sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Preparando o Tríduo Pascal


 
Preparando o Tríduo Pascal
Penha Carpenedo

A reforma do Ano Litúrgico e do Calendário foi um empreendimento de inestimável valor, fruto do movimento litúrgico e da renovação litúrgica a partir do Concílio Vaticano II. O grande desejo foi o de resgatar a unidade do Ano Litúrgico, tendo como eixo estruturante o mistério pascal, para “alimentar devidamente a piedade dos fiéis” (SC 107). Tal novidade foi acolhida com entusiasmo e fervor no início da reforma litúrgica. Aos poucos o povo foi assimilando a teologia e a pedagogia do Ano Litúrgico.

No que se refere ao Tríduo Pascal, houve uma progressiva apropriação do seu sentido teológico e das suas expressões rituais e somaram-se esforços em toda a parte para celebrar o Tríduo como memória anual da páscoa num todo unitário, como era nos primeiros séculos da Igreja. A Vigília Pascal, em muitas comunidades, recuperou o seu caráter noturno e voltou ao seu lugar de “mãe de todas as vigílias da Igreja”, ápice das celebrações pascais e de todo o ano litúrgico.

Contudo, no momento atual, estamos assistindo a um esvaziamento, antes mesmo que pudéssemos chegar a uma maturação neste processo de reapropriação. Ou se cumprem as normas de uma maneira absolutamente formal, ou simplesmente se ignora a riqueza proposta pela reforma em seus princípios e orientações. E o vazio acaba sendo preenchido por iniciativas particulares e devoções, ou por expressões da piedade popular, nem sempre com o devido cuidado de fazer coexistir liturgia e práticas de piedade “no respeito à hierarquia dos valores e da natureza específica de ambas” 1 .

Como evitar um tal esvaziamento e tantas deformações? O que fazer para que as festas pascais sejam ponto alto na vida da comunidade, expressões de vida de uma Igreja que busca na liturgia sua primeira fonte de espiritualidade (cf. SC 14)?

Não pretendemos aqui aprofundar exaustivamente todo o significado do Tríduo Pascal, nem temos a pretensão de oferecer solução fácil para um problema que mais parece ser estrutural. Queremos sim evidenciar algum elemento que nos ajude a não desviar a atenção da centralidade do mistério e a considerar a unidade e a superioridade das festas pascais em relação a todas as outras expressões da nossa fé.

Lembrando a história

Até o século II a festa dos cristãos era o domingo, vivido e celebrado como dia de alegria, páscoa semanal. A partir do final do século II firma-se a prática de uma festa anual da páscoa, no domingo posterior ao 14 de Nisã (data da páscoa judaica). Até o final do século III foi a única festa anual da Igreja. Tratava-se da Vigília Pascal que durava toda a noite, culminando ao amanhecer com a eucaristia que marcava a entrada no Pentecostes, entendido como cinqüenta dias de festa e de alegria. A Vigília era precedida pelo jejum que se iniciava na sexta-feira e se prolongava por todo o sábado, até a celebração da eucaristia no sábado à noite. Os elementos essenciais eram a liturgia da Palavra e sua atualização sacramental na eucaristia, aos quais, mais tarde, acrescentou-se o batismo, com a bênção da água. Em torno da vigília foi se firmando, em uma unidade, a memória da crucifixão na sexta-feira, da sepultura no sábado e da ressurreição no domingo.

Aos poucos prevalece a tendência de historicizar as narrativas evangélicas em torno dos acontecimentos da despedida, morte, sepultura e ressurreição. Inicialmente, celebrados numa perspectiva unitária, representou uma riqueza; mas esta unidade acabou em desagregação, desviando a atenção do essencial.

O relevo excessivo dado à instituição da eucaristia, na quinta-feira santa, desviou a atenção do verdadeiro ápice da páscoa, constituído pela eucaristia na Vigília, e rompeu com a própria unidade do Tríduo, não mais constituído de sexta, sábado e domingo, mas de quinta, sexta e sábado.

A sexta-feira era dia de jejum e limitava-se à liturgia da palavra. Mais tarde incorporou o rito da adoração da cruz. Passou a enfatizar o sofrimento de Cristo sem a necessária ligação com a noite da páscoa. A Vigília Pascal que começava ao pôr-do-sol do sábado, por vários motivos, foi progressivamente antecipada para a tarde do sábado, chegando a ser fixada ao meio-dia.

Com o papa Pio XII, em 1955, sob o impulso do movimento litúrgico, o Tríduo Pascal começou a reconquistar a sua unidade e o seu sentido. Entre outras coisas, foi estabelecido que a missa da quinta-feira fosse celebrada à noite, não antes das 17 horas e não além das 20 horas. A liturgia da sexta-feira santa foi transportada para a tarde, de preferência às 15 horas ou depois, mas não além das 18 horas. A solene Vigília devia ser celebrada de preferência depois da meia-noite.

O Concílio Vaticano II deu término a essa reforma resgatando a teologia e a prática do Tríduo Pascal, em consonância com a tradição que vem das comunidades cristãs dos primeiros séculos.

Em busca da unidade

O Tríduo Pascal tem seu início com a memória da última Ceia do Senhor na quinta-feira à noite. 2 É celebração da páscoa do Senhor no decorrer de três dias: a sexta-feira da paixão, o sábado da sepultura e o domingo da ressurreição, com o seu centro na Vigília Pascal. Enquanto a memória da Ceia apresenta o mistério pascal em sua dimensão ritual, sexta, sábado e domingo o apresenta na sua dimensão histórica. Cada dia abre-se para o outro da mesma forma que a ressurreição supõe a morte, e a morte, por sua vez, possui a promessa da ressurreição.

Na quinta-feira santa, a missa vespertina faz memória da última Ceia que o Senhor realizou com os seus, antes da sua morte. Essa Ceia sintetiza toda a vida e missão de Jesus que culmina em sua morte, assumida por amor ao Pai e aos irmãos. Trata-se da Ceia pascal judaica que Jesus celebrou e na qual ele próprio se entregou qual cordeiro do sacrifício para a redenção do mundo.

A verdadeira eucaristia da páscoa é a da Vigília Pascal, no sábado à noite. Contudo, na missa em memória da Ceia do Senhor, na abertura do Tríduo, deve ser sublinhado que recordamos nela o que Jesus fez e mandou fazer: tomou o pão e o cálice, deu graças, partiu e repartiu... tomai e comei, tomai e bebei, este é o meu corpo; este é o meu sangue. Fazei isto em memória de mim. Repetindo os gestos que Jesus fez, na noite em que ele foi entregue, somos impulsionados pelo Espírito a devotar a nossa vida a uma causa, ao reino, como ele fez em seu amor até o fim.

