quinta-feira, 2 de junho de 2016

A Contemplação Inaciana


 
A CONTEMPLAÇÃO INACIANA

 

“... Como se eu estivesse presente, com todo o acatamento e reverência possível”

(EE.114)

 

A contemplação nos EE é uma forma de oração através da qual deixamos que o mistério da Vida de Cristo nos penetre e nos vá permeando como por osmose (por conaturalidade afetiva) e ao mesmo tempo vamos “conhecendo intimamente” esse mistério insondável da pessoa de Jesus.

 

“Contemplar” não é especular sobre um texto evangélico, nem tirar conclusões, nem sequer examinar minha vida a partir da atuação de Jesus. Trata-se de fazer-me presente à cena evangélica, esquecer-me de mim mesmo e estabelecer uma relação de presença, de intimidade... que faça possível que a Pessoa de Jesus vá se adentrando em mim.

 

Na contemplação o ponto de partida não é uma recordação, senão a tomada de consciência de meu estar presente diante de “Alguém”. Estabelece-se uma relação interpessoal que suscita a atração, a sedução... A contemplação é uma ajuda concreta para centrar o afeto e liberar o desejo numa só direção. É um apoio para que a pessoa “inteira” se deixe “afectar” pela cena e permita que Deus lhe interpele desde o “acontecimento salvífico”. Estão Deus tem a iniciativa e a pessoa cala.

 

Contemplam-se os “mistérios de Cristo” e isso contagia e configura interiormente a pessoa, que logo atuará a partir desse mistério de Amor. A Revelação são fatos e ditos: é necessário olhar e observar as pessoa da cena. Não se trata de algo estático, mas em movimento, dramático, presente...

 

Não se trata de reproduzir arqueologicamente uma cena; é necessário carregá-la de sentido: é encontro com Alguém... Aquele que contempla também não é uma pessoa abstrata. Sou EU, carregado com minha vida, minha história, meu temperamento, meus sonhos, minhas capacidades... A contemplação põe juntas a pessoa (e sua história) e o mistério, para que haja interação e assimilação. Lentamente vai transformando a pessoa sem que ela perceba. “Nós nos tornamos aquilo que contemplamos”:

 

• A contemplação não deve ser forçada, mas “deixar-se levar”, interpelar...

 

• A contemplação ajuda evangelizar os nossos sentidos, reações, sentimentos. Trata-se de cristificar o nosso olhar, escutar, falar, agir...

 

• A contemplação abre-nos o caminho para penetrarmos profundamente na vida, obra, missão, opção de Cristo.

 

• A contemplação de Cristo não é uma simples “maneira de orar”, significa consentir ser introduzido no “mistério” que é Jesus Cristo; significa deixar-se impregnar pelo modo de ser de Cristo: suas palavras, gestos, atitudes... é confrontar-se com Alguém que interpela, chama.

 

Para “conformar-se”. à imagem do Filho é necessário que se “entre na contemplação não como turista, mas como amante. Não com o coração dividido, mas como pessoa que fez uma escolha de vida pelo Senhor.

 

Em si mesma a contemplação é viva, criadora e dinâmica. Continuamente renova nossas opções e atitudes profundas. Não se trata de uma atividade nossa sobre a cena, mas da atividade da cena sobre nós. Ela vai nos modelando. Através da cena contemplada o Pai nos conforma ao Filho, esculpe em nós com o dedo do Espírito Santo aquela imagem única de filhos no Filho que somos chamados a ser.

 

Progressivamente, a contemplação vai criando um sexto sentido: o sensus Christi, ou seja, a assimilação progressiva do modo de ser de Cristo. A “contemplação inaciana” termina na união com Deus na ação. Contempla-se um Cristo dinâmico, que realiza o Projeto do Pai e nos convida a trabalhar com Ele. A “contemplação inaciana” desemboca na prática; ela não é neutra, mas compromete.

 

Como o verdadeiro contemplativo deve “participar da cena evangélica” assim também aquele que participa da realidade e nela se encontra inserido deve experimentar um verdadeiro encontro com Deus. Quem faz a experiência da contemplação na oração, deverá ser também um contemplativo na ação, isto é, no engajamento e no serviço. Tal como fazemos na oração, devemos fazer na ação: dar os passos próprios de toda a contemplação, isto é:

 

- “olhar as pessoas...” e nelas descobrir a pessoa do Senhor;

- “escutar o que dizem...” entre todas as vozes que escutamos, perceber e discernir qual é a do Senhor e o que Ele tem a me dizer hoje.

- “observar o que fazem...”: participar, fazer-me presente... optando, colaborando de modo evangélico numa tarefa... querendo construir a história dos homens com os valores do Evangelho.

