus os ajudasse mais a eles. E dava-lhe Deus uma grande confiança que sofreria bem todas as afrontas e injúrias que lhe fizessem. Pois como já no tempo de prisão em Salamanca, não lhe faltavam os desejos que tinha de aproveitar às almas, e para isso estudar primeiro e reunir alguns com o mesmo propósito e conservar os que tinha, determinou-se a ir para Paris, combinando com eles que esperassem por ali, e que ele iria para ver se poderia encontrar modo de eles poderem estudar.

72. Muitas pessoas principais instaram com ele grandemente para que não fosse, mas não o conseguiram demover da sua ideia. E assim, quinze ou vinte dias depois de ter saído da prisão, partiu sozinho, levando alguns livros num burrinho. Chegado a Barcelona, todos os que o conheciam o dissuadiam de ir para a França, pelas grandes guerras que havia, contando-lhe exemplos muito particulares, até dizer-lhe que metiam os espanhóis em assadores; mas ele nunca sentiu qualquer temor.

CAPÍTULO VIII

Vida e estudos em Paris (73-76). Primeiros discípulos espirituais (77-   -81). Estudos superiores e primeiros companheiros (82-86)

73. Partiu para Paris sozinho e a pé e chegou a Paris pelo mês de Fevereiro, pouco mais ou menos, e, segundo me conta, isso foi pelo ano de 1528 ou 27 [Quando estava preso em Alcalá, nasceu o príncipe de Espanha e por aqui se pode fazer a conta de tudo, mesmo do passado]. Instalou-se numa casa com alguns espanhóis e ia estudar humanidades a Monteagudo. E a causa foi porque o tinham feito passar adiante nos estudos com muita pressa, estava com muita falta de fundamentos; e estudava com os meninos, passando pela ordem e método de Paris.

Por uma cédula de Barcelona, um comerciante deu-lhe vinte e cinco escudos, logo ao chegar a Paris, e deu-os a guardar a um dos espanhóis daquela pousada o qual em pouco tempo os gastou e não tinha com que pagar-lhe. Assim quê, passada a quaresma, ao peregrino nada mais restava deles, tanto por ele já os ter gasto, como pela razão acima dita. Por isso foi obrigado a mendigar, e até a deixar a casa onde estava.

74. E foi recolhido no hospital de Saint Jacques (Santiago), um pouco para a além dos Inocentes. Tinha grande incomodidade para o estudo, porque o hospital estava muito distante do Colégio de Montaigu, e era necessário, para encontrar a porta aberta, vir ao toque das Ave-Marias, e sair quando já era dia. E assim não podia atender tão bem às suas lições. Outro impedimento era pedir esmolas para se manter. Havia já quase cinco anos que não tinha dores de estômago, e assim começou a entregar-se a maiores penitências e abstinências. Passando algum tempo nesta vida de hospital e de mendigar, e vendo que aproveitava pouco nas letras, começou a pensar no que faria.

E vendo que havia alguns que serviam os professores nos colégios, e tinham tempo de estudar, decidiu-se a procurar um amo.

75. E fazia esta consideração e propósito consigo, no qual encontrava muita consolação, imaginando que o mestre seria Cristo, e a um estudante punha o nome de S. Pedro, e a outro de S. João, e assim de cada um dos apóstolos. E quando me mandar o mestre, pensarei que me manda Cristo; e quando me mandar outro, pensarei que é S. Pedro.  Fez muitas diligências para encontrar um amo; falou por um lado ao bacharel Castro e a um frade dos cartuxos que conhecia muitos mestres, e a outros, mas nunca conseguiu que lhe encontrassem um amo.

76. E por fim, não encontrando remédio, um frade espanhol disse-lhe um dia que seria melhor ir cada ano à Flandres, e perder dois meses e até menos, para trazer com que pudesse pagar todo o ano. E este meio, depois de o ter encomendado a Deus, pareceu-lhe bom.

E usando este conselho, trazia cada ano da Flandres o necessário para viver. E uma vez foi também à Inglaterra e trouxe mais esmolas que as que costumava nos outros anos.

77. Quando voltou da Flandres a primeira vez, começou, mais intensamente que costumava, a entregar-se a conversações espirituais e dava, quase ao mesmo tempo, Exercícios a três, a saber: a Peralta, ao bacharel Castro que estava na Sorbona, e a um biscainho que estava em Santa Bárbara, de nome Amador. Estes fizeram grandes mudanças, e logo deram tudo o que tinham aos pobres, até os livros, e começaram a pedir esmola por Paris, e foram residir no hospital de Saint Jacques, onde antes tinha estado o peregrino e donde tinha saído pelas razões acima referidas.  Isto levantou grande alvoroço na universidade, por serem, os dois primeiros, pessoas notáveis e muito conhecidas. Logo os espanhóis começaram a dar batalha aos dois mestres, e não podendo vencer com muitas razões e persuasões, para virem para a universidade, foram muitos, um dia, de armas na mão, e tiraram-nos do hospital.

78. E trazendo-os para a universidade, vieram a concordar em que só depois de terminados os seus estudos, levassem por diante os seus propósitos. O bacharel Castro veio depois para Espanha, pregou algum tempo em Burgos, e fez-se frade cartuxo em Valença. Peralta partiu para Jerusalém, a pé e peregrinando. Desta maneira foi apanhado em Itália por um capitão, seu parente, o qual arranjou modos de o levar ao Papa e conseguiu que o mandasse voltar para Espanha. Estas coisas não ocorreram logo, mas alguns anos depois. Levantaram-se em Paris grandes murmurações, principalmente entre os espanhóis, contra o peregrino; e o nosso mestre Gouveia que dizendo que tinha tornado louco a Amador, que estava no seu Colégio, decidiu e afirmou que a primeira vez que viesse a Santa Bárbara, lhe daria uma sala como sedutor dos estudantes.

79. O espanhol em cuja companhia tinha estado no princípio, e lhe gastara todo o dinheiro, partiu para a Espanha sem o pagar, pela estrada de Ruão, e estando à espera de passagem em Ruão, caiu doente. E estando assim doente, soube-o o peregrino por uma carta dele, e vieram-lhe desejos de ir visitá-lo e ajudá-lo, pensando também que naquela conjuntura o poderia ganhar, para que, deixando o mundo, se entregasse completamente ao serviço de Deus. E para o poder conseguir, vinha-lhe o desejo de andar aquelas 28 léguas que há de Paris a Ruão, a pé e descalço, sem comer nem beber. E fazendo oração sobre isso, sentia-se muito temeroso. Por fim, foi a S. Domingos e ali resolveu ir dessa maneira, tendo-lhe passado aquele grande medo de tentar a Deus.  No dia seguinte de manhã, em que devia partir, levantou-se muito cedo e ao começar a vestir-se, veio-lhe um temor tão grande, que quase lhe parecia que não podia vestir-se. Apesar daquela repugnância, saiu de casa, e também da cidade, antes de nascer o dia. Contudo, o temor continuava e acompanhou-o até Argenteuil que é uma povoação três léguas distante de Paris, em direcção a Ruão, onde dizem que se conserva a túnica de Nosso Senhor.  Passando aquela povoação com este apuro espiritual, subindo a um alto começou a deixá-lo aquela coisa e veio-lhe uma grande consolação e esforço espiritual, com tanta alegria, que começou a gritar por aqueles campos e a falar com Deus, etc. E naquela noite albergou-se com um pobre mendigo num hospital, tendo caminhado, naquele dia, catorze léguas. No dia seguinte refugiou-se num palheiro, e no terceiro dia chegou a Ruão. Em todo este tempo permaneceu sem comer nem beber, e descalço, como tinha determinado. Em Ruão consolou o doente e ajudou a metê-lo num navio para ir para Espanha. E deu-lhe cartas, recomendando-o aos companheiros que estavam em Salamanca, isto é, Calixto, Cáceres e Arteaga.

