terça-feira, 16 de agosto de 2016

Mariologia


Mariologia

Mariologia é o conjunto de estudos teológicos acerca de Maria, mãe de Jesus Cristo na Igreja Católica, que compreende uma vasta produção bibliográfica que visa a salientar a importância da figura feminina de Maria e a profunda e piedosa crença dos fiéis a ela, com o objetivo de enriquecer o âmbito teológico cristão.

A Mariologia tradicionalmente subdivide-se em Mariologia Histórica (estuda os dados históricos, sociais e afins que permitem aceder à figura histórica de Maria), Mariologia Bíblica (versa sobre os fundamentos bíblicos das afirmações sobre Maria), Mariologia "popular" (trabalha os dados que as devoções populares sobre Maria receberam da Tradição eclesiástica e vice-versa) e Mariologia Sistemática (aprofunda os dados da história, das Escrituras e da piedade sistematizando-os em coerência com as doutrinas cristológicas e eclesiológicas).

1. Typus de Maria no Antigo Testamento

Grande parte dos estudiosos da Bíblia está de acordo neste ponto: não há nenhum texto nas escrituras judaicas, ou primeiro testamento, com a intenção explícita de fazer um anúncio antecipado sobre Maria. Na realidade, depois que Maria se tornou reconhecida na comunidade cristã, a partir do século 3, aconteceu uma releitura dos textos bíblicos. Ampliou-se o sentido original. Assim, algumas imagens e alegorias, como “a descendência da mulher que esmaga a cabeça da serpente” (Gn 3,15), passaram a ser compreendidas em relação à mãe de Jesus.

Desde o Antigo Testamento temos algumas passagens que se referem a Maria, anunciam Cristo de uma maneira velada e profética, mas também projetam o rosto de Maria (Arca da Aliança, Arca de Noé, Sarça Ardente, Tabernáculo do Altíssimo, Templo de Deus, Filha de Sião). O primeiro texto da Bíblia que se refere a Mãe do Messias é este:” Porei inimizade entre você e a mulher, entre a descendência de você e os descendentes dela” (Gn 3,15). Este texto do protoeveanglho ressoa em Jo 2,4 e Jo 19,26; passagens em que Jesus dá a sua Mãe o nome de mulher.

Por exemplo, em Is 7,12, o profeta, em nome de Deus propôs o sinal: “Sabei que o Senhor mesmo vos dará um sinal: Eis que a jovem concebeu e dará à luz um filho, e por-lhe-á o nome de Emanuel” (Is 7,14). Quem é o Emanuel? – Há quem veja nele o rei Ezequias, filho e Acaz, só que este não preenche o título “Deus conosco”.  Isaías tem em vista, o Messias, que é a garantia de que a dinastia de Davi não será destronada.  Em Is 9,5s “Um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado. Traz o cetro do principado e se chama ‘Conselheiro Admirável, Deus Forte, Pai Eterno, Príncipe da Paz’. O seu glorioso principado e a paz não terão fim, no trono de Davi e no seu reino, firmando-o e consolidando-o sobre o direito e sobre a justiça”.

E quem é a mãe do Emanuel? – É dita “almah” – Há quem veja nela a esposa do rei Acaz, mãe de Ezequias, cabe lembrar que jamais na Bíblia a palavra “almah” designa uma mulher casada ou jovem que tenha perdido a virgindade.  O grego em Alexandria, ao criar a versão dos LXX usou o vocábulo “parte-nos”, virgem, e em Mt 1,23 “Eis que a ‘virgem’ conceberá e dará à luz um filho e lhe dará o nome de Emanuel”.

A virgindade da mãe do Messias põe em relevo o caráter extraordinário do seu parto.  O filho dessa Virgem Mãe é especial dom de Deus aos homens, como a salvação é dom de Deus.  E, em conclusão: Isaías garante a Acaz a incolumidade do seu trono.  É a salvação a ser trazida em plenitude pelo Messias; a grande bênção do Deus-conosco exerce ação antecipada nos tempos de Acaz.

Para entender bem o valor do sinal assim dado por Isaías, devemos entender: estamos acostumados a ver a história, como algo que se desdobra do passado para o futuro.  No caso dos profetas, requer-se outro modo de conceituar a história, ela tem seu ponto de partida no futuro.  A história sagrada tem seu centro no Messias ou em Jesus Cristo e é a partir deste que os eventos se sucedem e desenvolvem.  Assim, Davi é função de Jesus Cristo, em vez de Jesus Cristo ser função de Davi.

Miquéias, capítulo 5, verso 1 e seguintes: “E tu, Belém Éfrata, pequena demais para ser contada entre os clãs de Judá, de ti sairá para mim aquele que deve governar Israel. Suas origens são de tempos antigos, de dias imensuráveis.  Por isto Deus os abandonará até o tempo em que dará à luz aquela que deve dar à luz. Então o que houver restado de seus irmãos, se reunirá aos filhos de Israel”.
        
Este texto pode não ser tido como profecia messiânica; seria explicável simplesmente como anúncio de salvação e restauração do povo de Israel após o exílio babilônico.  Miquéias foi contemporâneo de Isaías.  A própria tradição judaica, antes dos cristãos, viu nestes versículos uma profecia messiânica a anunciar a vinda de um novo Davi, que governaria com firmeza e segurança o povo de Deus.  São Mateus mostra que tal profecia se cumpriu por ocasião do nascimento de Jesus (Mt 2,6).  Os sacerdotes e escribas de Israel citaram Mq 5,1s para indicar o lugar em que o Messias devia nascer (Mt 2,4-6).
      
Não se pode esperar encontrar no AT um quadro Mariológico muito nítido.  Importa, porém, verificar que as profecias messiânicas mais antigas já delineiam alguns traços de Maria, concebida como Mãe do Salvador.
       
A esperança fundamental do AT é a do Messias.  Por isto Maria Santíssima é aí esboçada estritamente como mãe do Messias. Sendo a prerrogativa principal de Maria a maternidade messiânica, Isaías não tenciona exaltar a virgindade, mas tem em vista realçar o dom gratuito do Filho do Messias. Não é o homem quem, por sua própria capacidade, gera a sua salvação.

O Salmo de Ana - (1 Sm 2:1-10)

“Então, orou Ana e disse: O meu coração se regozija no Senhor, a minha força está exaltada no Senhor; a minha boca se ri dos meus inimigos, porquanto me alegro na tua salvação. Não há santo como o Senhor; porque não há outro além de ti; e Rocha não há, nenhuma, como o nosso Deus. Não multipliqueis palavras de orgulho, nem saiam coisas arrogantes da vossa boca; porque o Senhor é o Deus da sabedoria e pesa todos os feitos na balança. O arco dos fortes é quebrado, porém os débeis, cingidos de força. Os que antes eram fartos hoje se alugam por pão, mas os que andavam famintos não sofrem mais fome; até a estéril tem sete filhos, e a que tinha muitos filhos perde o vigor. O Senhor é o que tira a vida e a dá; faz descer à sepultura e faz subir. O Senhor empobrece e enriquece; abaixa e também exalta. Levanta o pobre do pó e, desde o monturo, exalta o necessitado, para o fazer assentar entre os príncipes, para o fazer herdar o trono de glória; porque do Senhor são as colunas da terra, e assentou sobre elas o mundo. Ele guarda os pés dos seus santos, porém os perversos emudecem nas trevas da morte; porque o homem não prevalece pela força. Os que contendem com o Senhor são quebrantados; dos céus troveja contra eles. O Senhor julga as extremidades da terra, dá força ao seu rei e exalta o poder do seu ungido.”

Neste Salmo de louvor foi o pano de fundo do Magnificat de Maria.

O Cântico dos Cânticos apresenta o amor entre um jovem e uma jovem, desde o início do namoro até o contrato matrimonial, como tipo ou figura do amor do Senhor Deus pela Filha de Sião. (Ct 6,10) – “Quem é esta que avança como a aurora que desponta, bela como a lua, incomparável como o sol, terrível como um exército em linha de batalha?”  Esta é tida pelos Profetas como Esposa de Javé (Is 54,1-8; 62,4s; Os 1-3).  Já no NT a Esposa de Javé é a Igreja (2Cor 11,2; Ef 5,25-29), da qual Maria é a miniatura, protótipo e o estado final que tocará a todos os justos.  A Alma de Maria, cheia de graça, estava (e está) unida ao Senhor Deus mais do que qualquer criatura. 