A Igreja dispôs a liturgia eucarística em quatro momentos de modo a corresponder às palavras e gestos de Cristo (preparação da mesa, ação de graças, fração do pão e comunhão). A celebração eucarística, de acordo com a tradição que vem de Jesus e das primeiras comunidades (cf. 1Cor 23-26), tem estrutura fundamental de Ceia. Se isso vale para toda eucaristia que celebramos, mais ainda para a celebração da quinta-feira santa, na qual é dada importância especial à comunidade, realizando o que Jesus fez e mandou fazer . Destaca-se a presença da comunidade reunida em sacramento de unidade. Recomenda-se que pelo menos nesta celebração se use pão (ázimo) em vez de hóstia, que a comunhão seja dada sob as duas espécies e com o pão consagrado nesta missa e não em uma anterior. 3 Também por isso pede-se que o sacrário esteja vazio no início da celebração.

Nessa noite, consagrada à lembrança da eucaristia, a reserva eucarística será colocada numa capela à parte, em quantidade suficiente para a comunhão no dia seguinte, também para a comunhão aos doentes e para a adoração que se prolonga depois da celebração. Com essa prática, chama-se a atenção para o aspecto da presença permanente do Senhor nas espécies eucarísticas. Durante a adoração sugere-se a leitura orante do evangelho de João (capítulos 13-17), indicando o momento de adoração como tempo de mistagogia do mistério celebrado.

Para a reposição do pão consagrado recomenda-se sobriedade; nunca a exposição em ostensório, nem o sacrário ou o cibório abertos, “para respeitar o significado das celebrações destes dias”. Também se deve evitar qualquer associação entre a capela da reposição com o sepulcro. A adoração seja feita por algum tempo durante a noite e, após a meia-noite, sem solenidade, 4 quando então entra-se na grande meditação da paixão do Senhor e da sua momentânea ausência.

Na sexta-feira, o relato da paixão segundo João apresenta Jesus realizando a obra da salvação não como vítima impotente e resignada, mas como alguém que conhece o sentido dos acontecimentos e os aceita livremente. Com essa visão joanina, a liturgia da sexta-feira santa não quer chamar atenção sobre o sofrimento em si, mas sobre a glória de Cristo, e sobre a sua vitória pascal. Na liturgia da sexta-feira santa a ênfase é dada à realidade da morte, mas não como fim em si mesma, e sim como promessa de vida e ressurreição que se tornará plenamente presente na Eucaristia da Vigília Pascal.

O elemento fundamental da liturgia da sexta-feira é a Proclamação da Palavra. O rito da apresentação e adoração da cruz nasce como ato conseqüente. A cruz é colocada no centro da Assembléia cristã como sinal pascal de vitória e do amor que vence o mal e a morte. Assim ela é aclamada e adorada. A Igreja ergue o sinal de vitória como que para tornar visível a própria palavra de Jesus: “Quando eu for levantado atrairei todos a mim” (Jo 12,32).

O cenário da sexta-feira é o altar desnudado e as imagens cobertas, indicando o luto da Igreja. É tempo de jejum e meditação silenciosa. Sugere-se com insistência a Liturgia das Horas. O Ofício das Comunidades oferece ofícios para as diferentes horas do dia. Outra possibilidade é a Via Sacra, expressão consagrada da piedade do povo. Em muitos lugares há expressões como a memória das dores de Maria, a procissão do Senhor morto e tantas outras manifestações. É importante respeitar tais costumes locais, sempre porém, de modo que apareça a primazia da ação litúrgica.

Dando preferência ao horário das 15 horas, que lembra a hora em que Jesus morreu, a celebração começa com prostração e silêncio, seguida de breve oração, diante do altar despojado de toalhas, de velas e de cruz. Procede-se imediatamente à Liturgia da Palavra. Toda ênfase deve ser dada a essas leituras tão apropriadas. Em muitas comunidades é comum o grupo jovem encenar a paixão do Senhor depois da celebração litúrgica. Há, em alguns lugares, iniciativas no sentido de conversar com estes jovens para que possam integrar tais encenações na própria celebração. Nesse caso, a encenação do evangelho torna-se expressão de piedade, presença mistérica do evento litúrgico da paixão (anamnese) e não apenas representação dramática.

Para o rito da adoração da cruz, no caso de assembléias muito numerosas, é previsto um único gesto de reverência à Cruz, realizado ao mesmo tempo por todos. O que se deve evitar é a multiplicação de cruzes em função de agilizar a procissão, pois a verdade do sinal requer que a cruz seja única. Também não é uma solução muito pastoral transferir o gesto de beijar a cruz para depois da celebração. Se os cantos que acompanham o gesto pessoal são adequadamente escolhidos, este pode ser um momento de fecunda meditação.

O rito da comunhão prevê o canto do Pai nosso; e durante a distribuição, o canto do salmo 22(21). Ao final, o altar volta a seu despojamento e a cruz é colocada no centro como referência para a oração pessoal.

O sábado Santo é especialmente consagrado à memória da sepultura de Jesus, compreendida como sua máxima solidariedade com a nossa condição mortal. A sepultura é certificação da morte de Jesus. Marcos fala de cadáver (15,45). Três são as testemunhas da morte: José de Arimatéia, o centurião e Pilatos (Mc 15,42-47). José de Arimatéia providencia o enterro para que Jesus não seja jogado na vala comum, destino certo dos executados. A sepultura pertence à forma mais antiga do kerigma: “Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as escrituras” (1Cor 15,3-4).

Neste dia, a comunidade faz sua a atitude das mulheres em frente ao sepulcro (cf. Mt 27,61), numa atitude de espera, confiante na fidelidade da palavra de Jesus. No cenário deste dia, caberia o livro da Palavra, ou ícone de Maria, a mulher-símbolo do Israel fiel, primeira discípula a escutar, ela que esteve presente na Hora de Jesus em Caná e na Hora extrema da cruz. O sepulcro lacrado parece pôr fim a todas as expectativas; no entanto, a Palavra contém uma promessa e é a Palavra ‘guardada no coração' que impulsiona a Igreja-esposa a esperar do fim um novo começo... Há momentos em que se depara com o absurdo. Nos sábado santo, somos firmados na fé de que é possível transformar o absurdo, o inaceitável, em caminho de salvação...