80. E para não falar mais destes companheiros, o destino deles foi o seguinte. Estando o peregrino em Paris, escrevia-lhes com frequência, como tinham combinado, mostrando-lhes as poucas facilidades que havia para os fazer vir a estudar em Paris. Apesar disso, arranjou maneira de escrever a Dª Leonor de Mascarenhas para que ajudasse Calixto por meio de cartas para a Corte de Portugal, a fim de que pudesse conseguir uma bolsa das que o rei de Portugal dava em Paris. Dª Leonor deu as cartas a Calixto e uma mula para a viagem, e dinheiro para os gastos. Calixto foi à Corte de Portugal, mas por fim não veio a Paris, antes voltando à Espanha, daí foi para a Índia do imperador com uma certa mulher espiritual. E depois de regressar a Espanha, partiu outra vez para a mesma Índia, e desta vez regressou rico a Espanha, e em Salamanca maravilhou a todos aqueles que o tinham conhecido. Cáceres voltou a Segóvia que era a sua terra, e ali começou a viver de tal modo, que parecia ter-se esquecido do primeiro propósito. Arteaga foi nomeado comendador. Depois, estando já a Companhia em Roma, deram-lhe um bispado na Índia. Ele escreveu ao peregrino para que o desse a um da Companhia, e tendo-lhe respondido negativamente, partiu para a Índia do imperador, sagrado bispo, e ali morreu em virtude de um acidente estranho. Estando doente e tendo dois frascos de água para se refrescar, um de água que o médico lhe prescrevera, e outro de água de solimão venenosa, por engano deram-lhe o segundo que o matou.

81. O peregrino voltou de Ruão a Paris, e encontrou grandes rumores que se tinham levantado contra ele, por causa do que tinha acontecido com Castro e Peralta, e que o inquisidor o tinha feito chamar. Mas ele não quis esperar mais, e foi ter com o inquisidor, dizendo-lhe ter ouvido dizer que o buscava e que ele estava disposto a tudo o que quisesse (este inquisidor chamava-se nosso Mestre Ory, frade de S. Domingos). Mas pedia-lhe que o despachasse depressa, pois tinha intenção de entrar, pelo dia de S. Remígio daquele ano, no curso de Artes, e que desejava que estas coisas passassem antes, para atender melhor aos seus estudos. Mas o inquisidor não o voltou a chamar, dizendo-lhe somente que era verdade que lhe tinham falado das suas coisas, etc.

82. Pouco depois chegou o dia de S. Remígio, que cai no princípio de Outubro e entrou no curso de Artes sob [a direcção] de um mestre chamado Mestre João Peña e entrou com o propósito de conservar aqueles que se tinham proposto servir o Senhor, mas não continuar a buscar outros, a fim de poder estudar mais comodamente. Ao principiar a ouvir as lições do curso, começaram a vir as mesmas tentações que lhe tinham vindo, quando em Barcelona estudava gramática. E cada vez que ouvia a lição não podia estar atento, por causa das muitas coisas espirituais que lhe ocorriam. E vendo que deste modo fazia pouco proveito nas letras, foi ter com o seu mestre e prometeu-lhe que não deixaria nunca de seguir todo o curso, enquanto pudesse encontrar pão e água para poder sustentar-se.  E feita esta promessa, todas aquelas devoções que lhe vinham fora de tempo o deixaram, e prosseguiu os seus estudos tranquilamente. Nesse tempo conversava com o mestre Pedro Fabro e o mestre Francisco Xavier, aos quais depois ganhou para o serviço de Deus, por meio dos Exercícios.  Nesse tempo do curso não o perseguiam como antes. E a este propósito disse-lhe um dia o doutor Frago que se admirava de que andasse tão tranquilo, sem que ninguém o molestasse. E ele respondeu-lhe: – A causa está em que eu não falo com ninguém das coisas de Deus; mas terminado o curso tornaremos ao do costume.

83. E enquanto os dois falavam, aproximou-se um frade, para pedir ao doutor Frago que lhe arranjasse uma casa, porque naquela em que ele se hospedava tinham morrido muitos, e pensava que da peste, porque tinha começado nessa altura a peste em Paris. O doutor Frago e o peregrino quiseram ir ver a casa e levaram uma mulher que entendia muito destas coisas, a qual, entrando na casa, afirmou que era peste.  O peregrino quis entrar também, e encontrando um doente, consolou-o, tocando-lhe a chaga com a mão; e depois de o ter consolado e animado um pouco, foi-se embora sozinho; e a mão começou a doer-lhe, de modo que lhe pareceu que tinha a peste. E esta imaginação era tão violenta, que não podia vencer, até que com grande ímpeto meteu a mão na boca, dando-lhe muitas voltas lá dentro, e dizendo: – Se tu tens a peste na mão, também a terás na boca –. E depois de ter feito isto, desapareceu a imaginação e a dor da mão.

84. Mas quando voltou ao colégio de Santa Bárbara, onde então vivia e seguia o curso, os do colégio, que sabiam que tinha estado na casa empestada, fugiam dele e não quiseram deixá-lo entrar e por isso viu-se obrigado a viver fora alguns dias. É costume em Paris que aqueles que estudam Artes, no terceiro ano, para se tornarem bacharéis, tomem uma pedra, como eles dizem. E como nisto se gasta um escudo, alguns estudantes pobres não o podiam fazer. O peregrino começou a duvidar se seria bom tomá-la. E estando muito duvidoso, e sem se resolver, resolveu colocar o assunto nas mãos do seu mestre; e aconselhando-lhe este que a tomasse, a tomou. Apesar disso, não faltaram murmuradores, pelo menos um espanhol que o notou. Em Paris encontrava-se já neste tempo muito mal do estômago, de maneira que cada quinze dias tinha dores de estômago, que lhe duravam uma longa hora completa e lhe causavam febre. E uma vez a dor durou-lhe dezasseis ou dezassete horas. E tendo já então completado o curso de Artes, e tendo estudado alguns anos de teologia, e conquistando os companheiros, a doença agravava-se cada vez mais, sem poder encontrar nenhum remédio, mesmo tendo experimentado muitos.

85. Os médicos diziam que não havia outro remédio que os ares natais que o pudessem ajudar. Também os companheiros aconselhavam o mesmo e instaram muito com ele. Já nessa altura tinham decidido todos o que tinham que fazer, isto é: ir a Veneza e Jerusalém, e gastar aí a sua vida em proveito das almas. E se não conseguissem licença de ficar em Jerusalém, voltar para Roma e apresentar-se ao Vigário de Cristo, para que os empregasse no que julgasse ser de mais glória de Deus e proveito das almas. Tinham também proposto esperar um ano a embarcação em Veneza, e se naquele ano não houvesse embarcação para Levante, ficariam livres do voto de Jerusalém e se ofereceriam ao Papa, etc.

Por fim o peregrino deixou-se convencer pelos companheiros, e também porque os que eram espanhóis dentre eles, tinham alguns assuntos a tratar que ele podia despachar. E aquilo em que se concordou foi que depois de ele ficar bom, fosse despachar os assuntos dos companheiros, e depois se dirigisse a Veneza e esperasse ali os companheiros.

86. Isto sucedia no ano 35, e os companheiros estavam para partir, segundo o combinado, no ano de 37, dia da conversão de S. Paulo, ainda que depois, por causa das guerras que sobrevieram, partiram no ano 36, em Novembro.  E estando o peregrino para partir, ouviu dizer que o haviam acusado ao inquisidor, e tinham levantado um processo contra ele. Ouvindo isto, e vendo que não o chamavam, foi ter com o inquisidor e disse-lhe aquilo que tinha ouvido, e que estava para partir para Espanha e que tinha companheiros e [por isso] lhe pedia que desse sentença. O inquisidor disse que era verdade o que se referia à acusação, mas não via que houvesse nada de importância. Só queria ver os escritos dos Exercícios. E tendo-os visto, louvou-os muito, e pediu ao peregrino que lhe deixasse uma cópia deles; e assim o fez. Contudo, voltou a insistir para que quisesse seguir adiante no processo, até ditar a sentença. E recusando-se o inquisidor, foi ele a sua casa com um notário público e com testemunhas, e tomou fé de tudo o sucedido.