Os livros de Provérbios e Eclesiástico personificam a Sabedoria, e os respectivos autores não a conceberam como simples atributo de Deus, mas como uma pessoa que assistiu a Deus na obra da criação (Pr 8,22-31 e Eclo 24,3-21).

Merecem registro duas mulheres do AT: Judite e Ester. Judite é viúva, figura desprotegida e fraca do ponto de vista humano, fortalecida pela oração e jejum, realiza a extraordinária façanha; matou o general Holofernes, que se fazia de grande “deus”. (Jd 13,18) “Por sua vez, dirigindo-se a Judite, falou Ozias: “Tu és bendita, ó filha, pelo Deus altíssimo, mais que todas as mulheres da terra. Bendito é o Senhor, nosso Deus, que criou o céu e a terra, e te conduziu para ferires na cabeça o chefe dos nossos inimigos” Judite foi hipócrita e mentirosa junto a Holofernes, mas estava no seu papel de espiã adversária; o procedimento de Judite foi lícito, dado que estava em situação de guerra.  À Virgem Santíssima, na Liturgia, são aplicados os louvores tributados pelo povo a Judite: “Tu és a glória de Jerusalém! Tu és o supremo orgulho de Israel! Tu és a grande honra do nosso povo! ... Abençoada sejas tu pelo Senhor na sucessão dos tempos!” (Jd 15,9s).
Ester, figura frágil, israelita na corte do rei Assuero da Pérsia, fortalecida pelo Senhor Deus, sabe encaminhar os acontecimentos de modo a livrar seu povo do grave perigo de extermínio planejado pelo Primeiro Ministro Amã; foi a grande intercessora junto ao rei em prol de sua gente. Est 7,3 – “Ela respondeu: “Se encontrei graça a teus olhos, ó rei, e se te agrada, concede-me a vida, pela qual suplico, e a vida do meu povo, pelo qual te peço”.

Judite e Ester, lembram que é Deus quem salva os homens como Ele quer, servindo-se dos instrumentos mais precários aos olhos humanos.  Maria foi certamente a humilde serva do Senhor, que a Providência Divina quis elevar à categoria de nova Eva, intimamente associada à obra de salvação do gênero humano.
Maria, filha de Sião. (Sl 87, este nela nasceu).

2. O Proto-Evangelho

O Antigo Testamento não fala de Maria, com palavras explícitas. Alguns de seus textos referem-se à Mãe do Messias, contendo profecias sobre Maria. A Constituição Dogmática “Lumen Gentium” sobre a Igreja, no Capítulo VIII: A Bem-Aventurada Virgem Maria Mãe de Deus, no mistério de Cristo e da Igreja (nº 55), refere-se à mulher, Mãe do Redentor (Gn 3,15); a Virgem Mãe que dará à luz um Filho chamado Emanuel (Is 7,14 – cf. Mt 1, 22-23), o qual nascerá em Belém (Mq 5,2-3 – cf. Mt 2, 5-6).

“Proto-Evangelho” (Gn 3,15)
Gn 3,15: “Porei hostilidade entre ti e a mulher, entre tua linhagem e a linhagem dela. Ela te esmagará a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar”. Esse texto da Bíblia é chamado o “Proto-Evangelho” (primeiro evangelho). A primeira “Boa-Nova” da salvação. Deus compromete-se a dar aos homens um Redentor. É o primeiro anúncio da vitória do Messias Redentor, nascido de uma mulher. Quem é a mulher? Em sentido literal se refere à Eva, a primeira mulher que se deixou seduzir pela serpente; Eva como mãe da linhagem que há de vencer a serpente. Quem obteria a vitória final sobre a serpente, num sentido coletivo, seria todo o gênero humano fiel a Deus Entende-se por “Sentido literal”: “É não apenas legítimo mas indispensável procurar definir o sentido preciso dos textos tais como foram produzidos por seus autores, sentido chamado “literal” ... O sentido literal da Escritura é aquele que foi expresso diretamente pelos autores humanos inspirados”. Conforme a letra do texto, e este tomado isoladamente, Maria, bem como Jesus Cristo, não aparecem na passagem bíblica. Sob o aspecto mariológico, se bem que o texto não fale diretamente de Maria, explica o Concílio Vaticano II, Maria “já é profeticamente esboçada na promessa dada aos primeiros pais caídos no pecado, quando se fala da vitória sobre a serpente (cf. Gn 3,15)”. (Constituição Dogmática “Lumen Gentium” Sobre a Igreja, nº 55).
          
Além do “sentido literal”, a Igreja reconhece um “sentido pleno”. “Define-se o sentido pleno como um sentido mais profundo do texto, desejado por Deus, mas não claramente expresso pelo autor humano. Descobre-se sua existência em um texto bíblico quando se estuda esse texto à luz de outros textos bíblicos que o utilizam ou em sua relação com o desenvolvimento interno da revelação. Trata-se, então, ou do significado que um autor bíblico atribui a um texto bíblico que lhe é anterior, quando ele o retoma em um contexto que lhe confere um sentido literal novo, ou ainda do significado que a tradição doutrinal autêntica ou uma definição conciliar dão a um texto da Bíblia”. 3 João Paulo II, na Carta apostólica “Fides et Ratio” Sobre as relações entre fé e razão esclarece: “...não se deve subestimar o perigo que existe quando se quer individuar a verdade da Sagrada Escritura, com a aplicação de uma única metodologia, esquecendo a necessidade de uma exegese mais ampla que permita o acesso em união com toda a Igreja, ao sentido pleno dos textos.” (Nº 55). Sentido pleno faz crescer na Igreja, o significado mais profundo das palavras da Escritura, quando são estudadas considerando-se os caminhos do Senhor na história da salvação. “A Bíblia se explica pela Bíblia por inteiro”. O Catecismo da Igreja Católica ensina: “O Concílio Vaticano II indica três critérios para uma interpretação da Escritura conforme ao Espírito que a inspirou:

1) Prestar muita atenção “ao conteúdo e à unidade da Escritura inteira”. Pois, por mais diferentes que sejam os livros que a compõem, a Escritura é una em razão da unidade do projeto de Deus, do qual Cristo Jesus é o centro e o coração, aberto depois da sua Páscoa...
2) Ler a Escritura dentro “da Tradição viva da Igreja inteira” ... Com efeito, a Igreja leva na sua Tradição, a memória viva da Palavra de Deus, e é o Espírito Santo que lhe dá a interpretação espiritual da Escritura...
3) Estar atento “a analogia da fé”. Por “analogia da fé” entendemos a coesão das verdades da fé entre si e no projeto total da Revelação “(nº 112/114). Aplicando esses princípios a Gn 3,15, pode-se dizer que o descendente da mulher foi o Messias. Com o Messias Jesus fica implicada sua mãe. O sentido pleno aponta para Jesus e Maria.

Interpretação da Tradição

A tradição católica interpreta Gn 3,15 como o anúncio da vitória do Messias, nascido de uma mulher. É o primeiro anúncio da salvação que Cristo trouxe destruindo as obras do demônio. A tradição católica reconheceu aqui a pessoa de Maria e o papel importante da mãe do Messias. No século II, encontramos nos Padres da Igreja o tema da comparação Eva/Maria. Eles viram a pessoa de Maria associada com Jesus para a salvação de todos os homens, como Eva com Adão no pecado. O paralelismo Maria nova – Eva associado com Cristo novo- Adão, na luta contra o diabo, luta que termina pela vitória total sobre o demônio (protoevangelho). Somente depois de realizada a obra redentora compreendemos que Cristo é o “segundo Adão” (Rm 5,12-19).