Neste dia não há celebração dos sacramentos e a comunhão só pode ser dada como viático. Mas há nas orientações uma insistência sobre a celebração do ofício divino durante o dia de sábado. Os salmos, leituras bíblicas e orações constituem uma riqueza que nos ajudarão a entrar no mistério deste dia, a fazer dele um retiro juntamente com os catecúmenos, à espera do grande anúncio da ressurreição.

No coração da noite, com lâmpadas acesas nas mãos, como aquelas jovens do evangelho que esperam pela chegada do esposo, entramos na Vigília Pascal. Uma noite de vigília em ‘honra do Senhor' para recordar e reviver o evento da morte-ressurreição de Cristo, em clima de amorosa espera. Vivendo desde já a páscoa que celebramos, nós o fazemos com a firme esperança de que esta se realize sempre mais profundamente em nós e no mundo.

Toda a celebração da Vigília Pascal deve se desenvolver durante a noite. A imagem da noite iluminada exprime, no plano simbólico, melhor que qualquer conceito, o mistério mais profundo da páscoa: a passagem da escravidão para a liberdade; a passagem de Cristo da morte para a vida; a passagem da comunidade das obras das trevas para viver como filhos e filhas da luz.

Os ritos da vigília, embora organizados em várias partes, formam um todo único em torno do núcleo essencial da proclamação da Palavra de Deus e da celebração dos sacramentos pascais do batismo, da crisma e da eucaristia, ápice da iniciação cristã e ponto culminante de todo o Tríduo Pascal. Se na quinta-feira santa damos ênfase à reunião da Igreja, repetindo os gestos de Jesus na última ceia, com mais razão devemos enfatizar a liturgia eucarística da Vigília Pascal; de tal forma que apareça claramente sua estrutura de Ceia, todos podendo comungar do pão santificado nesta missa e também do vinho, com plena consciência de que se trata do sacramento pascal, memorial do sacrifício da cruz e presença de Cristo ressuscitado.

Com a Vigília Pascal, entramos no grande domingo da páscoa, que será prolongado por cinqüenta dias de festa e de alegria. O cenário é sugerido pelas portadoras do perfume que vão ao túmulo para completar o rito do sepultamento, feito às pressas na tarde da morte, e descobrem o túmulo vazio. Fazemos nossa a profunda reverência do discípulo amado diante do AMOR que vence a morte e a alegria da comunidade que escuta dos mensageiros o anúncio da ressurreição.

Textos de referência:

BERGAMINI, Augusto. Cristo, festa da Igreja: o ano litúrgico . São Paulo: Paulinas, 1994.

CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS. Carta circular sobre p reparação e celebração das festas pascais (16.1.1988). Petrópolis, Vozes, 1989. Col. Documentos pontifícios, n. 224.

CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS. Diretório sobre a piedade popular e liturgia: princípios e orientações. São Paulo: Paulinas, 2003.

Normas Universais sobre o Ano Litúrgico e Calendário. In. As Introduções Gerais dos Livros Litúrgicos . São Paulo: Paulus, 2003, p. 211.

 


 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Livros Sapienciais - Um pouco mais...


 
Livros Poéticos e Sapienciais
do Antigo Testamento

Os Livros poéticos e sapienciais do Antigo Testamento são: Jó ou Job (português de Portugal), Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria e Ben Sirac ou Eclesiástico. Foram escritos, em sua maioria, em linguagem poética, fazendo uso de metáforas, e têm um caráter de ensinamento para alcançar a sabedoria. Eclesiástico e Sabedoria são deuterocanônicos e por isso não constam na Bíblia protestante, embora estejam presentes na Bíblia católica. Esses livros apresentam a sabedoria e a espiritualidade do povo de Israel.

A sabedoria, neste caso, não é entendida como acumulação de conhecimentos, mas como bom senso no discernimento das situações, adquirido através da meditação e reflexão sobre a experiência concreta da vida -, algo aprendido na prática e que levaria à arte de viver bem. Assim, nos livros sapienciais encontram-se reflexões que brotam de problemas que povoam o dia-a-dia da vida de qualquer pessoa que busca o caminho da realização e felicidade. A experiência comum é mostrada como lugar da manifestação de Deus e da revelação do seu projeto, ou seja, Deus falaria através da experiência do povo.

A sabedoria de cunho mais popular encontrada no livro dos Provérbios e no Eclesiástico apresenta-se em forma uma coleção de frases curtas, sentenças que ajudam a compreender e a encontrar uma saída nas diversas situações enfrentadas pelo homem comum. Já os livros de Jó, Eclesiastes e da Sabedoria são estudos sobre problemas mais profundos sobre temas mais amplos, como o sentido da vida, a morte, a justiça, a vida social, o mal, a natureza da sabedoria etc. O Cântico dos Cânticos trata da experiência mais fundamental da vida: o amor humano, símbolo do amor de Deus para com o seu povo. Já a espiritualidade do povo de Israel é apresentada no livro dos Salmos - uma coleção de 150 orações que refletem as mais diversas situações da vida do indivíduo e do povo.

Livros Deuterocanônicos

O termo deuterocanônico (português brasileiro) ou deuterocanónico (português europeu) refere-se a um conjunto de livros que estão presentes na Septuaginta, antiga tradução em grego dos livros do Antigo Testamento, e por isso supostamente tidos como divinamente inspirados pelos primeiros cristãos. Foram posteriormente definidos como autênticos no Concílio de Roma em 382 d.C., de Hipona em 393 d.C., III Concílio de Cartago em 397, e especialmente no Concílio de Trento, iniciado em 1546.

Etimologia

O termo "deuterocanônico" é formado pela raiz grega deutero (segundo) e canônico (que faz parte do Cânon, isto é do conjunto de livros considerados inspirados por Deus e normativos por uma religião ou igreja). Assim, o termo é aplicado a livros e partes de livros bíblicos que só num segundo tempo foram considerados como canônicos.

Utilização teológica

O adjetivo "deuterocanônico" é originalmente aplicado a estes textos pelos cristãos, por considerarem que foram adicionados num segundo momento da História do Cristianismo como inspirados e fazendo parte integral somente da Bíblia Católica, mas não da dos Protestantes. Para estes, os livros são considerados patrimônios históricos, tendo portanto algum valor literário e religioso. Martinho Lutero, reconhecendo a importância de se conhecer os mesmos, incluiu-os na sua tradução da Bíblia para o alemão, em apêndice.