CAPÍTULO IX

Parte para sua terra e hospeda-se no hospital (87-89). Por terras de Espanha (90). Embarca para Itália (91)

87. E feito isto, montou num cavalo pequeno que os seus companheiros lhe tinham comprado, e partiu sozinho para a sua terra. No caminho encontrou-se muito melhor de saúde. E chegando à Província, deixou o caminho normal e tomou o do monte que era mais solitário. E depois de caminhar um pouco por ele, encontrou dois homens armados que vinham ao seu encontro (e este caminho tem certa má fama, por causa dos assassinos), os quais depois de se terem adiantado um pouco, voltaram para trás, seguindo-o com muita pressa, e teve um pouco de medo. Contudo, falou com eles e soube que eram criados do seu irmão, que os mandava para o buscar. Porque, segundo parece, ele teve notícia da sua vinda, de Baiona de França, onde o peregrino foi reconhecido, e assim eles adiantaram-se, enquanto ele seguiu pelo mesmo caminho. E um pouco antes de chegar à sua terra, encontrou os mencionados [criados] que lhe saíam ao encontro e lhe fizeram muitas instâncias para o conduzir a casa do irmão, mas não o puderam convencer. E assim foi para o hospital e depois na hora conveniente, foi à procura de esmola pelo povoado.

88. E neste hospital começou a falar com muitos que o foram visitar, sobre as coisas de Deus, por cuja graça se fez muito fruto. Logo que chegou, determinou ensinar todos os dias a doutrina cristã às crianças, mas o seu irmão opôs-se fortemente a isso, assegurando que não viria ninguém. Ele respondeu que lhe bastaria que viesse um. Mas depois que começou a fazê-lo, iam continuamente muitos a ouvi-lo e até o seu próprio irmão.

Além da doutrina cristã, também pregava nos domingos e festas, com utilidade e proveito das almas, que vinham ouvi-lo de muitas milhas. Esforçou-se também por suprimir alguns abusos, e com a ajuda de Deus pôs-se ordem em alguns deles. Por exemplo, no jogo conseguiu que se proibisse e se chegasse à execução prática, persuadindo aquele que tinha o cargo da justiça.  Havia ali também um abuso que era este: naquele país as raparigas andam sempre com a cabeça descoberta e só a cobrem quando se casam. Mas há muitas que se tornam concubinas de sacerdotes e outros homens, e guardam-lhes fidelidade como se fossem suas mulheres. E isto é tão comum que as concubinas não têm nenhuma vergonha de dizer que cobriram a cabeça por algum, e são conhecidas como tais.

89. E deste costume nasce muito mal. O peregrino persuadiu o governador que fizesse uma lei segundo a qual todas aquelas que cobrissem a cabeça por algum, não sendo suas mulheres, fossem castigadas pela justiça; e deste modo começou a desarreigar-se este abuso. Conseguiu também que se desse ordem para que se socorressem os pobres pública e ordinariamente e que se tocassem três vezes as Ave-Marias, de manhã, ao meio-dia e à tarde, para que o povo fizesse oração como em Roma.  Embora ao princípio se encontrasse bem, mais tarde adoeceu gravemente. E depois de se ter curado, resolveu partir, para despachar os assuntos que os seus companheiros lhe tinham confiado, e partir sem dinheiro. O seu irmão ficou muito aborrecido com isto, envergonhando-se de que quisesse ir a pé; e pela tarde, o peregrino resolveu condescender com ele em ir a cavalo, até à fronteira da Província com o seu irmão e os seus parentes.

90. Mas ao sair da Província, deixou o cavalo, e sem tomar nada, dirigiu-se para Pamplona, e daqui para Almazán, terra do P. Laínez, e depois para Siguenza e Toledo e de Toledo para Valência. E em todas estas terras dos companheiros não quis receber nada, embora lhe fizessem grandes oferecimentos com muita insistência.

Em Valência falou com Castro que era monge cartuxo e querendo embarcar para ir para Génova, os devotos de Valência pediram-lhe que não o fizesse, pois diziam que estava no mar Barbarroxa com muitas galeras, etc. E por muitas coisas que lhe disseram, suficientes para meter-lhe medo, nada bastou para fazê-lo duvidar.

91. E embarcado numa nave grande, passou a tempestade de que se falou acima, quando se disse que esteve três vezes a ponto de morrer. Chegado a Génova, tomou o caminho de Bolonha no qual sofreu muito, sobretudo uma vez que se perdeu no caminho e começou a andar junto de um rio. Este corria lá no fundo e o caminho era muito alto. Quanto mais andava, mais o caminho se ia tornando estreito e chegou a ficar tão apertado, que nem podia seguir para diante nem voltar para trás, de tal modo que foi obrigado a andar de gatas durante um longo espaço, com muito medo, porque cada vez que se movia pensava que ia cair no rio. Foi esta a maior fadiga e trabalho corporal que jamais suportou, mas por fim conseguiu sair da aflição.  E querendo entrar em Bolonha, e tendo que atravessar uma pequena ponte de madeira, caiu da ponte abaixo, e ao levantar-se cheio de lama e de água, fez rir a muitos que se achavam presentes. E entrando em Bolonha, começou a pedir esmola, e não encontrou nem um quartim, apesar de percorrer toda a cidade.  Em Bolonha esteve algum tempo doente; depois foi para Veneza sempre do mesmo modo.

CAPÍTULO X

Em Veneza: Exercícios e perseguições (92-93). Chegada dos Companheiros, Ida a Roma e sacerdócio (93-95). Ocupações: Nova Ida a Roma, Visão de La Storta (96-97)

92. Em Veneza, naquele tempo exercitava-se em dar Exercícios e noutras conversações espirituais. As pessoas mais ilustres a quem os deu são Mestre Pedro Contarini, o Mestre Gaspar de Doctis, e um espanhol chamado Rozas. Estava ali também outro espanhol que se chamava o bacharel Hoces, o qual tratava muito com o peregrino e também com o bispo de Cette e ainda que tivesse algum desejo de fazer os Exercícios, não o punha em execução. Por fim resolveu fazê-los, e três ou quatro dias depois de os ter feito, abriu a sua alma ao peregrino, dizendo-lhe que tinha medo que nos Exercícios lhe ensinasse alguma má doutrina, pelas informações que alguém lhe tinha dado. Por isso tinha levado consigo certos livros, para recorrer a eles, caso quisesse enganá-lo. Este aproveitou muito com os Exercícios, e por fim resolveu seguir o caminho do peregrino. Foi também o primeiro que morreu.

93. Em Veneza teve também o peregrino outra perseguição, pois havia muitos que diziam que a sua estátua tinha sido queimada em Espanha e Paris. E este boato espalhou-se tanto, que se instaurou um processo e foi ditada sentença a favor do peregrino. Os nove companheiros chegaram a Veneza a princípios de 1537. Aqui se dividiram para servir em vários hospitais. Depois de dois ou três meses, partiram todos para Roma, a fim de tomar a bênção para partir para Jerusalém. O peregrino não foi, por causa do Dr. Ortiz e também do novo Cardeal Teatino. Os companheiros voltaram de Roma com apólices de 200 ou 300 escudos, que lhes foram dados de esmola para passarem a Jerusalém, e eles só os quiseram aceitar sob a forma de apólices. Estes escudos foram depois devolvidos àqueles que lhos tinham dado, uma vez que não puderam ir a Jerusalém. Os companheiros voltaram para Veneza da mesma maneira que tinham ido a Roma, quer dizer, a pé e mendigando, mas divididos em três grupos de modo que fossem sempre de diferentes nações. Em Veneza ordenaram-se de missa aqueles que não estavam ordenados e deu-lhes as licenças o núncio que se encontrava então em Veneza, e depois se chamou cardeal Verallo. Ordenaram-se a título de pobreza, fazendo todos votos de castidade e pobreza.