São Justino (+ 165) afirma: “<Jesus> se fez homem por meio da Virgem, de sorte a ser finalizada a desobediência, oriunda da serpente, por ali mesmo onde havia começado. Eva era virgem e incorrupta; concebendo a palavra da serpente, gerou a desobediência e a morte. A Virgem Maria, porém, concebeu fé e alegria quando o anjo Gabriel lhe anunciou a boa nova”... (citado em C. Folch Gomes, Antologia dos Santos Padres, Paulinas, 1979, p. 79). Santo Irineu (+ 202) acrescenta: “Ora, como Eva..., que tendo-se feito desobediente, se tornou causa de morte tanto para si quanto para todo o gênero humano, também Maria...obedecendo, tornou-se causa de salvação tanto para si quanto para todo o gênero humano...” (citado em S. Fiores e S. Meo, Dicionário de Mariologia, Paulus, 1995, p. 1006). Santo Epifânio (+ 403) diz:” Numa consideração exterior e aparente, dir-se-ia que de Eva derivou a vida de todo o gênero humano, sobre a terra. Mas na verdade é de Maria que deriva a verdadeira vida para o mundo, é ela que dá à luz o Vivente, ela a Mãe dos viventes. Portanto, o título de “mãe dos viventes” queria indicar, na sombra e na figura Maria.”(Ibidem C.F.Gomes, p. 306). Daí o título de “Nova Eva”. Maria é a mulher “mãe dos vivos”, pois deu a luz o vencedor da morte.

3. Typus de Maria nas cartas de São Paulo

Maria, a ignorada – Os primeiros escritos do Novo Testamento foram as cartas de São Paulo. E nelas há 3 referências ao nascimento de Jesus, porém nunca se fala de Maria. A primeira está na Carta aos Filipenses, na qual ele diz que Jesus “nasceu à semelhança dos homens” (2,7). A segunda, na Epístola aos Romanos, diz que Jesus nasceu “como homem, da família da Davi” (1,3). A terceira, a mais explícita, em Gálatas 4,4: “quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de uma mulher”. Vemos, pois, que Paulo nunca menciona Maria. O fato é que Paulo concentrou toda sua pregação unicamente na morte e ressurreição de Jesus. Tudo mais ficou em segundo plano para ele.

No NT os relatos a respeito de Maria são incompletos, não sistemáticos e, as vezes, contraditórios. Também referem-se a Maria, as palavras do Evangelho de João, as mesmas dirigidas a Igreja: “Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito” (Jo 14,26) e “Quando vier o Paráclito, que vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, ele dará testemunho de mim” (Jo 15,26).

As cartas de São Paulo são as mais antigas do NT. O mais antigo testemunho do NT a respeito de Maria está em Gal 4,4: “Mas quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, que nasceu de uma mulher e nasceu submetido a uma lei”. Esta carta foi escrita nos anos 57/58 na cidade de Corinto, assim coma a carta aos Romanos.

Paulo não fala da maternidade de Maria, ele não se preocupa como o Filho de Deus tornou-se homem, mas diz que assim aconteceu. Paulo fala que Jesus é verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Em sua carta aos Gálatas escreve assim:  "Dos outros apóstolos não vi mais nenhum, a não ser Tiago, irmão do Senhor”. Gal 1,19.  Paulo afirma que o Senhor teve irmão, põem, não explica em que sentido usa a palavra irmão: no sentido exato ou no sentido mais amplo.

Aos Romanos ele escreve: “Paulo, servo de Jesus Cristo, escolhido para ser apóstolo, reservado para anunciar o Evangelho de Deus; este Evangelho Deus prometera outrora pelos seus profetas na Sagrada Escritura, acerca de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor, descendente de Davi quanto à carne, que, segundo o Espírito de santidade, foi estabelecido Filho de Deus no poder por sua ressurreição dos mortos” Rm 1,1-4.  Aqui Paulo não informa que Jesus é descendente de Davi. O mesmo está em 2 Tm 1,8; “Lembra-te de Jesus Cristo, saído da estirpe de Davi e ressuscitado dos mortos, segundo o meu Evangelho” - como esta promessa dada a Davi passou para Jesus – através do pai ou da mãe – aqui isso não está explicado.
Paulo não estava interessado na família de Jesus nem os seus pais. Falando da dignidade messiânica ele usa dois termos a vida “segundo a carne”’ e “segundo o espírito”. Em Gal 4,4, fala sobre a mãe de Jesus como aquela que lhe transmitiu a existência terrestre, e não o pai, e fala do nascimento do espírito. Assim, a pergunta sobre a função de Maria na historia da salvação, em Paulo, é uma questão aberta.

Maria no Novo Testamento

A ordem cronológica, dos livros bíblicos do Novo Testamento que falam explicitamente de Maria. São eles:

A Carta aos Gálatas que contém as informações mais antigas sobre Maria – (livro escrito por volta do ano 50 d.C.).
O Evangelho de Marcos (escrito por volta do ano 60 d.C.)
O Evangelho de Mateus (escrito por volta do ano 70 d.C.)
O Evangelho de Lucas (escrito por volta do ano 70 d.C.)
O Livro dos Atos dos Apóstolos (também escrito por volta do ano 70 d.C.)
O Evangelho de João (escrito por volta dos anos 90-100 d.C.)
Apocalipse (também escrito por volta dos anos 90-100 d.C.)

3. A nova família de Jesus: o enfoque de Marcos

Marcos apresenta um retrato de Maria convidada para entrar na escola do seguimento de Jesus (Mc 9,7) e a proclamar a sua fé com valentia (Mc 6,7. 13; 16,15). Logo depois de escolher os doze, Jesus sobe à montanha, lugar do encontro com o Pai, e aí cria uma nova família, a família dos seguidores, inclusive Maria, sua mãe, é convidada a fazer parte deste discipulado tornando-se uma "peregrina da fé". 

No evangelho de Marcos, o primeiro a ser escrito, Maria aparece no meio dos familiares de Jesus, sem qualquer destaque. O evangelista mostra com clareza que, para Jesus, importa sobretudo uma nova família, não mais formada por laços de parentesco. A verdadeira família de Jesus será, de agora em diante, a dos seus seguidores, ou seja, os discípulos e discípulas que fazem a vontade do Pai. Sobre Maria tem duas passagens, que nos referem algo a respeito de Maria:

1. Mc 3,31-35 – sua mãe e sues irmãos procuravam Jesus.  Jesus precisa romper com a família para ter liberdade de anunciar o Reino de Deus (Mc 3)
2. Mc 6,1-3: Jesus é o filho de Maria
O Evangelho de Marcos:(+ou-60) Maria = Mãe clânica ou canal do Messias.

4. Maria em Mateus

O Evangelho de Mateus: (+ou-70) Maria= Mãe virginal do Messias segundo as profecias Mateus destaca Maria como mulher descendente do povo de Deus e sua ação é colaborar no cumprimento das Escrituras. "Eis que a virgem conceberá e dará a luz um filho" (Is 7,14). Ela, mesmo no seu silêncio, tem uma missão especial a favor de Jesus, o Salvador do povo. Maria aparece como aquela mulher que vive plenamente o seguimento a Jesus e é fiel às exigências feitas por Ele: Maria ama a Jesus acima de tudo (Mt 10,37), Ela acompanha o Filho em todos os momentos, mesmo que lhe custe dor e sofrimento (Mt 10,38). Maria é capaz de perder tudo para manter-se unida a Jesus (Mt 10,39). Maria, com sua vida, sua obediência e sua proximidade junto a seu Filho, é a perfeita discípula e modelo de seguimento para todos nós. 

Mateus acrescenta um dado novo. Ele prepara o anúncio da vida pública de Jesus com os “relatos de infância”, que estão centrados na figura de José, o homem justo que sempre age de acordo com o apelo de Deus. Assim, José acolhe a Maria como sua esposa e não tem relações intimas com ela até o nascimento. Adota Jesus como seu filho, mesmo não sendo o pai biológico e protege a ambos dos perigos que surgem. Maria é apresentada como aquela que concebe pela ação do Espírito e está unida ao filho, como mostra a expressão “o menino e sua mãe”, repetida 5 vezes.
•       A mãe virginal do Messias (Mt 1)
•       Com José, cuida do menino Jesus (Mt 2)
    

Interessa-nos o Evangelho da infância em Mt 1-2

Mt 1,1-17 – a genealogia de Jesus. Entre tantos homens, somente quatro mulheres, além de Maria, são citadas por Mateus nessa lista genealógica: Tamar, Raabe, Rute e a mulher de Urias (Betsabé), respectivamente: uma incestuosa, uma prostituta, uma estrangeira (era proibido aos israelitas casarem-se com estrangeiras) e a que foi tomada como esposa pelo rei Davi, que para obter isso encomendou a morte de seu marido, Urias, significando aqui o assassinato e o adultério. O versículo 16, quebra o ritmo...Jacó quebrou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus chamado Cristo” No mistério de Jesus foi enquadrado o mistério de Maria, a Mãe de Jesus.