Além da Igreja Católica (Romana, e também as demais Igrejas particulares sui iuris), outras igrejas utilizam-se dos livros Deuterocanônicos em suas Bíblias, tais como a Igreja Anglicana e as Igrejas Ortodoxas Copta, Siríaca, Grega e Russa. Algumas correntes judaicas, como o judaísmo etíope e o judaísmo egípcio, também aceitam os livros deuterocanônicos como livros inspirados e os incluem em seus cânons.

O assunto da autenticidade e do valor teológico desses livros foi tratado em vários concílios e documentos papais, sobretudo em 1545-1563 dC. - Concílio de Trento, Ecumênico, declarando definitivamente o cânon de 46 livros no Antigo Testamento e declara como anátema quem os rejeitar (vide Cânone de Trento).

Lista dos livros deuterocanônicos do Antigo testamento e Novo testamento

São deuterocanônicos (ou apócrifos pelos Protestantes) do Antigo Testamento e do Novo Testamento os seguintes livros bíblicos:

Antigo Testamento

Tobias

Judite

I Macabeus e II Macabeus

Sabedoria de Salomão

Eclesiástico (também chamado Sirácide ou Ben Sirá )

Baruque

Além destes, podemos também encontrar fragmentos deuterocanônicos dentro de livros canônicos como:

adições em Ester

adições em Daniel - nomeadamente os episódios da História de Susana e de Bel e o dragão

Origem dos deuterocanônicos do Antigo Testamento

Os livros deuterocanônicos foram escritos entre Malaquias e Mateus, ou seja, numa época em que segundo o historiador judeu Flávio Josefo, cessara por completo a revelação divina.

Os textos deuterocanônicos, atrás referidos, chegaram até nós apenas em grego (alguns escritos originalmente nessa língua, outros traduzidos duma versão hebraica, que se perdeu), fazendo parte da chamada Bíblia dos Setenta, ou Septuaginta, a tradução da Bíblia em grego, feita por volta do séc. III a.C, para uso dos judeus da Diáspora, e adotada pelos cristãos desde o início como seu texto bíblico de referência. Tais textos não se encontram, pois, na Bíblia Hebraica ou Tanakh.

Num famoso encontro de rabinos judeus, o chamado Concílio de Jâmnia, realizado nos finais do séc. I d.C, destinado a procurar um rumo para o judaísmo, após a destruição do Templo de Jerusalém, no ano 70 d.C, os participantes decidiram considerar como textos canônicos do judaísmo apenas os que existiam em língua hebraica e que remontassem ao tempo do profeta Esdras.

Apesar da crítica moderna afirmar que vários livros que constam no Cânon Hebraico são posteriores ao tempo de Esdras (como é o caso do Livro de Daniel), os estudiosos explicam que os Fariseus não dispunham do método científico que existe hoje para se datar uma obra, ou mesmo para se atribuir a ela um autor. De qualquer forma, os critérios por eles adotados excluíram os livros deuterocanônicos do Cânon Hebraico (ou Judaico).

Os Deuterocanônicos do Novo Testamento

Houve livros e trechos do Novo Testamento considerados deuterocanônicos pelos católicos e apócrifos por muitos grupos protestantes, os livros de Tiago, Judas, Hebreus, Apocalipse, II Pedro e II e III, assim como trechos do Novo Testamento, como a Perícope da Adúltera.

Lutero chegou até mesmo a duvidar da canonicidade das epístolas aos Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse, que na sua tradução da Bíblia para o alemão deixou-os num apêndice sem numeração de páginas e considerados como apócrifos.

Em 1545, o catolicismo romano convoca o Concílio de Trento, que definitivamente reafirma o que já era aceito em caráter canônico do Cânone Alexandrino do século III a.C. (vide Cânone de Trento)

No início não houve consenso entre os protestantes sobre o Cânon do Antigo e do Novo Testamento. O Rei Jaime I da Inglaterra, responsável pela famosa Versão do Rei Jaime (King James Version), defendia que os deuterocanônicos, bem como os protestantes da Inglaterra também concordavam, deveriam continuar constando nas Bíblias Protestantes. No Brasil, na tradução de Almeida do ano de 1681, eles já apareciam.

Controvérsia protestante

Os cristãos protestantes têm denominado esses livros do Antigo Testamento como "apócrifos", pois neles haveria incoerências e falta de concretização de fatos narrados nesses livros, e não admitem a utilização dos mesmos nas suas listas, não os considerando divinamente inspirados.

Outro argumento apontado é de que foram escritos no período intertestamentário (período de 400 anos compreendidos entre o Novo e o Velho testamento); ou seja, em um período que segundo os teólogos reformadores Deus não teria levantado nenhum profeta (também conhecido como "silêncio profético").


Septuaginta

Septuaginta é o nome da versão da Bíblia hebraica traduzida em etapas para o grego koiné, entre o século III a.C. e o século I a.C., em Alexandria.

Dentre outras tantas, é a mais antiga tradução da bíblia hebraica para o grego, lingua franca do Mediterrâneo oriental pelo tempo de Alexandre, o Grande.

A tradução ficou conhecida como a Versão dos Setenta (ou Septuaginta, palavra latina que significa setenta, ou ainda LXX), pois setenta e dois rabinos (seis de cada uma das doze tribos) trabalharam nela e, segundo a tradição, teriam completado a tradução em setenta e dois dias.

A Septuaginta, desde o século I, é a versão clássica da Bíblia hebraica para os cristãos de língua grega e foi usada como base para diversas traduções da Bíblia.

A Septuaginta inclui alguns livros não encontrados na bíblia hebraica. Muitas bíblias da Reforma Protestante seguem o cânone judaico e excluem estes livros adicionais. Entretanto, católicos romanos incluem alguns destes livros em seu cânon e as Igrejas ortodoxas usam todos os livros conforme a Septuaginta. Anglicanos, assim como a Igreja oriental, usam todos os livros exceto o Salmo 151, e a bíblia do rei Jaime em sua versão autorizada inclui estes livros adicionais em uma parte separada chamada de Apocrypha.