94. Naquele ano não havia navios para Levante, porque os venezianos tinham rompido com os turcos. E assim vendo eles que se afastava a esperança de ir a Jerusalém, dividiram-se pelo território veneziano, na intenção de esperar o ano que tinham determinado e se, terminado este, não houvesse passagem, iriam para Roma. Ao peregrino tocou ir, com Fabro e Laínez, a Vicenza. Aqui encontram uma casa, fora do povoado, que não tinha portas nem janelas, na qual dormiam sobre um pouco de palha que tinham levado. Dois deles iam sempre pedir esmola pela cidade, duas vezes por dia, e era tão pouco o que traziam que mal dava para se sustentarem. Ordinariamente comiam um pouco de pão cozido, quando o tinham, e quem o cozia era aquele que ficava em casa. Deste modo passaram quarenta dias, não atendendo mais que à oração.

95. Passados os quarenta dias, chegou Mestre João Codure, e os quatro decidiram começar a pregar, e dirigindo-se os quatro a diversas praças, no mesmo dia e à mesma hora, começaram o seu sermão, primeiro gritando muito alto e chamando as pessoas com o chapéu. Estes sermões causaram muito alvoroço na cidade, e muitas pessoas foram movidas a devoção, e eles tinham com mais abundância as coisas necessárias para a vida. Neste tempo que esteve em Vicenza teve muitas visões espirituais, e muitas, quase contínuas consolações, ao contrário do que lhe sucedeu em Paris. Principalmente quando começou a preparar-se para ser sacerdote em Veneza, e quando se preparava para dizer a missa, durante todas aquelas viagens teve grandes visitas sobrenaturais, daquelas que costumava ter quando estava em Manresa.
 
Também estando em Vicenza soube que um dos seus companheiros, que se encontrava em Bassano, estava doente e quase a morrer, estando o próprio Inácio doente com febre. Apesar disso, pôs-se a caminho e andava tão depressa que Fabro, seu companheiro não conseguia segui-lo. Nesta viagem teve a certeza de Deus e disse-o a Fabro, que o companheiro não morreria daquela doença. E chegando a Bassano, o doente consolou-se muito e em breve sarou. Depois voltaram todos para Vicenza e por ali estiveram os dez algum tempo e alguns iam pedir esmola pelos povoados mais próximos.

96. Depois, terminado o ano, não se encontrando passagem [para ir a Jerusalém], decidiram ir para Roma, e o peregrino também quis ir, porque a outra vez quando os companheiros foram a Roma, aqueles dois dos quais duvidava, se mostraram muito benévolos.

Dirigiram-se a Roma divididos em três ou quatro grupos, e o peregrino ia com Fabro e Laínez, e nesta viagem foi muito visitado pelo Senhor. Tinha determinado, depois de ordenado sacerdote, estar um ano sem dizer missa, preparando-se e rogando à Virgem que o quisesse pôr com o seu Filho. E estando um dia, a algumas milhas antes de chegar a Roma, numa igreja, fazendo oração, sentiu tal mudança na sua alma, e viu tão claramente que Deus Pai o punha com Cristo, seu Filho, que não lhe seria possível duvidar disto, senão que Deus Pai o punha com seu Filho. [E eu que escrevo estas coisas, disse ao peregrino quando me narrava isto, que Laínez o contava com outros pormenores, segundo eu tinha ouvido. E ele disse-me que tudo aquilo que Laínez dizia era verdade, porque ele não se recordava tão pormenorizadamente; mas que então quando o contava, sabe ao certo que não dissera senão a verdade. Isto mesmo me repetiu em outros assuntos].

97. Depois, chegando a Roma, disse aos seus companheiros que via as janelas fechadas, querendo significar que ali iam ter muitas contradições. E acrescentou: «Devemos estar muito sobre nós mesmos e não entabular conversações com mulheres, se não forem ilustres». E a este propósito, depois em Roma, Mestre Francisco[Xavier] confessava a uma mulher e visitava-a algumas vezes, para tratar de coisas espirituais e esta mulher ficou depois grávida; mas quis o Senhor que se descobrisse aquele que tinha feito o mal. Alguma coisa de semelhante aconteceu com João Coduri com uma sua filha espiritual, que foi encontrada com um homem.

CAPÍTULO XI

Perseguições em Roma (98). Composição dos Exercícios e Constituições (99-101)

98. De Roma foi o peregrino a Montecassino para dar os Exercícios ao Dr. Ortiz e permaneceu ali durante quarenta dias, nos quais viu uma vez ao bacharel Hoces entrar no céu. E nisto teve grandes lágrimas e grande consolação espiritual. E viu isto tão claramente que se dissesse o contrário lhe pareceria que dizia mentira. E de Montecassino trouxe consigo a Francisco Estrada. Regressando a Roma, exercitava-se em ajudar as almas, e estavam ainda na vinha e dava os Exercícios Espirituais ao mesmo tempo a vários, dos quais um estava em Santa Maria Maior e outro junto à Ponte Sixto. Começaram depois as perseguições e principiou Miguel a molestar e falar mal do peregrino, que o fez chamar à presença do governador, mostrando primeiro a este uma carta de Miguel na qual elogiava muito o peregrino. O Governador examinou a Miguel e o resultado foi expulsá-lo de Roma. Depois começaram a persegui-los Mudarra e Barreda, dizendo que o peregrino e os companheiros eram fugitivos de Espanha, de Paris e de Veneza. Por fim, na presença do Governador e do então legado de Roma, os dois confessaram que não tinham nada de mal que dizer contra eles, nem a respeito dos costumes nem da doutrina.

O legado ordenou que se impusesse silêncio sobre toda aquela questão, mas o peregrino não aceitou a solução, dizendo que queria a sentença final. Isto não agradou nem ao legado nem ao governador, nem sequer àqueles que antes favoreciam o peregrino; mas por fim, depois de alguns meses, veio o Papa a Roma. O peregrino foi a Frascati falar com ele, e apresentou-lhe algumas razões. O Papa tomou conta do assunto e mandou que se desse sentença, e esta deu-se a seu favor, etc. Com a ajuda do peregrino e dos companheiros fizeram-se algumas obras pias em Roma, como por exemplo, os catecúmenos, Santa Marta, os Órfãos, etc. As outras coisas poderá contá-las o Mestre Nadal.

99. Eu, depois de contadas todas estas coisas, a 20 de Outubro, perguntei ao peregrino sobre os Exercícios e as Constituições, desejando saber como as tinha feito. Ele disse-me que os Exercícios não os tinha feito de uma só vez, mas algumas coisas que ele observava na sua alma e achava que eram úteis, parecia-lhe que também podiam ser úteis a outros, e assim as punha por escrito, por exemplo, o examinar a consciência com aquele método das linhas, etc. As eleições especialmente me disse que as tinha tirado daquela variedade de espíritos e pensamentos que tinha quando estava ainda em Loiola doente da perna. E disse-me que das Constituições me falaria à tarde. No mesmo dia, antes de cear, me chamou com o aspecto de uma pessoa que estava mais recolhida que de costume e fez-me uma espécie de juramento que substancialmente consistia em mostrar a intenção e simplicidade com que tinha contado estas coisas, dizendo que estava bem certo que não contava nada de mais. E que tinha cometido muitas ofensas contra Deus Nosso Senhor depois de O ter começado a servir, mas nunca tivera consentimento de pecado mortal. Mais ainda, sempre crescera em devoção, isto é, em facilidade de encontrar a Deus, e agora mais que nunca na sua vida. E sempre e a qualquer hora que queria encontrar a Deus, O encontrava. E que ainda agora tinha muitas visões, principalmente das referidas acima, de ver a Cristo como sol etc. E isto acontecia-lhe frequentemente quando estava a tratar de coisas de importância, e aquilo servia-lhe de confirmação, etc.