Mt 1, 18-23 “A origem de Jesus Cristo deu-se do seguinte modo: Maria sua mãe... Este trecho afirma que José era o homem justo. Cita-se Is 7,14, referencia a palavra almah – que significa apenas a jovem mulher, sem especificar se é casada ou não.

5. E agora, José? - Mt 1,18-25

José era da família real, descendente de Davi. Cuidou de Jesus até os doze anos…depois um grande silêncio. O anjo disse “Toma contigo Maria”. “Tu lhe porás o nome de Jesus” - Mt 1,20-21. “Teu pai e eu te procurávamos aflitos” Mt 2,48. Era homem justo em três níveis:
- frente à lei – respeito,
- na relação com as pessoas,
- perante Deus.

É dezenove vezes citada no Novo Testamento, entre elas: «A virgem engravidará e dará à luz um filho... Mas José não teve relações com ela enquanto ela não deu à luz um filho. E ele lhe pôs o nome de Jesus. » (Mateus 1:23-25), "Você ficará grávida e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Jesus... será chamado Filho do Altíssimo." Maria pergunta ao anjo Gabriel: "Como acontecerá isso, se sou virgem (literalmente: se não conheço homem)?" O anjo respondeu: O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com a sua sombra. Assim, aquele que nascer será chamado santo, Filho de Deus (Lucas 1:26-35)

6. Síntese sobre Maria nos Evangelhos

1. O aparecimento do arcanjo Gabriel, e anúncio de que seria ela a mãe do Filho de Deus, o prometido Messias (ou Cristo), (Lucas 1:26-56) a (Lucas 2:1-52); compare com Mateus 1:2).
2. A visitação à sua prima Isabel e o Magnificat (Lc. 1,39-56).
O nascimento do Filho de Deus em Belém, a adoração dos pastores e dos reis magos (Lc. 2,1-20).
3. A sua purificação e a apresentação do Menino Jesus no templo (Lc. 2,22-38).
4. À procura do Menino-Deus no templo debatendo com os doutores da lei (Lc. 2,41-50).
5. Meditando sobre todos estes fatos (Lc. 2,51).
6. Nas bodas de Casamento em Caná, na Galiléia (João 2:1-11).
7. À procura de Cristo enquanto este pregava e o elogio que Lhe faz (Lc. 8,19-21) e (Mc. 3, 33-35).
8. “Stabat Mater” - Ao pé da Cruz quando Jesus aponta a Maria como mãe do discípulo e a este como seu filho (Jo, 19,26-27).
9. Depois da Ascensão de Cristo aos céus, Maria era uma das mulheres que estavam reunidas com os restantes discípulos no derramamento do Espírito Santo no Pentecostes e fundação da Igreja Cristã. (Atos 1:14; Atos 2:1-4).
E não há mais nenhuma referência ao seu nome nos restantes livros do Novo Testamento, salvo em Lucas (11, 27-28): “Felizes as entranhas que te trouxeram e os seios que te amamentaram”.

7. As palavras de Maria

Nos Evangelhos, Maria faz uso da palavra sete vezes, três delas dirigidas ao Anjo da Anunciação, o Magnificat, em resposta a Isabel, duas dirigidas ao seu Filho e uma só e última vez dirigida aos homens (aos servos das bodas de Caná) que a Igreja Católica conserva com todo o valor de um testamento.
1. “Como poderá ser isto, se não conheço varão? (Lc. 1,34),
2. "Eis a escrava do Senhor". (Lc. 1,38),
3. "Faça-se em mim segundo a tua palavra." (Lc. 1,38),
4. "A minha alma engrandece o Senhor." (Lc. 1,46-55),
5. "Filho, porque fizeste isto conosco? eis que teu pai e eu te procurávamos angustiados." (Lc 2,48),
6.  "Não têm mais vinho"... (Jo. 2,3),
7. "Fazei tudo o que Ele vos disser" (Jo. 2,5).

8.  As palavras dirigidas a Maria

Nos Evangelhos oito vezes a palavra é dirigida a Maria:
1. A saudação do anjo: “Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo”. (Lc 1,28).
2. O anúncio da Encarnação: “Eis que conceberás no teu seio e darás à luz um filho a quem porás o nome de Jesus” (Lc. 1,30-33).
3. Por obra e graça do Espírito Santo: “O Espírito Santo descerá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o que nascer será chamado Santo, Filho de Deus” (Lc. 1,35-37).
4. Simeão lhe fala da espada que trespassará o coração: ...” e uma espada trespassará a tua própria alma a fim de que se descubram os pensamentos de muitos corações” (Lc. 2,34).
5. Isabel, ao responder a sua saudação: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!” (Lc 1, 42-45).
6. O Menino-Deus lhe responde no templo: “Por que me buscáveis? Não sabíeis que devo estar na casa de meu Pai?” (Lc. 2,49).
7. Jesus em Caná respondeu-lhe: “Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou” (Jo.2,4).
8. Cristo na cruz: "Mulher, eis aí o teu filho" (19,26-27).
           
As Escrituras fazem-nos compreender que Jesus passou com ela trinta anos, sem contar o período de gravidez e os anos de vida pública (Lc 2,51).  O Apocalipse diz-nos que ela é a verdadeira Arca, que estava no cerne de todo o Antigo Testamento (Ap 11,19). Maria "bendita entre todas as mulheres" (Lc 1,42), "cheia de graça" (Lc 1,28) sobre quem o Espírito Santo repousa (Lc 1,35) deve, ela mesma, declarar que "todas as gerações a chamarão de bem-aventurada" (Lc 1,48).
É importante tentar compreender e aprofundar, com a Igreja (At 8,31), todo o alcance da Palavra de Deus. Jesus disse que se deve julgar a árvore pelos frutos e que a qualidade do fruto constitui uma medida da qualidade da árvore (Mt 7,20; 12,33; Lc 6,43). Ora, não pode haver fruto mais belo que o Próprio Jesus. E como Jesus é o Fruto Bendito (Lc 1,42) do seio dessa extraordinária árvore que é Maria, só olhando para Ele Próprio poderemos ter uma idéia da grandeza e da bondade da Mãe de Deus... Voltemos às Escrituras, pois como Hugues de Saint Victor resumia, retomando Santo Afonso de Ligório: "Tal Cordeiro, tal Mãe, pois a árvore conhece-se pelo fruto".

9. As expressões bíblicas mais bonitas a respeito de Maria - as sete jóias

1. Ave cheia de graça – kecharitomenee (Lc 1,28);
2. A bendita entre as mulheres (Lc 1,42);
3. A mãe do meu Senhor (Lc 1,43);
4. Aquela que acreditou (Lc 1,45);
5. Aquela que todas as gerações proclamarão bem-aventurada (Lc 1,48);
6. Deus faz nela as grandes coisas (Lc 1,49);
7. Ela é a Mulher, nova Eva (Jo 2,4), (19,26) e (Ap 12,1).

Maria na Sagrada Escritura Lucas e João
Perfeita discípula e peregrina: Maria em Lucas

O evangelho da infância em Lucas 1-2 compreende dois quadros de duas cenas:
1.  Os anúncios (Lc 1,5-56)
1. Anúncio do nascimento de João Batista    2. Anúncio do nascimento de Jesus
Lc 1,5-25      Lc 1, 26-38
            3. A visitação – Lc 1,39-56

2. Os nascimentos (Lc 1,75-2,52
4. Nascimento de João Batista 1,57s  6. Nascimento de Jesus 2, 1-2-
5. Manifestação de João Batista 1,58-80      7. Circuncisão e manifestação de Jesus 2,21-40
Conclusão: o minuano crescia...           8. Jesus no templo – 2,41-53
Conclusão: o menino crescia...