A Septuaginta foi tida em alta conta nos tempos antigos. Fílon de Alexandria considerava-a divinamente inspirada. Além das traduções latinas antigas, a Septuaginta também foi a base para as versões em eslavo eclesiástico, para a Héxapla de Orígenes (parte) e para as versões armênia, georgiana e copta do Antigo testamento. De grande significado para muitos cristãos e estudiosos da Bíblia, é citada no Novo Testamento e pelos Padres da Igreja. Muito embora judeus não usassem a Septuaginta desde o século II, recentes estudos acadêmicos trouxeram um novo interesse sobre o tema nos estudos judaicos. Alguns dos pergaminhos do Mar Morto sugerem que o texto hebraico pode ter tido outras fontes que não apenas aquelas que formaram o texto massorético. Em vários casos, estes novos textos encontrados estão de acordo com a LXX. Os mais antigos códices da LXX (Vaticanus e Sinaiticus) datam do século IV.

Controvérsia

Contra

Há controvérsia quanto à veracidade de que a Septuaginta tenha mesmo existido como uma versão pré-cristã do Velho Testamento em grego, pois nunca foi encontrada nenhuma versão do Velho Testamento em grego datando antes de Orígenes (185 — 253 d.C). H. D. Williams, vice-presidente da Dean Burgon Society publicou um estudo detalhado, no qual defende que a Septuaginta nunca existiu e não passa de um mito. Os defensores da Septuaginta alegam que Jesus Cristo e os apóstolos citaram a Septuaginta. Dr. Williams alega que foi Orígenes quem utilizou o grego do Novo Testamento para traduzir em grego o Velho Testamento na sua obra Héxapla. Dr. Williams argumenta que esta coluna da Héxapla, escrita por Orígenes, hoje é chamada de "Septuaginta", porque a Septuaginta, propriamente dita, não existe.

Mesmo Dr. Jones e Dr. Silva, defensores da Septuaginta e escritores do prominente livro Invitation to Septuagint (Convite à Septuaginta), expressam, em duas ocasiões, a fragilidade que cerca o assunto:

a) "The reader is cautioned, therefore, that there is really no such thing as the Septuagint" (O leitor é advertido, portanto, que na verdade não existe uma 'Septuaginta')

b) "Strictly speaking, there is no such thing as the Septuagint. This may seem like an odd statement in a book entitled Invitation to the Septuagint, but unless the reader appreciates the fluidity and ambiguity of the term, he or she will quickly become confused by the literature." (Estritamente falando, não existe uma 'Septuaginta'. Esta parece até uma declaração estranha num livro chamado Convite à Septuaginta, mas a menos que o leitor compreenda a fluidade e ambiguidade do termo, ele ou ela irá se confundir rapidamente pela literatura.).

Pró Septuaginta

Vários estudos atestam que os Apóstolos e Evangelistas usaram a Septuaginta, a Sociedade Bíblica do Brasil afirma que "pois, como se sabe muitas citações (e alusões) do Antigo Testamento no Novo Testamento procedem diretamente da clássica versão grega". E que das 350 citações que o Novo Testamento faz do Velho Testamento, pelo menos 300 provêm da versão grega.

Exemplos de trechos referentes a Septuaginta podem ser encontrados no Evangelho segundo Mateus, por exemplo, onde Jesus Cristo em resposta ao diabo diz:

"Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus." Mt 4, 4.

Jesus referiu-se a Deuteronômio 8,3, onde é usada "da boca do Senhor" enquanto a Septuaginta traz "da boca de Deus".

Criação do texto

De acordo com o historiador judeu Flávio Josefo, sábios judeus traduziram a Torah para o grego koiné no século III a.C. Outros livros foram traduzidos ao longo dos dois séculos seguintes. Não é claro quando ou onde cada tradução foi realizada. Alguns livros podem inclusive ter sido traduzidos mais de uma vez, configurando diferentes versões e posteriormente revisados. A qualidade e o estilo dos diferentes tradutores também variavam consideravelmente de livro a livro, indo da tradução literal, à de paráfrase e à interpretativa. De acordo com a avaliação de um estudioso "o Pentateuco foi razoavelmente bem traduzido, mas o resto dos livros, especialmente os poéticos, foram em geral mal feitos e contém mesmo alguns absurdos".

A medida que o trabalho de tradução gradualmente progredia e novos livros eram adicionados à coleção, a abrangência da Bíblia grega passou a ficar um tanto indefinida. O Pentateuco sempre manteve a sua preeminência como a base do Cânon, mas a coleção de livros proféticos (a partir dos quais os Neviim foram selecionados) teve sua composição alterada por ter vários escritos hagiográficos nele incorporados. Alguns dos escritos mais recentes, os chamados anagignoskomena, em grego, não estão incluídos no Cânon judaico. Dentre estes livros estão os Livros dos Macabeus e o Eclesiástico. Além disso, a versão da LXX de algumas obras, como o Livro de Daniel e o Livro de Ester, são mais longos do que aqueles encontrados no texto massorético. Alguns livros posteriores, como o Livro da Sabedoria, II Macabeus, entre outros, aparentemente já foram compostos em grego e não em hebraico.

A autoridade do grupo mais extenso de "escritos", a partir dos quais se formou o ketuvim, ainda não havia sido determinada, apesar de que algum tipo de processo seletivo deve ter sido empregado, uma vez que a LXX não inclui outros documentos judaicos bem conhecidos como o Livro de Enoque, o Livro dos Jubileus e outros escritos que atualmente são parte da Pseudepigrafia. Não é sabido quais foram os critérios usados para determinar o conteúdo da LXX além da "Lei e dos Profetas", expressão usada muitas vezes no Novo Testamento.

Nome e designação

A Septuaginta tem seu nome vindo do latim Interpretatio septuaginta virorum (em grego: ἡ μετάφρασις τῶν ἑβδομήκοντα, transl. hē metáphrasis tōn hebdomēkonta), "tradução dos setenta intérpretes". A palavra septuaginta, acrescenta mais detalhes: "No entanto, não foi até o tempo de Agostinho de Hipona (354-430 dC) que a tradução grega das escrituras judaicas veio a ser chamado pela septuaginta termo latino [70 ao invés de 72]. Em sua Cidade de Deus 18,42, enquanto repetindo a história de Aristeu com enfeites típicos, Agostinho acrescenta o comentário: "É a tradução que agora se tornou tradicional para chamar a Septuaginta" ... [Latim omitido] ... Agostinho, portanto, indica que este nome para a tradução grega das escrituras foi um desenvolvimento recente. Mas ele não oferece nenhuma pista sobre quais os possíveis antecedentes levou a este desenvolvimento: Predefinição: Bibleverse, [Antiguidades 12,57, 12,86] Josefo, ou de uma elisão. ... Este nome Septuaginta parece ter sido desenvolvido do quarto para o quinto século.