 

CONTEMPLAR UMA CENA BÍBLICA

 

“O olho vê, a lembrança revê, a imaginação transvê. É preciso transver o mundo”

(Manuel de Barros)

 

Ordinariamente, contemplar é ficar parado, sem dizer nada, olhando, escutando e deixando-se afetar (por uma obra de arte, uma paisagem, o rumor da água, o movimento do mar, etc.). Saborear, admirar, deixar-se comover  pelo que produz em nós a visão ou a escuta das coisas.

Toda espiritualidade dedica-se a cultivar aguçada sensibilidade para captar “sinais” de Deus em toda a realidade, deixando-se tocar e inspirar por eles. Receber e assimilar esse toque divino, através de uma atitude contemplativa, é o ponto central da própria vivência cristã. Na perspectiva da espiritualidade cristã, contemplar implica colocar as funções dos sentidos a serviço da fé (registrando o mistério oculto e revelado na realidade visível: Deus e seu Amor, em seu desígnio de libertação).

  “CON-TEMPLATIO” deriva de “templum” (lugar onde se amplia o campo de visão – com Templo);  CONTEMPLAR é “abrir o campo de visão de uma pessoa”.

Aqui trataremos de contemplar o próprio Cristo, sua vida, suas palavras. Contemplar é mais que uma maneira de orar, é uma maneira de estar com Cristo.

 

Um modo de fazê-lo

                                     

Este modo de orar se adapta bem às cenas bíblicas nas quais há  personagens que podemos olhar e escutar. Os preâmbulos habituais tem aqui um maior sentido:

 

* Recordar brevemente a história. Esta passagem da história evangélica não é uma imagem piedosa, mas o eco de uma realidade vivida e relida: o Senhor na história dos homens.

* Fixar a atenção no lugar geográfico ou simbólico (montanha, mar...) ou  no clima humano (a Ceia, a festa da Páscoa...) onde acontece o episódio.

* A graça que pedimos pode ser formulada no sentido do “conhecimento interno do Senhor para que mais o ame e o siga”.

        

Mais tarde: “VER as pessoas, ESCUTAR ou considerar o que falam, considerar ou OBSERVAR o que fazem, ... e em cada etapa REFLETIR para tirar proveito. Consiste numa tríplice aproximação à cena para saboreá-la mais profundamente, e assim, conhecer melhor o Senhor.

 

1. As PESSOAS da cena

                                            

Tentar ver quem são (elas tem um nome, uma história, um temperamento, um sofrimento ou uma súplica, uma intenção... homens e mulheres como nós hoje). Contemplá-los, não como uma coleção de estampas piedosas, ou uma história mais ou menos imaginária, mas como uma aventura de homens e mulheres.

    

Tentar compreender, sentir e conhecer internamente, como S. João que dirá:

            “O que nossos olhos viram, nossas mãos apalparam sobre o Verbo da Vida, isso vos anunciamos”. Impregnar-se da cena para saborear um pouco seu mistério. Deixar que se espelhe em mim. Ousar participar na cena: entrar na barca, no presépio, na pele do paralítico, para ver melhor o que sentiram diante de Jesus, o que tem dentro, para escutar melhor...

 

2. As PALAVRAS (e os silêncios)

                                                          

Procurar escutar as Palavras como se eu estivesse presente, ou fossem dirigidas a mim pessoalmente, ou fosse eu mesmo quem as pronunciasse. Sentir o tom, a intenção. Ponderar seu alcance: ditas por tal pessoa, o que revelam d’Ele (“dá-me de beber!... “Hoje devo hospedar-me na tua casa!... “Sei muito bem quem és...”, “Jamais me lavarás os pés!”).

 

3. O que FAZEM

                               

Os gestos, as atitudes, ações, reações (verbos). Estas são ações de Deus, ou da pessoa (portanto, minhas) para com Deus. Posso constatar seu sentido, ou alguma coisa minha, meu desejo, minha resistência, ou descobrir em tudo isso o rosto de Deus. Toco-o com a mão, em vez de “fazer disso uma teoria”. Talvez faça meus estes gestos: “Estende tua mão seca...” e descobrir-me-ei seco, com um grande desejo de cura, paralisado ou dando saltos ao redor de “Jesus esgotado do caminho, sentado à beira do poço de Siquém”;  com Maria que se inclina: “Eis aqui a serva do Senhor”.