100. Quando celebrava missa, tinha também muitas visões, e quando escrevia as Constituições as tinha também com muita frequência. E que agora o pode afirmar mais facilmente, pois cada dia escrevia o que se passava por sua alma e o encontrava agora escrito. E assim mostrou-me um grande pacote de escritos, dos quais me leu algumas passagens. A maior parte eram visões que ele tinha como confirmação de alguma das Constituições, e vendo umas vezes a Deus Pai, outras as pessoas da Trindade, outras a Virgem que intercedia, outras que confirmava. Falou-me em particular sobre as determinações em que esteve quarenta dias dizendo missa cada dia, e cada dia com muitas lágrimas e aquilo de que se tratava era se as igrejas teriam alguma renda, e se a Companhia se poderia ajudar dela.

101. O modo que o Padre guardava, quando escrevia as Constituições, era dizer missa cada dia e apresentar a Deus o ponto tratado e fazer oração sobre ele. E sempre fazia a oração e dizia a missa com lágrimas. Eu desejava ver todos aqueles papéis das Constituições e pedia-    -lhe que mos deixasse um pouco, mas ele não quis.

CRONOLOGIA DE SANTO INÁCIO

A cronologia de SANTO Inácio é complemento da historiografia inaciana, guia orientadora para os factos a que se alude nos escritos do santo, sobretudo na Autobiografia e nas Cartas. Constituem, ao mesmo tempo, a prova eficiente do valor que possuem estes escritos para a fixação da sua vida, já que a data e as circunstâncias particulares de muitos dos dados, puderam ser esclarecidos graças a eles. NOTA: A cronologia que publicamos é tirada da «Autobiografia de Santo Inácio de Loiola», publicada pelas Edições Loyola (Brasil), com pequenas alterações.

1491  – Nasce em Loyola, provavelmente antes de 23 de Outubro.

1506(?)  – Vai a Arévalo como pajem de Juan Velasquez de Cuéllar, contador-mor do rei Fernando, o Católico. De Arévalo deve ter feito frequentes saídas a povoações próximas e visitado sobretudo Valladolid, Dueñas, Torquemadas, Tordesilhas, Medina del Campo, Madrigal de las Altas Torres, Segóvia, Ávila, etc. (Veja-se em Arch. Hist. S. I. 26/1957/ 230-251).

1515 – 20 de Fevereiro. Em Azpeitia comete um delito considerado como grave no processo que promove contra ele o Corregedor de Guipúscoa, Hernandez de la Gama.

1517 – 12 de Agosto. Morre Juan Velasquez de Cuéllar. Até esse tempo Inácio permanece habitualmente em Arévalo.   – Fim do ano. Começa a servir como gentil-homem a António Manrique, vice-rei de Navarra.

1518 – Fevereiro. Cortes de Castilha e Léon em Valladolid. Provavelmente Inácio assiste a elas.

1520 – 18 de Setembro. Participa da tomada de Nájera. Não quis partilhar dos despojos de guerra.

1521 –  Janeiro-Abril. O vice-rei Manrique envia-o a Guipúzcoa com a missão de entabular relações de paz entre os partidos dissidentes, que requerem a opinião arbitral do vice-rei. O acordo é assinado aos 12 de Abril.     17-18 de Maio. Corre a Pamplona com tropas auxiliares de Guipúzcoa. Entra na cidadela.    19 de Maio. Impede a rendição da fortaleza. Assiste a uma entrevista com os chefes franceses e recusa a capitulação oferecida.     20 de Maio. Na defesa do castelo, é ferido na perna direita. Recebe os primeiros curativos dos franceses.    Entre 2 e 5 de Junho. É levado a Loyola. Sai de Pamplona por Cendea de Iza, Izurzun, Zuasti, Dos Hermanas, Lecumberri.    Entre 16 a 20 de Junho. Depois de um breve descanso na casa de Echeandia, de Anzuola, entra em Loyola.    24 de Junho. Recebe os últimos sacramentos.    28 de Junho, meia-noite. Começa a sentir-se melhor por intercessão de São Pedro.    Agosto-Setembro. Pede livros de cavalaria. Entregam-lhe livros piedosos. Conversão. Visão da Virgem Santíssima.    Outubro-Dezembro. Concentração espiritual de leitura, transcrição e oração da Vita Christi, de Ludolfo da Saxónia, e do Flos Sanctorum.

1522 –  Fim de Fevereiro. Viagem a Aránzazu, Navarrete e Montserrate. No caminho faz voto de castidade.    21 de Março (?). Chega a Montserrate.    22-24 de Março. Confissão Geral.    24-25 de Março. Troca de roupa e vela de armas ante a imagem da Virgem.     25 de Março, ao amanhecer. Desce a Manresa.     Abril-Julho. Vida de oração e penitência em Manresa.     Agosto-Setembro (?). Exímia ilustração junto ao Cardoner. Transformação interna. Começa a escrever os Exercícios.

1523 –  17-18 de Fevereiro (?). Chega a Barcelona, a caminho de Jerusalém.    Março. Embarca rumo a Gaeta entre os dias 20 e 22. Chega a Gaeta.    29 de Março. Entra em Roma.    Entre 13 e 14 de Abril. Sai de Roma a caminho de Veneza.    Meados de Maio. Chega a Veneza.    19 de Agosto. Em Salinas (Lárnaca), Chipre, embarca na nave peregrina.    31 de Agosto. Desce da nave em Jafa.    4 de Setembro. Entra em Jerusalém.    5 de Setembro. Ao amanhecer, comunga no Santo Sepulcro. À tarde, via-sacra.    7 de Setembro. Visita Betânia e o Monte das Oliveiras.    8-9 de Setembro. Visita Belém.    10-13 de Setembro. Vai à torrente de Cedrón. Volta a Jerusalém.    14-15 de Setembro. Ao Jordão e ao Monte das Tentações.    16-22 de Setembro. Volta a Jerusalém. Visita o Monte das Oliveiras.    23 de Setembro. Volta a Jafa (Joppe).     3 de Outubro. Zarpa do porto de Jafa.    14-28 de Outubro. Na ilha do Chipre.    Princípios de Novembro. Zarpa rumo a Veneza.

1524 –  Meados de Janeiro. Chega a Veneza.    Começo de Fevereiro. Deixa Veneza. Passando por Génova, chega, por mar, a Barcelona. Visita rápida a Manresa.

1525 –  Ano todo. Em Barcelona, estudando gramática no Estudo Geral e trabalhando para ajudar as almas. Junta-se-lhe Calixto de Sá.

1526 –  Fins de Março (?). Deixa Barcelona. Vai a Alcalá estudar artes.    21 de Novembro. Sentença contra Inácio, dada não pela Inquisição, mas pelo vigário de Alcalá, Juan Rodrigues de Figueroa.    10 de Dezembro (aproximadamente). Mandam Inácio e seus três companheiros mudarem a roupa e, pouco depois, usarem sapatos.

1527 –  6 de Março. Segundo processo.    18 ou 19 de Abril. Fica detido na prisão.    2 a 21 de Maio. Terceiro processo.    1.° de Junho. Sentença de Figueroa contra Inácio. O santo sai da prisão pelo dia 21. Sai de Alcalá.    Princípios de Julho (?). Colóquio em Valladolid com o arcebispo de Toledo, Fonseca, e chegada a Salamanca.    Fins de Julho (?). Colóquio com os PP. Dominicanos em Santo Estêvão. Depois de três dias entra na prisão.    Pelos dias 20 e 22 de Agosto. Sentença do vigário geral, Martins Frias, que o absolve, mas lhe proíbe ensinar matérias teológicas antes de estudar teologia. Sai do cárcere.    Meados de Setembro. Sai de Salamanca. Dirige-se sozinho a Paris, por Barcelona. Os seus companheiros abandonam-no.