O título latino se refere ao relato legendário contido na pseudepigráfica Carta de Aristeias em que o rei do Egito Ptolomeu II Filadelfo pede a setenta e dois sábios judeus que traduzam a Torá para o grego, com o fim de incluí-la na Biblioteca de Alexandria.

Uma versão posterior da lenda, narrada por Fílon de Alexandria, afirma que apesar de os tradutores terem sido mantidos em salas separadas, todos eles produziram versões idênticas do texto em setenta e dois dias. Apesar desse relato ser historicamente implausível, sua redação traz à tona o desejo dos sábios judeus da época de apresentar a tradução como divinamente inspirada. Uma versão desta lenda é encontrada no Tratado Megillah do Talmude Babilônico (páginas 9a-9b), que identifica especificamente quinze traduções pouco usuais feitas por eruditos. Somente duas dessas traduções são encontradas no texto da LXX que chegou até nós.

Edições impressas

Todas as edições impressas da Septuaginta são derivadas de três antigas cópias.

A Editio princeps é a Bíblia Poliglota Complutense, baseada em manuscritos atualmente perdidos, é considerada bastante próxima aos mais antigos manuscritos.

A edição aldina publicou-se em Veneza em 1518. O texto aproxima-se mais do Codex B do que do complutense. O editor não os especifica que manuscritos usou. Foi reimpressa diversas vezes.

A edição mais importante é a romana ou sistina, que reproduz exclusivamente o Codex Vaticanus Foi publicada pelo cardeal Caraffa, com a ajuda dos vários peritos, em 1586, autorizado pelo papa Sisto V, para ajudar nas revisões em preparação da Vulgata Latina, requisitada pelo Concílio de Trento. Transformou-se num repositório de textos do Antigo Testamento grego e teve muitas edições novas, tais como o de Holmes e de Pearsons (Oxford, 1798-1827), e as sete edições de Constantin von Tischendorf, que se publicaram em Leipzig entre 1850 e 1887, sendo que os últimos dois, publicou-se após a morte do autor na revisão da Nestle, e as quatro edições do Henry Barclay Swete (Cambridge, 1887-95, 1901, 1909), etc;

A edição de Grabe foi publicada em Oxford, 1707 a 1720, e reproduzida, de maneira incompleta no Codex Alexandrinus de Londres. Para edições parciais, veja Vigouroux, “Dict. de la Bible”, sqq 1643.


 

Livros Sapienciais


 
Livros Sapienciais

O termo “Sabedoria” tem uma vasta gama de significados. Pode ser descrito como aplicação da mente à aquisição de conhecimentos, a partir da experiência humana; habilidade prática no exercício de uma actividade profissional ou para fugir a situações de perigo; prudência na linguagem e no comportamento; discernimento em ajuizar aquilo que é bom ou mau para o ser humano; capacidade para detectar as formas de sedução e de engano.

A SABEDORIA

A sabedoria é, pois, um conhecimento baseado na experiência acumulada ao longo da vida e enriquecida através de várias gerações, que se fixou gradualmente em máximas, sentenças e provérbios breves e ritmados, recheados de imagens ou comparações.  O povo de Deus apercebeu-se da importância que a sabedoria tinha para a vida, pois não era possível regulamentar todas as áreas da vida apenas pela lei de Moisés e pela palavra dos profetas. Havia, portanto, espaços a preencher por opções e iniciativas pessoais. Daí ser preciso adquirir conhecimentos e capacidade crítica para avaliar pessoas e coisas, situações e acontecimentos da vida.

Confrontando o conjunto da sabedoria de Israel com outros corpos literários do AT, não será difícil verificar que os Livros Sapienciais formam um mundo à parte, caracterizado pela fé na sabedoria divina que rege o universo e cada pessoa em particular.  No âmbito sapiencial, o centro de interesse e de atenção desloca-se do povo, enquanto tal, para o indivíduo; da História, para a vida quotidiana; da situação peculiar de Israel, para a condição humana universal; das vicissitudes históricas do povo da Aliança, para a existência no mundo enigmático da criação; das intervenções prodigiosas de Deus, para as relações entre causa e efeito; da esfera da Lei e do culto, para o mundo das opções livres e da iniciativa pessoal; da autoridade de Deus, para a esfera da experiência e da tradição humana; dos oráculos dos profetas, proclamados como palavra de Deus, para o uso de todos os recursos da razão e da prudência, em ordem à orientação da própria vida; da imposição da Lei, para a força persuasiva do conselho e da exortação; do castigo, apresentado como sanção externa, para a consequência negativa, resultante de uma escolha errada ou de um acto insensato.

A sabedoria divina, cósmica, é aquilo que em hebraico se chama “hokmah”; mas o seu conceito pode também ser expresso por “sedaqah” = “justiça”.  Ao contrário da palavra profética, a sabedoria exige o empenho de todas as capacidades e dons de que o ser humano dispõe (Sir 15,14-20; 17,1-14). Mais do que procedendo do alto, como a Lei, a Profecia e a própria História, a sabedoria surge e cresce a partir de baixo, ou seja, da experiência humana. Sábio é quem sabe adaptar-se a esse sistema cósmico, descobrir o seu mecanismo operativo e entrar na sua essência. “Insensato”, ou mesmo “ímpio”, é quem não descortina as regras desse jogo ou não se interessa por elas.

ORIGEM

A reflexão sapiencial deve ter acompanhado o ser humano desde os seus primórdios. Contudo, certas épocas históricas privilegiaram a recolha de tradições e impeliram as novas formulações sapienciais.

A origem do pensamento sapiencial em Israel é tradicionalmente relacionada com a figura de Salomão (1 Rs 3,4-15; 5,9-14), que se tornou protótipo de todos os Sábios. Ele organizou a sua corte em conformidade com o modelo das cortes de outros países mais evoluídos, especialmente o Egipto; promoveu intensas relações políticas e comerciais com os povos vizinhos. Ora isso exigia uma preparação adequada dos funcionários de Israel, tanto a nível central como local, em escolas apropriadas de carácter sapiencial, também à semelhança do que já existia junto de outros povos. Foi Salomão que protagonizou toda essa dinâmica em Israel. Por isso, não é de admirar o facto de lhe terem sido atribuídas obras do género sapiencial muito recentes, que, efectivamente, nada têm a ver com ele. Era o costume antigo da pseudo-epigrafia, que se verifica em muitos casos da Bíblia.