As alusões às Escrituras
Malaquias    Lucas
2.6 – Ele converteu a muitos     1,16 – converterá muitos filhos de Israel
3,1 – preparará um caminho diante de mim 1,17 – caminhará à frente do Senhor

Sofonias       Lucas
3,14 Alegra-te, Filha de Sion      1,28 Alegra-te
3,15 O senhor está no meio de ti         1,18 O Senhor está contigo
3,16 Não tenhas medo, Sion      1,30 Não tenhas medo, ó Maria

Êxodo Lucas
40,35 A nuvem cobriu com a sombra o tabernáculo         1,35 O poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra
           

O evangelho que mais se refere a Maria é Lucas. A começar pela quantidade dos relatos nos quais ela aparece ou se diz algo sobre a mãe de Jesus: anunciação, visita a Isabel, cântico do Magnificat, nascimento de Jesus, apresentação no templo, profecia de Simeão, desencontro no templo aos 11 anos, a vida em Nazaré, as palavras de Jesus sobre a família, o diálogo com a mulher na multidão, a presença de Maria na comunidade nascente, preparando a vinda do Espírito Santo. Através de todos estes relatos, Lucas nos apresenta Maria como a figura da/o perfeito discípulo de Jesus, que ouve a Palavra de Deus, guarda-a no coração e dá frutos na perseverança.
Além disso, Maria trilha um caminho na fé. Totalmente entregue aos projetos de Deus, ela não entende tudo o que lhe acontece, e por isso mesmo precisa continuamente meditar o sentido dos acontecimentos. Passa por momentos belos e difíceis, alegres e sofridos. O fato de ter que aprender o “jeito novo” de ver o mundo que Jesus propõe causa-lhe conflitos, que lhe atravessam o coração como uma espada. Como mulher proveniente de Nazaré da Galiléia, Maria vive e anuncia a opção preferencial de Deus pelos pobres, tal como Jesus o vive e anuncia no sermão da planície.

Por fim, Maria é uma pessoa especialmente contemplada pelo Espírito Santo, que a cobre com sua sombra na concepção de Jesus e atua na comunidade dos discípulos em Pentecostes, como línguas de fogo. “Nuvem” e “fogo” são os símbolos da presença de Deus junto de seu povo peregrino, desde a libertação do Egito. Nuvem quer dizer proteção e fecundidade. Já o fogo alude a energia, amor e vitalidade. Este é perfil de Maria em Lucas: perfeita discípula, peregrina na fé, sinal da opção de Deus pelos pobres, mulher contemplada pelo Espírito Santo.

Em Lucas: Maria, a imagem do seguidor de Jesus (discípula)

Em Lucas Maria é uma mulher ativa, comprometida, que se oferece livremente para colaborar no plano da salvação sentindo-se, ela mesma, discípula e serva do Senhor. Mulher disposta a servir e a anunciar a Boa Nova da Salvação. Maria representa o povo de Israel que espera o Libertador. Ela é jovem, virgem, cheia de graça e com uma fé parecida com a fé de Abraão. Sua figura inicia o povo novo de Deus. Maria é a primeira a dar o seu sim para que o projeto de Deus aconteça. Mulher de oração, que cultiva uma sadia vida interior. Ela guarda e medita os acontecimentos no coração (cf. Lc 2,19-52). É terra boa que acolhe a semente e faz produzir frutos. Por isso Maria é também mulher missionária que abre caminho em meio às dificuldades.

O Evangelho de Lucas: Maria= mulher livre, a crente por excelência e a Mãe do Messias. Em Lucas, Maria já é uma personalidade: mulher responsável, autônoma, determinada. Tem um rosto, um perfil, um caráter. Tem, em suma, uma identidade própria. Maria é uma pessoa que caminha como discípula ideal. (Lc 1, 25-38), que está aberta aos riscos da fé, (Lc 1, 38), ajuda aqueles que mais precisam, (Lc 2, 22-24) e está sempre presente na comunidade cristã (At 1, 14).

Maria acolhe a palavra
Anunciação: um sim generoso e inteiro a Deus

Maria guarda a palavra no coração
Lc 2,19: Maria conservava todos estes fatos e meditava sobre eles em seu coração + Lc 2,50

Rezar como Maria rezou

“Magnificat” (Lc 1,46-55) – a oração de Maria. Possui a estrutura de bênção. Este tipo do gênero literário é chamado “beraka”. Ao receber a visita, Isabel chama Maria de “bendita” e bendito é também o fruto do seu ventre. Então Maria exclama: “A minha alma engrandece o Senhor”. O Magnificat é a síntese da experiência de Maria, e ela agradece pelo presente; Deus viu a pequenez, e pela misericórdia de Deus. Antes deste canto temos o cântico de Ana – (1Sm 2,1-10). As idéias próprias do canto de Maria são as seguintes:
- Deus é poderoso,
- O Seu nome é santo,
- Seu amor é para todos,
- Dispersa os orgulhosos e exalta os humildes

O retrato de Maria no Magnificat
1. É a mulher de alegria. Alegra-te... são as primeiras palavras do anjo.
2. Maria é mulher inteligente – O Senhor fez em mim maravilhas…todas as gerações vão proclamá-la ditosa.
3. Mulher humilde, sem orgulho.
4. Maria de coração modelado pelo Espírito.
5. Enraizada na história do seu povo.
6. Mulher de fé profunda
7. Mulher que sabe dizer obrigado.

•       No encontro com Isabel: “Bendito é o fruto do teu ventre” -> fidelidade a Deus é a condição para a fecundidade.
•       Lc 8,21: Minha mãe e meus irmãos são os que ouvem a Palavra de Deus e a realizam.
•       Lc 11,27s: Antes, felizes os que ouvem a Palavra de Deus e a estão guardando (vigiando).

2. Maria em Lucas: síntese
Lucas apresenta o mais belo e diversificado perfil de Maria na Bíblia. Para o evangelista, o discípulo de Jesus é aquele(a) que ouve seu apelo, segue-o e aprende com ele no caminho (Lc 5,10s; 13,22). Ser aprendiz de Jesus significa também fazer parte de sua comunidade, peregrinar na fé e participar da causa de Jesus, que é o Reino de Deus. O seguidor de Jesus é aquele que “ouve a Palavra de Deus num coração generoso, conserva no coração e frutifica na perseverança” (Lc 8,15: explicação da parábola da semente e dos tipos de terra). Ora, a grande novidade de Lucas é apresentar Maria como a imagem viva do discípulo(a) de Jesus.

Podemos resumir as seguintes características de Maria no terceiro evangelista: a seguidora de Jesus, a peregrina na fé, o sinal da opção de Deus pelos pobres e a mulher contemplada pelo Espírito Santo.

(1) Seguidora de Jesus: Maria realiza as três qualidades básicas do discípulo fiel. Ela acolhe a palavra de Deus com fé (relato da anunciação: Lc 1,28-38), conserva a palavra no coração e a medita, confrontando-a com os fatos (Lc 2,19 e Lc 2,51) e frutifica esta palavra viva; sendo uma pessoa de intensa fé (“feliz de você que acreditou”: Lc 1,40) e a mãe do messias (“bendito é o fruto do teu ventre” em Lc 1,42). Somente Lucas relata a cena da mulher na multidão que grita: “Feliz o ventre que te gerou e o seio que te amamentou”, em claro elogio à maternidade biológica. Mas Jesus lhe responde: “Antes, felizes os ouvem a palavra de Deus e a realizam” (Lc 11,27). Antes de ser uma crítica à Maria, este texto revela sua real importância. A maternidade é conseqüência e expressão de sua fé. Neste sentido também, Lucas refaz a expressão final do (des)encontro de Jesus com os familiares, com a expressão: “Minha mãe e meus irmãos são os que ouvem a Palavra de Deus e a realizam” (Lc 8,21). Há portanto uma prioridade da fé, enquanto adesão à Jesus e à sua causa, sobre o simples fato de ser mãe de Jesus.


(2) Peregrina na fé: Somente Lucas relata as palavras de Simeão a Maria: “Quanto a ti, uma espada transpassará tua alma” (Lc 2,25). Não se trata de uma alusão ao sofrimento de Maria na hora da cruz, pois nos evangelhos sinóticos Jesus morre sozinho e Maria não está incluída entre as mulheres que o observam, de longe. A espada tem um sentido metafórico. Alude a Jesus, que é a palavra-gesto do Pai, conforme Hb 4,12s: "A Palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes. Julga as disposições e as intenções do coração. E não há criatura oculta à sua presença". Maria, como os outros aprendizes de Jesus, não sabia tudo. Foi fazendo descobertas no correr de seu caminho espiritual. Neste sentido, o relato da perda no templo confirma que Maria e José não entendem naquele momento as palavras e os gestos de Jesus (Lc 2,41-50). Por isso mesmo, ela precisa refletir e buscar o sentido dos fatos. A interpretação nova que Jesus dá à Lei, ao sábado, ao templo e às tradições questionava seus seguidores, trazia conflitos e lhes provocava mudanças na sua visão religiosa. Era uma espada! Maria passou pelo crivo da espada da Palavra, e cresceu com isso.