1528 –  2 de Fevereiro. Entra em Paris. Hospeda-se numa casa de amigos. Estuda latim no Colégio de Monteagudo.    Abril (depois do dia doze). Por falta de dinheiro translada-se para o hospital de Santiago.

1529 –  Quaresma. Primeira viagem à Flandres. Entrevista com Luís Vives.    Maio-Junho. Dá os Exercícios a Peralta, Castro e Amador.    Setembro. Vai a Ruão. Em Paris, translada-se para o Colégio de Santa Bárbara.    1.° de Outubro. Começa a estudar artes. Relaciona-se com Fabro e Xavier. Livra-se do castigo da «sala».

1530 –  Continua os seus estudos em Paris.     Agosto-Setembro. Segunda viagem à Flandres.    Continua os seus estudos de artes em Paris, no Colégio de Santa Bárbara.

1531 –   Agosto-Setembro. Terceira viagem à Flandres. Desta vez chega até Londres.

1532 – Janeiro. Consegue o bacharelato em artes.    Outubro. Começa a intimidade com Simão Rodrigues.

1533 – 13 de Março. Exames de licenciado em artes.

1534 – Começo do ano. Dá o mês de Exercícios a Pedro Fabro.  – Abril (depois do dia 5). Obtém o grau de mestre em artes.  – Primavera. Dá o mês de Exercícios a Laínez e Salmerón. Pouco depois,  a Rodrigues e Bobadilha.  – 15 de Agosto. Votos em Montmartre.  – Setembro. Dá o mês de Exercícios a Francisco Xavier.

1535 – 14 de Março. Recebe o diploma de mestre em artes sob o reitorado de F. Jacquart. Intenta em vão atrair a Nadal.  – Fins de Março. Defende-se da acusação de heresia ante o inquisidor Valentin Liévin.  – Princípios de Abril. Sai de Paris a caminho de Azpeitia.  – Fins de Abril (?). Chega a Azpeitia. Fica no hospital «La Magdalena».  – Maio-Julho. Em Azpeitia. Explica o catecismo, prega, dá exercícios, e consegue provisões em favor dos pobres. Visita Loyola (21-22 de Julho).  – Agosto-Setembro. Viaja por Obaños, Almazan, Siguenza, Madrid (onde vê Felipe II, menino de 8 anos), Toledo, Valência.  – Outubro-Novembro. Visita a Cartuxa de Val de Cristo, perto de Segorbe. Zarpa de Valência rumo a Génova. De Génova vai a pé a Bolonha.  – 11-18 de Dezembro (?). Adoece em Bolonha no Colégio de São Clemente.

1536 – Em Veneza, estuda teologia e dá Exercícios. Em Dezembro tem uma entrevista com João Pedro Caraffa.

1537 – 8 de Janeiro. Chegam os companheiros de Paris. Começam a dar assistência nos hospitais.  – Abril. Obtém, em Roma, licença para ir à Terra Santa. Começa o ano de espera: Maio 1537-Maio 1538.  – Junho. Ordena-se, com vários de seus companheiros. No dia 10, ordens menores; dia 15, subdiácono; dia 17, diácono; dia 24, presbítero.  – 25 de Julho. Não podendo ir à Palestina, Inácio, com Fabro e Laínez, dirige-se a Vicenza. A segunda «Manresa» em São Pedro de Vivarolo dessa cidade.  – Agosto, final (?). Vai a Bassano atender a Simão Rodrigues, doente.  – Setembro. Primeira missa de quase todos os companheiros em Vicenza e deliberações com eles sobre ministérios e nome de Companhia de Jesus.  – Outubro. Em Veneza recebe a declaração de inocência, do vigário geral. No fim do mês dirige-se a Roma com Fabro e Laínez.  – Novembro (meados). Visão em La Storta. Entra em Roma.  – Dezembro. Habita na Vila de Quirino Garzoni perto de Trinità dei Monti.

1538 – Até à Quaresma. Em Roma dá Exercícios, prega, exercita a caridade. Durante a Quaresma, no Montecassino (Albaneta), dá exercícios ao Dr. Ortíz.    Maio. Passado o ano de espera para partir para a Palestina, os companheiros vêm a Roma e ficam a viver junto da Ponte Sixto.  – Junho-Agosto. Grave perseguição em Roma. Aos 18 de Novembro, sentença que os absolve.  – Fins de Agosto. Vai a Frascati, residência de Verão de Paulo III, para obter a confirmação da sentença de absolvição.  – 18 de Novembro. É absolvido. Entre 18 e 23 oferecem-se ao Papa pela força do voto de Montmartre.  – Dentro do mês. Transladam-se à casa de António Frangipani, junto à torre «do Melangolo», onde habitam durante um ano e meio.  – 25 de Dezembro, meia-noite. Celebra a primeira missa no altar do Nascimento do Senhor, em Santa Maria Maior.  – Inverno 1538-1539. Assistência a famintos e pobres na sua casa de António Frangipani.

1539 – Março a meados de Junho. Deliberações sobre a formação de uma ordem religiosa.  – 4 de Maio. Primeiras determinações da Companhia.  – Junho-Agosto. Saem os primeiros companheiros em várias direcções. Prepara-se a fórmula do Instituto.  – 3 de Setembro. Paulo III aprova a fórmula do Instituto que lhe foi lida em Tivoli pelo cardeal Contarini, e manda que se publique o breve correspondente.   – 28 de Setembro. O cardeal Chinucci propõe diversas correcções.  – Dezembro. Propõe-se o exame da bula ao cardeal Guidiccioni, que se declara contrário.

1540 – 4 de Março. Simão Rodrigues parte a caminho da Índia.  – 16 de Março. Francisco Xavier sai também para a Índia.  – 27 de Setembro. Confirmação da Companhia de Jesus por meio da bula Regimini militantis Eclesiae, limitando o número de professos a 60.

1541 – Princípios de Fevereiro. Passam a viver numa casa perto de Santa Maria da Estrada.  – 7 de Fevereiro. Confirmação da Confraternidade de meninos órfãos.  – 4 de Março. Reunião dos primeiros companheiros para fazer as Constituições conforme a bula.  – 10 de Março. Inácio e Coduri começam a redigir as Constituições de 1541. Aprovadas e subscritas.  – 8 de Abril. Eleição de Inácio para geral, por unanimidade. Renúncia de Inácio.  – 13 de Abril. Nova eleição de Inácio, que vai a São Pedro in Montorio, onde permanece três dias.  – 19 de Abril. Aceitação do cargo.  – 22 de Abril. Primeira profissão solene na Capela do Santíssimo e da Virgem na Basílica de São Paulo. Lágrimas de Santo Inácio.  – 24 de Junho. Bula pela qual Paulo III concede a Igreja de Santa Maria da Estrada a Codacio e por seu intermédio à Companhia.  – Mês incerto. Primeiras fundações de Colégios.

1542 – 18 de Março. Faz diligências para terminar com o desacordo existente entre Paulo III e João III, rei de Portugal.  – 21 de Março. Obtém um breve em favor dos judeus convertidos.   – 10 de Dezembro. Testemunha ter escrito 250 cartas nos últimos dias.

1543 – 16 de Fevereiro. Bula de erecção de uma obra da Companhia, em favor das arrependidas.  – 19 de Fevereiro. Bula pela qual se institui um Colégio para catecúmenos convertidos do judaísmo.   – Fim do ano. Começa a levantar a primeira Casa Professa na antiga área da igreja de Santo André, da qual ainda se conservam alguns quartos, chamados «camerette de San Ignacio».