Nos tempos a seguir ao exílio da Babilónia procedeu-se à recolha e fixação do património religioso e cultural de Israel. Da recolha, fixação e ordenamento de todo esse material viriam a surgir os grandes blocos literários do AT, dentre as quais algumas colecções de provérbios. Era necessário preservar a identidade religiosa e cultural de um pequeno povo e relançar a esperança num futuro bem melhor, perante as ameaças de outras culturas dominantes, como a babilónica e, mais tarde, a grega. A esse respeito, é emblemática a passagem de Ne 8,1-8, em que sacerdotes e levitas instruem o povo sobre a lei de Deus. Os homens do culto tornam-se homens do livro. Os profetas estão já em vias de desaparecimento. A palavra de Deus e a sua vontade passaram a ser procuradas no livro, nos textos escritos. Por isso, os responsáveis têm que se dedicar ao estudo, à reflexão, à cultura e à escola. É neste clima de exigência intelectual, onde também aparecem escribas leigos, que se desenvolve a reflexão sapiencial, outrora apanágio do ambiente da corte e dos funcionários do Estado.

Na investigação e procura da sabedoria, Israel não foi totalmente original. Este pequeno povo soube assimilar a sabedoria dos povos vizinhos, sobretudo o Egipto e a Mesopotâmia, e adaptá-la segundo a perspectiva da sua própria experiência religiosa.

OS LIVROS

Os livros resultantes da compilação dos antigos provérbios e das novas reflexões sapienciais recebem o nome de Sapienciais porque ensinam a sabedoria como arte de viver. Job, Salmos, Provérbios, Eclesiastes (ou Qohélet), Cântico dos Cânticos, Sabedoria e Ben Sira (ou Eclesiástico) constituem esse conjunto. Os Salmos são um livro de características especiais, embora integrado neste conjunto.

Ao analisar o conjunto dos Livros Sapienciais do AT, verifica-se uma diferença formal, que acabará por conduzir a uma particularização no próprio conteúdo. Trata-se da distinção entre a sabedoria proverbial e a tratadística ou intelectual. A primeira exprime, em frases breves, verdades universais ou condicionadas por determinadas situações. Geralmente são máximas compostas de um só versículo em duas partes ou dísticos (existem, por vezes, unidades maiores) e encontram-se mais nos livros dos Provérbios, de Ben Sira e em parte do Eclesiastes e da Sabedoria. O seu objectivo é oferecer observações sobre a vida concreta. Seguindo tais instruções, o homem adapta-se à ordem social, que é o reflexo da ordem cósmica.

Esta forma de sabedoria não se ocupa das coisas últimas da existência humana, mas assume o pragmatismo e a crítica face à sociedade em que se desenvolve. A sociedade é considerada como um facto consumado que o sábio não pretende mudar, mas apenas adaptar-se a ela, descobrindo as suas regras do jogo. É uma atitude que difere profundamente da posição assumida pelos profetas da época anterior ao Exílio; mas não se trata de uma atitude alheia à fé.

Diferente é o conteúdo da sabedoria tratadística, que, por vezes, como em Job, assume a forma de diálogo, ou a de um monólogo-confissão, como no Eclesiastes. Ocupa-se essencialmente de problemas fundamentais da existência humana. E a solução que ambos propõem submeter-se aos planos de Deus é tipicamente israelita, mesmo se desligada de qualquer enquadramento histórico. Assim, vemos semelhanças entre Provérbios e Ben Sira. Também Job e Eclesiastes se assemelham no seu temperamento inconformista. A Sabedoria, por seu lado, é uma espécie de enclave tardio, do âmbito cultural grego.

O mundo que o sábio procura conhecer é o mesmo que foi criado por Deus: um mundo que não é fundamentalmente hostil, porque foi criado bom desde o princípio (Gn 1); um mundo que se submete a Deus e do qual o próprio homem é constituído senhor (Gn 1,3-31). A principal preocupação dos Sábios é o destino pessoal dos indivíduos. Daí a importância dada ao problema da retribuição. Mas os Sábios, que tanto apelam à experiência, têm que enfrentar situações de contradição na própria esfera da experiência. É o confronto dramático entre Job e os seus amigos, com estes a defenderem a tese tradicional de que a justiça ou sabedoria leva automaticamente à felicidade, ao passo que a injustiça conduz à ruína. Perante o problema do justo infeliz, não há resposta que satisfaça a compreensão humana. Contudo, o livro sugere que, apesar de tudo, é preciso aderir a Deus pela fé.

Também o livro do Eclesiastes, embora com uma perspectiva diferente de Job, realça a insuficiência das respostas tradicionais ao problema do justo infeliz, dentro da perspectiva terrena; mas não admite que a felicidade possa ser exigida como algo devido necessariamente ao homem, pois não se pode pedir contas a Deus. Ben Sira assume plenamente a doutrina tradicional dos Provérbios e exalta a felicidade do sábio (Sir 14,20-15,10); mas sente-se perturbado perante a ideia da morte e intui que, afinal, tudo depende dessa última hora (Sir 11,26).

Foi o livro da Sabedoria, originário do ambiente cultural grego onde a filosofia platónica proporcionava a ideia da imortalidade espiritual, sem a necessária ligação com o elemento material que veio afirmar pela primeira vez e de um modo explícito: «Deus criou o homem para a imortalidade» (Sb 2,23). Um novo caminho se abre à reflexão sapiencial sobre o destino do justo infeliz: depois da morte, a alma fiel gozará de uma felicidade eterna junto de Deus, enquanto os ímpios receberão o devido castigo (Sb 3,1-12).

É sintomática a insistência dos sábios de Israel na ideia do temor de Deus, sobretudo no período mais tardio: «O temor do Senhor é o princípio da sabedoria.» (Pr 1,7) É que, sem o temor de Deus, qualquer tipo de sabedoria perde o seu próprio fundamento e, por isso, a sua validade para uma recta condução da vida.

PERSONIFICAÇÃO DA SABEDORIA

Na fase do desenvolvimento sapiencial anterior ao Exílio, a sabedoria parece limitar-se ao âmbito da experiência histórica e religiosa de Israel. Mas, depois do Exílio verifica-se uma evolução substancial: a partir daí, a sabedoria tende a ser considerada como uma realidade autónoma, distinta de Deus e do homem. Quer dizer: começa a surgir um processo da personificação da sabedoria. Para além de uma sabedoria proverbial, que regula com sucesso a vida do homem, os sábios começam a desvendar e a admirar uma sabedoria observável a partir da ordem, harmonia e movimento do Universo. É o que o livro do Génesis no capítulo 1 apresenta em linguagem catequética, e os Salmos Sl 8,19 e Sl 104 apresentam em forma de oração.