(3) Sinal da opção de Deus pelos pobres: Lucas é o evangelista que mais desenvolve a dimensão social da Boa Nova de Jesus. Coerente com esta orientação, Maria é apresentada por ele como uma mulher pobre, da desconhecida terra de Nazaré da Galiléia. Jesus nasce num lugar sem recursos e é envolvido em faixas (Lc 2,12). Como são pobres, os pais de Jesus oferecem pássaros no templo, em vez do cordeiro (Lc 2,24). O cântico de Maria, chamado “Magnificat” resume, de forma poética, a proposta de Jesus nas Bem-Aventuranças (Lc 2,46-55 em comparação com Lc 6,20s). Sinaliza, com clareza, que a Boa Nova de Jesus propõe uma mudança nas atitudes das pessoas e nas estruturas sociais. Deus se volta sobretudo para os mais pobres, pois são os que mais necessitam. Sua misericórdia permanece para sempre.

(4) Mulher contemplada pelo Espírito Santo: Em Lucas, Jesus começa a missão recordando a profecia de Isaías: “O Espírito de Deus está sobre mim” (Lc 4,14). É o Espírito que age em Jesus e nos seus seguidores, após pentecostes. Maria é apresentada então como a mulher sobre a qual “a sombra do altíssimo” se estende, para possibilitar a concepção de Jesus. Ela também participa da comunidade que prepara a vinda do Espírito (At 1,14). Portanto, Maria é “contemplada” duplamente pelo Espírito Santo: no nascimento de Jesus e no nascimento da comunidade cristã, após a ressurreição de Jesus.

A partir de Lucas, descobrimos traços originais da figura de Maria. O “sim”, pronunciado com inteireza no início da juventude, se renova no correr da vida. Ela passa por crises e situações desafiadoras, que a fazem crescer e caminhar sempre mais na adesão ao Senhor. Maria nos recorda que Deus escolhe preferencialmente os simples e humildes para iniciar o Reino de Deus, esta recriação da humanidade e dos cosmos. A partir do Magnificat, ouve-se o apelo por novas relações interpessoais, econômicas, políticas, culturais e ecológicas. Maria simboliza o ser humano em construção, aberto a Deus, tocado pelo Espírito Santo, cultivando um coração solidário.

Essas características marianas inspiram atitudes de vida de cada cristão e da Igreja-comunidade. Sentimo-nos chamados a sermos discípulos fiéis de Jesus, ouvindo, acolhendo, guardando no coração e praticando sua Palavra. Renovamos o nosso “sim”, mesmo no meio das crises, pois sabemos que somos “bem-amados de Deus” (Ef 1,6). Alimentamos, como Maria, um coração agradecido a Deus, que O louva por todo o bem que Ele realiza em nosso meio e através de nós. E nos empenhamos pela solidariedade e pela cidadania planetária, construindo uma sociedade mais próxima do projeto de Deus.

3. O Evangelho de João

Maria, mediadora da fé (Caná), mãe da comunidade (sob a cruz) e figura da Igreja e da nova criação. Para João, Maria é mais que mera personalidade (pessoa): é personalidade corporativa. Seu significado supera a pessoa individual. Ela possui uma imensa ressonância simbólica, ela representa a comunidade eclesial, a Humanidade salva. João tem uma alta mariologia, uma mariologia simbólica. A Maria de João transcende infinitamente a Maria de Nazaré. Assim, existe um processo de carecimento do entendimento sobre a figura de Maria e do Mistério da virgem nos evangelhos. Carecimento este que é continuo e que está evoluindo ainda hoje.

No Novo Testamento, todos os evangelistas, de acordo com a realidade da sua comunidade de fé, apresentam um retrato de Maria. Mas, todos eles nos apresentam Maria como Discípula e Mensageira do Evangelho. Vamos voltar nossa atenção para Maria que é nossa mestra e modelo de discipulado, para que sejamos bons discípulos e mensageiros da Boa Nova de Jesus.

João destaca a presença de Maria no início e no final do Evangelho. Ela é sempre chamada de "Mãe de Jesus" e tratada como "mulher". Nas Bodas de Caná, Maria é mulher atenta as necessidades. Ela percebe a falta de vinho e toma providencia. É mulher de iniciativa. Com esta atitude, Maria mostra que a Igreja precisa de pessoas com iniciativa, capazes de perceber as necessidades do povo e dispostos a fazer tudo o que Jesus mandar. No final do Evangelho, Maria aparece junto a cruz de Jesus. É mulher forte que fica de pé diante da cruz. Aí, Maria é encomendada aos cuidados do discípulo e o discípulo encomendado aos cuidados da mulher. Maria recebe a missão de ser a mãe da comunidade de Jesus, mãe de todos aqueles e aquelas que acolhem e vivem a Palavra de Deus. Maria é a Mãe de Jesus e a Mãe da Igreja. 

O papel que Maria ocupa na Bíblia é discreto. Os dados estritamente biográficos derivados dos Evangelhos dizem-nos que era uma jovem donzela virgem (em grego παρθένος), quando concebeu Jesus, o Filho de Deus. Era uma mulher verdadeiramente devota e corajosa. O Evangelho de João menciona que antes de Jesus morrer, Maria foi confiada aos cuidados do apóstolo João e a Igreja Católica viu aí que nele estava representada toda a humanidade, filha da Nova Eva.

4. Jo 2,1-11 – As bodas de Caná. A mãe da comunidade, no quarto evangelho

Em João Maria aparece duas vezes, porém seu nome não é citado, ela é chamada apenas de ‘mãe “e depois de “mulher”.
É o episódio cristológico, e Maria aparece exercendo um papel de Mãe e Medianeira.
Jo 2,3 – eles não têm mais vinho... o teor de pergunta e de pedido
Jo 2, 4 – que queres de mim mulher?
Jo 2,5 fazei tudo... aqui tem uma correlação com faraó – Gn 41,55 – Jesus pode ser visto como um novo José, que dá pão e vinho.
e a resposta é messiânica...06 talhas de 80 litros = 480 litros

Bodas de Caná: a ação simbólica de Maria

Continuemos a percorrer o texto da cena da Caná. Vejamos os símbolos no relato de Jo 2,5-11. Assim, pode-se compreender o sentido profundo da ação de Jesus e da intervenção de Maria.

A ação e a palavra de Maria (v.5): É comum no quarto evangelho que haja momentos de impasse e “mal entendido” entre Jesus e seus interlocutores. Enquanto eles estão num nível de compreensão superficial, de “baixo”, Jesus fala das realidades “do alto”, mais profundas e além das aparências. É preciso dar um salto de fé, para passar de um nível ao outro. Às vezes, há discussões longas, com vários mal entendidos Assim acontece, por exemplo, nos diálogos com Nicodemos e com a Samaritana (Jo 3,1-12 e Jo 4,6-27), ou na conversa com a multidão, sobre o pão da vida (Jo 6,26-58). Jesus fala em nascer de novo e Nicodemos entende de forma literal, como se alguém tivesse que voltar ao útero materno. Jesus anuncia a água viva à Samaritana, e ela pensa na água do poço. Jesus fala do pão como “minha carne” e eles se escandalizam.

Ao contrário dos outros interlocutores, Maria rapidamente salta para o nível de fé, sem discutir com Jesus. Entende o que ele quer. Compreende que não se trata somente de resolver um problema de falta de vinho, de atender a uma necessidade concreta. Mas sim, o que este fato vai ajudar as pessoas a conhecerem melhor quem é Jesus e se posicionarem diante dele.
Maria se volta para os serventes: “Façam tudo o que ele lhes disser” (Jo 2,5). Essas palavras têm uma grande força simbólica. Você se recorda da frase de Maria ao final da anunciação, em Lucas: “Eis aqui a servidora do Senhor. Eu desejo que se faça em mim conforme sua palavra” (Lc 1,36). Segundo João, Maria não só realiza a vontade de Deus na sua vida, mas também orienta os outros a fazerem o que Deus lhes pede. Há um deslocamento do foco e uma ampliação de sentido. Da perfeita discípula e seguidora de Jesus, em Lucas, para a pedagoga e guia dos cristãos, em João.
Da água para o vinho (v. 6-10): Jesus faz o primeiro sinal de forma discreta. Nem sequer dá uma benção ou evoca o nome de Deus. Tudo na simplicidade. O bom vinho alegra as pessoas e faz a festa ficar melhor ainda. Mas por que João coloca como primeiro sinal de Jesus a transformação da água em vinho, numa festa de casamento? Porque não uma cura ou expulsão de demônios? O primeiro sinal de Jesus pretende começar a revelar quem ele é para nós. A partir do sinal, entendemos que Jesus é o vinho novo para e existência humana. Ele é capaz de transformar as situações desafiadoras em festa e alegria compartilhadas.