1544 – Santo Inácio, doente durante quatro meses. Constitui secretário para a correspondência o P. Jerónimo Doménech.    Janeiro. Abre-se a Casa de Santa Marta para mulheres arrependidas e começa a compor as Constituições, começando pela parte da pobreza.    2 de Fevereiro a 13 de Março. Escreve a parte do Diário Espiritual que trata da pobreza das casas professas.  – 15 de Fevereiro. Breve em favor da Confraternidade de Catecúmenos.  – 14 de Março. Bula Iniunctum nobis, em que se confirma novamente a Companhia. Exclui-se a limitação anterior de 60 professos.  – 15 de Março. Começa a escrever as Constituições sobre as missões.     Setembro. Transfere-se para as «Camerette» da Casa Professa.

1545 – 27 de Fevereiro. Termina a parte do Diário Espiritual que nos foi conservada. Visões e ilustrações quase contínuas, durante o ano em que o foi escrevendo. Fenómenos semelhantes repetiram-se, sem dúvida, em muitas outras épocas de sua vida.  – 3 de Junho. Breve pontifício concedendo graças e faculdades à Companhia.  – 27 de Agosto. Baptiza, em forma privada, no palácio Madama, o segundo filho gémeo de Margarida de Áustria, Alexandre Farnese, depois célebre duque de Parma.  – Setembro. Vai a Montefiascone tratar com Paulo III da introdução da Inquisição em Portugal e da fundação do Colégio de Pádua.    Novembro. Bartolomeu Ferrão, novo secretário. Juntam-se novas casas e terras à Casa Professa.    25 de Dezembro. Profissão de Isabel Roser e suas companheiras.

1546 –  Abril. Institui uma obra pia em favor das jovens em perigo.  – 5 de Junho. Breve pelo qual se aceita a admissão na Companhia de coadjutores espirituais e temporais.  – 1.° de Agosto. Falece em Roma o beato Pedro Fabro.  – 11 de Agosto. Sentença a favor de Inácio contra as calúnias de Matias delle Poste.  – Meados do ano. Determina os impedimentos para entrar na Companhia e inclui-os no Exame.  – 1.° de Outubro. Constituição apostólica pela qual se proíbe o ramo feminino na Companhia de Jesus.    9 de Outubro. Admite na Companhia a Francisco de Borja.  – 25 de Outubro. Constitui-se a primeira província da Ordem, a portuguesa, e é provincial o P. Simão Rodrigues.  – Fins de Outubro. Promete a Júlio III que ele, pessoalmente, tomará a missão de Etiópia, se não houver outro na Companhia que possa encarregar-se dela.  – Últimos meses. Compõe Constituições de estudantes. Impede que Jayo seja nomeado bispo.

1547 – A partir deste ano dedica muito tempo a escrever as Constituições.  – 15 de Março. Recusa a união com a Congregação de Somasca, proposta pelo P. Francisco de Medde. João de Polanco, é nomeado secretário e procurador geral.  – 7 de Maio. Escreve a célebre carta chamada da perfeição.  – 20 de Maio. Obtém de Paulo III que nenhuma mulher possa viver em comunidade sob a obediência da Companhia.    11 de Junho. Comunicação de bens espirituais da Cartuxa.    1.° de Setembro. Araoz, primeiro provincial da Espanha.    4 de Novembro. Bula de erecção da Universidade de Gandia.  – 13 de Novembro. São Pedro Canísio, instruído em Roma pelo Santo.  – 20 de Novembro. Constitui os primeiros coadjutores espirituais na Índia.

1548 – Final de Janeiro. Algumas propostas sobre o ofício de examinar os ordenados em Roma.  – 5 de Maio. Inácio, doente até esse dia, sai de casa para visitar os cardeais Alvares de Toledo e Mendoza Bobadilla.  – 6 de Junho. Termina-se a nova Casa Professa composta por 40 quartos.  – 14 de Julho. Apesar de não se encontrar bem, Inácio continua a escrever as Constituições.  – 31 de Julho. Aprovação e recomendação dos Exercícios por Paulo III.  – 8 de Outubro. Volta a Roma de sua viagem a Tivoli, onde tinha permanecido alguns dias para acertar desavenças entre esta cidade e Castel Madama.  – Fim do ano. Escreve as Declarações ao Exame, o documento sobre a abdicação dos bens e os Estatutos para o Colégio de Bolonha.

1549 – Janeiro. Inácio continua doente. Interrompe a correspondência epistolar.  – 16 de Fevereiro. Começa a preparar a grande missão dos PP. Jayo, Salmerón e São Pedro Canísio para a Alemanha.  – 25 de Março. Audiência com Paulo III no Quirinal.  – 27 de Junho. Manifesta a primeira ideia de fundar o Colégio Romano e edificar uma nova Igreja para a Companhia.  – 8 de Setembro. Assiste, em Tivoli, à solene inauguração do Colégio da Companhia.  – 10 de Outubro. Constitui a Província da Índia, nomeando provincial Francisco Xavier.  – 8 de Dezembro. Angústias económicas depois da morte do procurador P. Codacio.

1550 – 25 de Janeiro. Por causa da difícil situação económica, todos se vêem obrigados a mendigar.  – 21 de Julho. Bula do novo pontífice Júlio III confirmando de modo mais amplo a Companhia e esclarecendo alguns pontos.  – 23 de Outubro. O duque de Gandia, que chega com um séquito de 20 a 25 pessoas para ganhar o jubileu, hospeda-se numa parte separada da Casa Professa. Colóquios de Santo Inácio com ele.  – Durante o ano. Compõe as Adições ao Exame e o cuidado que há de ter a Companhia do prepósito geral.  – Fim do ano. Inácio gravemente enfermo.

1551 – Começo do ano. Reunião dos principais padres que examinam as Constituições já preparadas e fazem diversas observações.   – 1.° a 14 de Janeiro. Inácio continua doente.  – 30 de Janeiro. Renuncia ao generalato e esforça-se por persuadir os seus companheiros a que admitam a abdicação. Estes, exceptuando-se o P. Oviedo, não a admitem.  – 4 de Fevereiro. Francisco de Borja sai para a Espanha.  – 22 de Fevereiro. Inaugura-se o Colégio Romano.  – 1.° de Maio. Grandes dificuldades económicas, por se ter estendido o rumor de que Borja tinha deixado muito dinheiro.  – 1.° de Agosto. Primeiras tentativas para a fundação do Colégio Germânico.  – 1.° de Dezembro. Promovem-se colégios por toda a parte.  – 5 de Dezembro. Cria a Província da Itália, nomeando provincial o P. Broet.  – 19 de Dezembro. Pensa encarregar a promulgação das Constituições ao P. Nadal e chama-o a Roma.  – Durante o ano. Compõe as primeiras regras do Colégio Romano.

1552 – 1.° de Janeiro. Cria-se a Província de Aragão. Nomeia provincial o P. Simão Rodrigues.  – Fins de Maio. Impede, depois de muito lutar, que Borja seja nomeado cardeal.  – 31 de Agosto. Bula da fundação do Colégio Germânico.  – 22 de Outubro. Bula de Júlio III pela qual, entre outros privilégios, concede a este Colégio a faculdade de outorgar graus académicos.  – 28 de Outubro. Primeiro acto solene do Colégio Romano. Começam a ensinar artes e filosofia.  – 2 a 12 de Novembro. Vai, com Polanco, a Alvito (província de Frossinone) a restabelecer a concórdia entre Joana de Aragão e seu marido Ascanio Colonna. Volta no dia doze. Na volta detém-se em Ceprano, onde visita o cardeal Mendoza.  – Durante o ano. Compõe as Constituições «De aliviar a pobreza dos colégios» e «Da mesa do Prepósito».