 

4. Refletir em mim mesmo e TIRAR PROVEITO

                                                                                           

Quando alguma coisa me impacta, parar, permanecer aí, curtindo, saboreando; deixar que ressoe, que ecoe em mim. Refletir para tirar proveito espiritual: depois de cada ponto, ou no final, tomar consciência do que a visão das pessoas, a escuta das pessoas ou a atenção aos seus gestos produziram em mim:

 

Refletir como alguém diante de um espelho: algo do Mistério fica gravado em mim, deixa uma impressão, um gosto, um sentimento espiritual por meio dos quais compreendo ou conheço algo de Deus, de sua maneira de atuar, ou do ser humano ou de mim mesmo, diante d’Ele.

 

É possível que este “eco”, este “reflexo” tenha lugar sem palavras, no momento, e que só no diálogo final com o Senhor, ou no exame venha formulá-lo com palavras. No final, entretenho-me com o Senhor ou com algumas das pessoas (colóquio). É possível que ao re-tomar, ao repetir uma passagem do texto, sinta paz ao viver a cena de perto, até o ponto de contemplá-la não só com a vista e ouvido, mas também com o tato, o olfato e o gosto. Todos os meus sentidos oram, prova de que minha oração se simplificou, se unificou, que meu CORPO e meu SER deixam que a Palavra de Deus lhes fale.

 

Um modo de SER (e de ESTAR) com Cristo

 

Contemplar Cristo é mais do que um modo de proceder, é uma maneira de “ser com” Cristo e de fazer-se presente  ao seu mistério. Um dia Deus tomou corpo par tocar-me e seu Espírito, hoje, faz com eu me torne um contemporâneo desta história e da sua Graça.

     

A contemplação evangélica se caracteriza pelos seguintes pontos:

 

* Uma capacidade para contemplar o outro, libertando-me de mim mesmo.

* Um passar do exterior ao interior do mistério, e da cabeça a um “conhecimento interno”.

* Uma contemplação na fé da Igreja. “Vejo porque creio”,  não o contrário; e no discernimento eclesial é onde recebo corretamente este mistério e sua luz sobre minha vida ou seus chamados.

* Deus está vivo hoje. Assim como disse a Moisés “Eu sou o Deus de Abraão, de Isaac, de Jacó”, assim também diz hoje: “Eu sou o Deus de Moisés, de Zaqueu, de João Batista, da pecadora, que tu contemplas...; está  acontecendo contigo o que aconteceu com eles; estou passando na tua vida como passei na vida deles”.

  

Ele é a ponte entre os personagens bíblicos e eu.

Ele me insere na interminável linhagem desta História Sagrada.

* É obra do Espírito Santo. O Espírito que agiu no mistério contemplado, está agora em mim e faz com que eu compreenda este mistério.

* O Verbo feito carne, palavra única e definitiva de Deus, único caminho de união com Ele, toma carne na minha vida hoje, no seu corpo que é a Igreja, e no meu corpo que o contempla.

  

A Palavra me fala “a mim”  e “de mim”.

 

* Contemplar a Cristo me configura desde o interior, à Sua imagem. Pouco a pouco, fazendo meus os seus sentimentos, a sua maneira de ser, viverei, não os mesmos acontecimentos, mas sim no mesmo espírito.

         

“Tornamo-nos aquilo que contemplamos”, diz um provérbio. Contemplemos, pois, a Cristo!

 

Alguns conselhos:

 

- Não pensar que a contemplação evangélica está reservada aos “profissionais” da oração. Não confundir a contemplação evangélica,aqui apresentada, com uma oração unitiva, mística, embora  possa ser um caminho para  chegar a estas.

- Não classificar as diversas formas de oração segundo uma hierarquia de valores: meditar ou orar ao compasso da respiração são  também importantes.

- Não ter ansiedade por “viver coisas espirituais”. O que lhe ajudará não é a ânsia, mas a simplicidade no descentrar-se de si mesmo. Simplesmente “ver, escutar”.  Demorar-se, dar o tempo necessário sem querer ver tudo, esgotando toda a cena.

- Não separar, de maneira forçada, o “ver” e o “escutar”, quando tendem a ir juntos. As etapas distintas estão aí para nos ajudar,  não para nos bitolar.

- O nível da contemplação não deve ser muito alto (permanecer em altas considerações bíblicas ou teológicas) nem muito  baixo   (permanecer em meros sentimentos piedosos, beirando o sentimentalismo).

- Neste modo de ORAR pelos sentidos, nossa inteligência, nossa intuição teológica e a fé da Igreja oferecem boas garantias no uso da  imaginação.

- A excessiva preocupação com questões pessoais pode impedir a contemplação do Senhor. Nesse caso seria melhor orar sobre minha vida ou meditar um texto, em lugar de orar “à margem” dos problemas que  me afligem.

 

Fonte: CEI Jesuítas

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