Nas Escrituras Judaicas, o vinho simboliza a felicidade e a abundância que acontecerá para todos, quando o Messias chegar (Ver Os 2,23s e 14,8; Am 9,13s; Is 25,6 e 62,5; Jr 31,12; Zc 9,17). No livro do Cântico dos Cânticos, o vinho lembra o desejo entre o homem e a mulher, o amor que os fascina e os une, uma imagem do grande amor de Deus pelo seu povo (Ct 1,2-4; 2,4; 4,10). Com o sinal do vinho, Jesus está dizendo que ele é o vinho novo, que o dia do Messias está chegando. Começou o tempo da graça, superando as situações de miséria e tristeza.

Cada detalhe do relato tem um sentido simbólico. As seis vasilhas de pedra, destinadas à purificação dos judeus, aludem ao número da imperfeição, da finitude humana (o seis), à frieza e dureza da lei judaica, que será superada com Jesus. O chefe da festa não sabe da origem do vinho, como os chefes judaicos não conhecem que Jesus vem do Pai. Somente os que servem sabem! As talhas são enchidas até a borda, e têm muito vinho, quase 700 litros. Isso significa que Deus nos oferece seus bens em abundância. Quem está com Jesus tem vida sobrando. Jesus é o bom vinho, guardado até o momento do início da manifestação dos sinais. Com ele, começa o tempo novo, que os evangelhos sinóticos chamam de “Reino de Deus”.

O sinal de Caná e a fé (v.11): Qual é o resultado da ação de Jesus, devido à intervenção de Maria? João nos diz que Jesus “manifestou sua glória e seus discípulos creram nele”. Jesus começa a mostrar quem ele é: não somente o carpinteiro de Nazaré, mas uma pessoa que comunica vida e alegria, como Filho de Deus. A glória para Jesus não é o poder e a fama mundanos, mas a capacidade de realizar o bem e tornar Deus conhecido e amado.

Os sinais de Jesus são uma ocasião para os discípulos exercitarem sua fé. Quem crê, vê além do sinal. O sinal não força ninguém a acreditar, só abre a porta do coração para a fé (Jo 2,11.23; 3,3, 4,54). Jesus mesmo não gosta das pessoas que só acreditam quando vêem sinais. Ele até desconfia desse tipo de fé que necessita sempre de sinais (Jo 2,23s). Jesus não gosta das pessoas que buscam milagres só para resolverem seus problemas pessoais (Jo 6,26). À medida que avança a missão de Jesus, os sinais também se mostram polêmicos. O último sinal de Jesus, que é trazer Lázaro de volta a essa vida, causa divisão entre os judeus. Uns acreditam nele, outros não (Jo 12,37), e alguns se posicionam de forma violenta, organizando-se para matá-lo (Jo 11,45-54). Portanto, os sinais são uma oportunidade para a fé, não uma prova miraculosa. Eles interpelam as pessoas. E o primeiro sinal, o de Caná, abre caminho para os discípulos entrarem na aventura da fé.

O sinal que unifica (v.12): Depois que Jesus faz seu sinal, os discípulos crêem nele e saem juntos, com “sua mãe e seus irmãos”. O sinal de Caná une o grupo dos seguidores de Jesus em torno a ele. A partir do gesto de Caná começa a se formar o gérmen da comunidade cristã, com os discípulos, os familiares e a mãe de Jesus.

Em Caná: aquela que aponta para Jesus
•       Jo 2,1-11: Maria leva os servidores-amigos de Jesus a “fazer tudo o que ele disser” para que creiam nele e se reúnam em torno a Ele.

Fonte: A.Murad, Maria Toda de Deus e tão humana. Paulinas.

5. Jo 19, 25-27 Maria ao pé da cruz
Nesta cena Maria aprece em companhia de João e de duas mulheres, entre elas Madalena. O apelativo “mulher” chama a atenção, e há de ser compreendido em consonância com Gn 3,15 e Jo 2,4. Maria é a mãe dos vivos, nova Eva. Ela não estava junto da cruz de Jesus, perto dele só no sentido geográfico, mas também espiritual. Se em Caná a hora de Jesus não tinha chegado, no Calvário foi a hora de Jesus

As duas cenas; das bodas e da cruz, possuem correlação: em ambas aparece o termo “hora”, “Mãe de Jesus” e “mulher”. Cada uma das mulheres representa a comunidade de uma aliança: a mãe. A da antiga aliança, o resto de Israel, a esposa fiel; Madalena, a comunidade da nova aliança. O papel da mãe, a antiga comunidade, termina na cruz; o de Madalena começa nela...

Na cruz (Jo 19)
•       Maria persevera na fé, quando não há mais sinais.
•       Maria é adotada como Mãe da comunidade. Começa nova etapa de sua missão.

Maria junto à cruz de Jesus
 A mãe de Jesus, que aparece no início de sua missão, em Caná (Jo 2,1-11), levando seus discípulos a acreditarem nele, volta de novo à cena. Dessa vez, não há nenhum sinal extraordinário. Ao contrário, o momento da cruz desafia a fé. Maria faz parte do pequeno grupo que perseverou, que não fugiu no momento da perseguição e da crucifixão de Jesus. É a corajosa seguidora de Jesus, que permanece no seu amor. Manter-se de pé significa persistência, constância e adesão. Junto com ela estão algumas mulheres-discípulas: a irmã de Maria, Maria de Clopas (ou Cléofas) e Madalena. E somente um homem, o “discípulo amado”, que a tradição cristã identificou com o jovem apóstolo e evangelista João. Ele representa a comunidade cristã, o grupo dos que seguem os passos de Jesus, tornando-se mais do que seus servidores. São seus amigos (Jo 15,15).

Uma característica importante do seguidor de Jesus é a perseverança, ou seja, o compromisso de vida que se prolonga no tempo, vencendo as crises. Quando Jesus pede para: “permanecer em mim e eu nele” (Jo 6,56; 15,4) ou “permanecer no meu amor” (Jo 15,9) expressa uma sintonia profunda, uma comunhão de mente e de coração. Este é o sentido da imagem da videira e dos ramos (15,1-11). Como também: “Se vocês permanecerem na minha palavra, serão verdadeiramente meus discípulos. Vocês conhecerão a verdade, e a verdade fará de vocês pessoas livres” (cf. Jo 8,31s). Jesus promete: “Se vocês permanecerem em mim e as minhas palavras permanecerem em vocês, peçam o que quiserem, e o Pai lhes concederá” (Jo 15,7). Na primeira epístola de João também se diz desta atitude de vida: “Quem pretende permanecer nele, deve também andar no caminho que Jesus andou” (1 Jo 2,6).

Manter-se junto à cruz expressa a atitude de estar em sintonia com Jesus, exercitando a fé no momento de crise da morte e de sua passagem para o Pai. Maria, as mulheres e o discípulo amado são os que perseveram neste momento crucial. Permanecem com Jesus e em Jesus. É certo que este momento significou um grande sofrimento para Maria. Mas, parece que perseverar assume mais importância do que sofrer.

Qual é o sentido do encontro de Maria com o discípulo amado, ao pé da cruz? Não é resolver um problema de família, ou seja, quem iria tomar conta da mãe de Jesus depois da morte dele. Nesse momento tão importante da cruz, João quer nos dizer algo mais. Ele deixa impresso na memória de todos os cristãos que Maria não é somente a mãe, que concebeu, gestou, deu à luz, nutriu e educou Jesus. Novamente, ela é chamada de “mulher”, como em Caná (Jo 2,4 e 19,25). Seu lugar está além dos laços de sangue e das relações familiares. Por vontade de Jesus, Maria é adotada como mãe pela comunidade cristã de todos os tempos. O discípulo amado, que representa a comunidade, recebe-a como mãe. E Maria é investida nessa nova missão. Acolhe os membros da comunidade cristã como seus filhos.