1553 – 26 de Março. Escreve a célebre «Carta sobre a obediência».  – 10 de Abril. Nomeia o P. Nadal comissário de Espanha e Portugal e confia-lhe a promulgação das Constituições.  – 15 de Abril. Polanco pede oração por Santo Inácio doente.    7 de Junho. Há dois meses Inácio está tão doente, que se considera próximo à morte.    28 de Junho. Chama Xavier a Portugal e a Roma.  – 9 de Julho. Institui a Província do Brasil. Nomeia provincial ao P. Manuel da Nóbrega.  – 25 de Julho. A pedido de Pedro Canísio ordena missas e orações pela Inglaterra, Alemanha e países setentrionais da Europa.  – Fins de Agosto. Começa a ditar ao P. Gonçalves da Câmara a Autobiografia.  – 3 de Outubro. Compra novas casas junto do solar da Casa Professa para edificar a igreja.  – 21 de Outubro. De cama pela má saúde.  – 6 de Novembro. Precedidos de solenes actos académicos inauguram-se no Colégio Romano os cursos completos de filosofia e teologia.

1554 – 1.° de Janeiro. Promove novamente, e com grande empenho, a missão da Etiópia.  – 16 de Janeiro. Deseja, se a Companhia lho permitir, ir pessoalmente a África, à antiga Afrodisio, hoje EI-Kef, para começar pessoalmente a nova missão.  – 17 de Janeiro. Forma três províncias na Espanha: Castela, Aragão, Bética.  – 17 de Janeiro. Deseja ter em Roma, durante algum tempo, o japonês Bernardo, o primeiro japonês vindo a Roma.  – 1.° de Fevereiro. Quer completar as Constituições e de facto vai-as aperfeiçoando durante o resto de sua vida.  – 2 de Fevereiro. Deseja fundar um colégio no Peru.  – 8 de Março. Promulga-se com grande solenidade em Santa Maria supra Minervam, na presença de 24 cardeais, a bula Pastoralis Offici, pela qual se funda a Arquiconfraria do Santo Sepulcro e concede-se a fundação de colégios da Companhia em Jerusalém, Constantinopla e Chipre.  – Abril. Inácio adoece.  – 1.° de Maio. Alegra-se de que Canísio escreva um catecismo. Espera que a Alemanha volte à Igreja Católica, como acontecia então com a Inglaterra. Alegra-se de que peçam colégios em Transilvânia e Polónia.  – 13 de Maio. Começam a admitir-se ingleses no Colégio Romano.  – 14 de Junho. Adoece gravemente. A enfermidade prolonga-se durante três meses nos quais apenas pode atender os negócios. Miguel Angel Buonarroti encarrega-se da construção da nova igreja de Santa Maria da Estrada.  – 4 de Agosto. Louva o propósito do rei dos Romanos de fundar um Colégio Húngaro em Roma.  – 1.° de Outubro. Gravíssimas angústias económicas.  – 6 de Outubro. Começam os trabalhos da construção da nova igreja. Os trabalhos continuam só até 1555.  – 26 de Outubro. Admite na Companhia de modo excepcional, e com obrigação de guardar rigorosíssimo segredo, dona Joana de Áustria, filha de Carlos V.  – 11 a 17 de Novembro. Doente, permanece de cama.  – 1.° de Dezembro. Procuram esmolas, mendigando em Roma.  – 30 de Dezembro. Deseja que em cada província espanhola haja um noviciado próprio.  – Fim de ano. Compra-se uma propriedade no monte Aventino, próximo das termas de Caracalla, para descanso dos estudantes.

1555 – 2 de Janeiro. Inácio goza de boa saúde.  – 5 de Janeiro. Projecta ir a Loreto depois da Páscoa. Desiste da viagem em razão da «sede vacante».  – 15 de Janeiro. Inácio torna a sentir-se mal.  – 26 de Janeiro. O P. Gonçalves da Câmara começa a redigir o seu Memorial. Em Roma há uns 150 jesuítas.  – 6 de Fevereiro. No consistório, Júlio III determina fundar o Colégio Romano. Pela morte do Pontífice o projecto é posto de parte.  – 18 de Fevereiro. Nadal é nomeado comissário geral da Itália, Áustria e outras regiões da Europa central.  – 9 de Março. Inácio continua a narração de sua vida, ao P. Gonçalves da Câmara, que havia sido interrompida.  – Junho-Julho. Inácio goza de boa saúde.  – Princípios de Agosto. É criada a Província da França.  – 1.° de Setembro. Inácio goza de óptima saúde. Por causa da escassez de alimentos, mais de cem jesuítas saem de Roma e suprimem-se alguns alimentos aos que ficam na cidade.  – 22 de Setembro. Inácio recomeça a narração de sua vida ao P. Gonçalves da Câmara.  – 3 de Outubro. Laínez, comissário geral para a Itália.  – 18 de Outubro. Câmara escreve a última notícia do Memorial.  – 22 de Outubro. Na véspera do P. Gonçalves da Câmara partir para Portugal, Inácio acaba de contar-lhe a sua vida.  – 23-31 de Outubro. Nomeia assistentes gerais os PP. Madrid, Laínez e Polanco.  – 13 de Novembro. Confirma Borja para uma comissão geral da Espanha, Portugal e Índia.  – Novembro-Dezembro. Muito boa saúde de Inácio até 21 de Dezembro, dia em que volta a sentir-se mal.

1556 – 11 de Janeiro. Inácio sente-se mal, com contínuas dores de estômago e febre, até ao fim do mês.  – 8 de Fevereiro. Não pode celebrar há vários meses. Comunga cada oito dias.  – 12 de Fevereiro. A igreja da Companhia ficou muito melhorada.  – 25 de Fevereiro. Ainda não estão completamente acabadas as Constituições e regras.  – 25 de Maio. Desse dia até à sua morte anda solícito com a fundação de uma imprensa no Colégio Romano.   – 7 de Junho. Erige a Província de Germânia Superior. Nomeia Provincial Pedro Canísio. Uns dias antes constitui a de Germânia Inferior, nomeando Provincial o P. Bernardo Olivério.  – 11-22 de Junho. Permanece doente.  – 2 de Julho. Por causa da doença translada-se para a Vila do Colégio Romano, junto do Aventino. No começo sente-se melhor. Encarrega o governo aos PP. Polanco e Madrid.  – 28 de Julho. Piora. Volta para a Casa Professa.  – 29 de Julho. Pede a Polanco que o Dr. Torres se encarregue de sua saúde como faz com os outros doentes.  – 30 de Julho, à tarde, 5.ª feira. Chama o P. Polanco e encarrega-o de pedir ao Papa a bênção para ele, porque se sente próximo da morte. Polanco não acreditando na gravidade da doença, depois de ouvir o parecer do médico, deixa o pedido para o dia seguinte. À noite Inácio ceia com os PP. Polanco e Madrid. Estes não suspeitam do rápido desenlace que se vai dar.  – 31 de Julho, ao amanhecer, 6.ª feira. Vêem Inácio agonizando. Polanco vai pedir a bênção ao Papa. Inácio morre às 5 e meia, em presença dos PP. Madrid e Frusio. À tarde, o insigne cirurgião Realdo Colombo faz a autópsia do cadáver. Tira-se um modelo do Rosto.  – 1.° de Agosto. À tarde é enterrado na capela maior da igreja da Companhia, na parte do evangelho.

1595 – Instituem-se os processos ordinários para a beatificação.

1605-1606 – Processos apostólicos, remissoriais.

1609 – 3 de Dezembro. Beatificação por Paulo V.

1622 – 12 de Março. Solene canonização por Gregório XV.

1922 – 25 de Julho. É declarado por Pio XI celeste padroeiro dos Exercícios Espirituais e de todas as obras e casas relacionadas com eles.

 

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