A morte-ressurreição é o momento no qual se constitui a comunidade-Igreja. Jesus irá “reunir todos os filhos de Deus dispersos” (Jo 11,51s). Este é o sentido simbólico da cena que antecede o encontro na cruz. Os soldados tomam as roupas de Jesus e as repartem em quatro partes (os quatro cantos da terra). Mas a túnica permanece inteira (Jo 19,23s). A Igreja, nova comunidade messiânica, será edificada em sua unidade a partir da cruz do Senhor.

O discípulo amado representa a comunidade cristã, agraciada e escolhida por Jesus, para a qual ele dedica seu afeto e atenção. Esta comunidade recebe Maria como sua mãe. O evangelista diz “a partir daquela hora, o discípulo a acolheu em sua familiaridade” (Jo 19,27). Isto é, naquilo que lhe é próprio, que o constitui como pessoa. Ele não usa a palavra grega “oikos” (casa), mas sim “ídia/ídios” (o que é característico de alguém).

Em que consiste a missão de Maria, como mãe da comunidade? Provavelmente, a mesma de Caná. A nossa mãe Maria poderá intervir junto ao Filho, pelos seus filhos. Levará os servidores e amigos de Jesus a fazer o que ele disser. Possibilitará que novas gerações de cristãos, como os primeiros discípulos, creiam em Jesus, vejam sua glória, e se reúnam em torno dele. A cena de Maria junto à cruz reúne, portanto, dois elementos fundamentais. A mãe de Jesus é a mulher perseverante na fé até o último momento, junto com outros membros da comunidade dos seguidores e amigos de Jesus. E, por vontade do próprio Jesus, é adotada como mãe do discípulo amado, imagem e símbolo da Igreja.

5. O teor de Apocalipse 12, 1-17

A mulher que aparece aqui, no último livro da Bíblia, é aquela de que se fala na primeira página da Bíblia, em conflito com a serpente (Gn 3,15). É Eva, a primeira mulher. É também a humanidade toda enquanto gera filhos que lutam contra as forças da morte e da maldição. É o povo de Deus, chamado a defender a vida humana, transmitir a benção de Deus a todos os homens e mulheres (cf. Gn 12,1-3) e consertar o mundo estragado pela maldição. A mulher (também) é Nossa Senhora, em que se afunilou toda esta luta contra a maldição e a morte. É Maria, a moça humilde e pobre de Nazaré, enquanto gera o menino Jesus, esperança de libertação para todos.

Esta mulher, gritando em dores de parto, representa a esperança de vida que existe no coração de todos, sobretudo dos pobres. Esperança, ao mesmo tempo, frágil e forte. É frágil como a mulher na hora de dar à luz: não tem defesa, nem pode lutar, pois está totalmente entregue a doar a vida nova a um novo ser humano. Mas, por isso mesmo, ela é forte, o ser mais forte do mundo! Sem as mulheres frágeis com coragem de dar à luz, a vida já teria cessado sobre a face da terra e nós não teríamos nascido.


Aquela luta, anunciada por Deus, desde a primeira página da Bíblia, atinge agora o seu ponto decisivo em Maria que dá à luz ao menino Jesus. Maria representa todas as mães que geram filhos e que garantem, assim, o futuro da humanidade. (Representa também) as mães que lutam para transmitir aos filhos a sua esperança, a sua vontade imensa de ser gente. Simboliza todas as pessoas que acreditam no bem e na vida, que lutam para que a vida possa vencer a maldição que entrou no mundo pela serpente. Ela representa sobretudo o “povo humilde e pobre que busca a sua esperança unicamente em Deus” (Sf 3,12).

Dois grandes sinais aparecem no céu: Uma mulher e um dragão.  Uma batalha – o menino é arrebatado. O dragão é destronado. Mulher é abrigada no deserto por 1260 dias = 3 anos e meio. Aqui há referência ao nascimento do Messias, que é perseguido por Satanás. A figura feminina não pode ser identificada com alguma personagem individual. Essa mulher bela é a Filha de Sion, o povo messiânico. A mulher do Apocalipse assume sucessivos aspectos no decorrer da história: Filha de Sion, Maria Santíssima e Santa Mãe Igreja. A mulher de Ap 12 é mulher como tal, em sua função da maternidade, já designada pelo nome de Eva, Em Gn 3,15, o Senhor quis colocar a mulher, e não o homem, como protagonista da obra da Redenção.

A ausência do nome de Maria nos escritos joaneus. Marcos usa o nome de Maria 01 vez; Mateus 05 vezes; Lucas 13 vezes no evangelho e 01 vez nos Atos. João nunca. Isso não é ocasional, mas proposital. João fala de José (Jo 6,42), ele atribui o nome Maria a várias mulheres: Maria de Cléofas, Maria Madalena, Maria de Betânia, Maria, irmã de Lázaro. ...dentro de todos os discípulos que devia conhecer a Mãe de Jesus, era João, porque João não usa o nome de Maria, Mãe de Jesus?

Podemos considerar duas respostas: 1. João omitiu o nome de Maria, porque lhe parecia um nome muito comum, sendo o nome comum não preencheria a função em relação a Mãe de Jesus.  2. O quarto Evangelho fala muito do Pai de Jesus; (10,30;14,9). A expressão “Mãe de Jesus “pode ser entendida como um paralelo a “meu Pai = o Pai de Jesus”.


João completa o perfil de Lucas acrescentando duas outras características. Ao apresentar Maria no início da missão de Jesus (bodas de Caná) e no momento derradeiro (junto à cruz), expressa que é uma pessoa significativa para Jesus e sua comunidade. Nos dois relatos, Jesus não a chama de “mãe”, e sim de “mulher”, como o faz com outras mulheres importantes, como a Samaritana e Madalena. Em Caná, Maria é apresentada como a “pedagoga da fé”, que orienta os servidores para “fazer tudo o que Jesus disser”. Ajuda a reunir os discípulos em torno a Jesus. Possibilita a realização do primeiro sinal, que inicia o processo de acreditar em Jesus e compreender quem ele é. Já na cruz, Maria aparece junto com as mulheres e o discípulo amado, perseverante na fé, no momento em que cessam os sinais. Por vontade de Jesus, há uma adoção recíproca. Ela assume a missão de mãe da comunidade cristã, representada pelo “discípulo amado”, e a comunidade a acolhe como tal.

O texto de Apocalipse 12 não é originalmente mariano. A mulher, revestida de sol, com as estrelas debaixo dos pés e as doze estrelas significa, em primeiro lugar, a comunidade-igreja, que já experimenta neste mundo os frutos da glorificação de Jesus. De outro lado, também sofre os ataques das forças do mal na história, é frágil, vive no deserto (lugar de tentação e de encontro com Deus) e sente a solidariedade da Terra. Como aconteceu com textos do Antigo Testamento, houve posteriormente uma releitura de Ap 12, dando-lhe uma conotação mariana. Ela se apóia no fato de Maria ser mulher e mãe do messias. Nas comunidades cristãs do século 4 nasce assim a intuição de que ela participa, de forma singular, da glorificação que será concedida a todos os seguidores de Jesus.

O perfil bíblico de Maria é fundamental para elaborar uma mariologia consistente, equilibrada e centrada em Jesus. A partir dele, corrige-se os exageros do devocionismo e do maximalismo mariano. Estabelece-se assim elementos para o diálogo enriquecer com outras Igrejas cristãs

6. A atitude de Jesus para com Maria

Jesus parece ser descortês para com a Mãe.
1. Lc 2,49 – Jesus no Templo aos 12 anos
2. Jo2, 1-1, e 19,26 – Mulher... o que há entre nós? Ou por que tal pedido? Tu e eu, que poderemos fazer nessa situação? Não chegou a minha hora, mas realizou o milagre.
3. Mt 12, 46-49; Mc 3,31-35; Lc 8,19 – “Quem é minha Mãe...
Quando Jesus responde.... Eis a mina Mãe e meus irmãos, ele não é indelicado, mas quer indicar que acima do parentesco carnal está o parentesco espiritual que se baseia na fidelidade à Palavra e à Vontade de Deus
4. Lc 11, 27s – Bem-aventurados...Bem-aventurados os que ouvem...tal exaltação aplica-se perfeitamente a Maria.
5. Gl 4,4 e 1Tm 2,15 – A mulher por excelência

Fonte: http://mariologiapopular.blogspot.com.co/2015/03/mariologia-biblica.html



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