O próprio livro do Deuteronômio fala de «leis tão sábias» dadas a Israel que provocam a admiração dos outros povos vizinhos (Dt 4,5-8). Ben Sira chega mesmo a identificar a sabedoria com a lei do Altíssimo (Sir 24,22-23) e diz que a sabedoria estabelece a sua morada em Israel sob a forma de lei (Sir 24,8). Também o livro dos Provérbios fala da sabedoria presidindo à obra da criação (Pr 8,25-36). Trata-se sempre da mesma sabedoria que leva o homem ao encontro com o universo de Deus e ao encontro com o Deus do Universo.

A apresentação da sabedoria como um ser distinto de Deus e do homem, que age por si ou seja, como uma pessoa mais do que qualquer outra coisa ou aspectos, quer sobretudo realçar a preciosidade e autenticidade dessa mesma sabedoria. Temos aqui algo que ultrapassará os limites da simples personificação literária, mas que ainda não chega verdadeiramente ao conceito de “hipóstasis”, guardando o seu mistério, que o Novo Testamento virá, em parte, desvendar.

No prólogo dos Provérbios, vemos a sabedoria a convidar para a sua mesa (Pr 9,1-6); a ameaçar quem a rejeita, porque a vida ou a morte do homem depende da sua capacidade de acolher ou de rejeitar a sabedoria (Pr 8,25-36). Ela pertence à esfera de Deus: só Ele a possui verdadeiramente e pode enviá-la como companheira e amiga do homem. É por isso que Ben Sira e o autor do livro da Sabedoria se dirigem a Deus em atitude de oração, pedindo o dom da sabedoria (Sb 8,21; Sir 39,5-6).

LEITURA CRISTÃ

Por meio dos sábios, e num ambiente de mentalidade sapiencial, Israel faz uma leitura do seu passado histórico, perscrutando a sabedoria de Deus em acção na vida das grandes personagens do passado (Sir 44-50), conduzindo o povo no período mais significativo da sua História: o Êxodo (Sb 10-12; 16-19).

Em síntese, mediante a aplicação da inteligência e da reflexão, a sabedoria acaba por constituir a mentalidade dominante no Judaísmo do pós-exílio, recuperando e actualizando, tanto o património peculiar de Israel enquanto povo da aliança, como a sua experiência humana mais vasta, comum a outros povos da região do Médio Oriente.

Esta teologia sobre a sabedoria prepara já o ambiente para o NT, onde Jesus aparece como aquele que é «mais sábio do que Salomão» (Mt 12,42), a «sabedoria de Deus» (1 Cor 1,24.30), o único meio de salvação para todos (Jo 14,6), porque Ele é a sabedoria incriada que incarnou no seio da humanidade.

 

2º Macabeus


 
2º dos Macabeus

O 2.° Livro dos Macabeus não é, como facilmente se poderia supor, a continuação do primeiro, nem tem o mesmo autor. De comum entre os dois existe apenas o clima de perseguição à fé, orquestrada igualmente pelos Selêucidas, embora narrada de um modo menos histórico e mais edificante. Mas convém ter em conta o que se disse no início da Introdução a 1 Macabeus, quanto ao seu nome e à sua classificação como livro bíblico.

AUTOR

O autor, que terá escrito no Egito, pretende edificar a fé dos judeus deste país, também perseguidos por Ptolomeu. Com um estilo vivo e uma tendência para exagerar a caracterização das personagens – pois quer apresentá-las como heróis na fé a um povo que está a sofrer por causa dela – pretende mostrar que a perseguição é apenas um castigo justo e pedagógico, merecido pelos pecados cometidos, para convidar à conversão de vida e à fidelidade à aliança.

CONTEÚDO E DIVISÃO

Na sua forma atual, o livro poderá resumir-se no esquema seguinte:

Introdução (1,1-2,32): primeira carta (1,1-9); segunda carta (1,10-2,18); prefácio do autor (2,19-32).

I. Causas da rebelião dos Macabeus (3,1-7,42): preservação do templo (3); Onias, pontífice (4); matanças de Antíoco em Jerusalém (5); a perseguição religiosa (6); martírio dos sete irmãos (7).

II. Rebelião dos Macabeus (8,1-10,8): primeiras vitórias dos Macabeus (8); morte de Antíoco (9); purificação do templo (10,1-8).

III. Campanhas militares de Judas Macabeu (10,9-15,36). Novas vitó­rias do Macabeu sobre os povos vizinhos (10,9-12,45); guerra e paz entre Antíoco Eupátor e Judas Macabeu (13); Demétrio, rei da Síria, declara guerra ao Macabeu (14); Nicanor, general dos sírios, é vencido por Judas Macabeu (15,1-36).

Epílogo (15,37-39): considerações do autor.

MENSAGEM

Dado o objetivo da obra, a lei – como expressão da aliança – e o templo são os pontos de referência da fé, a necessitar de revigoramento para não se deixar absorver pela pressão da nova cultura. Por isso, ao lado daqueles que, por debilidade ou oportunismo sócio-político, renegam a fé, o autor coloca os que se refugiam em Deus e vão para o campo de batalha, apoiados nas armas da oração, do jejum e da leitura da Bíblia.

Neste quadro de fé no Deus da aliança, que protege os que morrem por ela em vez de a renegar, surgem alguns ensinamentos desenvolvidos depois no cená­rio da revelação. É o caso dos anjos, como agentes de Deus para executar o seu projeto (2,21; 3,24-26; 10,29; 11,6-8; 15,23), do valor da oração dos vivos para conseguir de Deus o perdão dos pecados dos defuntos (12,43-45), bem como do valor da intercessão dos «santos» que estão na outra vida, em favor dos que ainda peregrinam na terra (15,12-16); e ainda a questão da ressurreição dos fiéis (7,9.14.23.28-29.36; 12,43-45; 14,46) e a retribuição depois da morte, tanto para os fiéis como para os que fizeram mal ao povo, pois Deus dará a cada um segundo o que tiver merecido.

1º Macabeus


 
1º dos Macabeus

Com o título de Macabeus são designados dois livros que fazem parte da Sagrada Escritura, embora sejam conhecidos mais dois com este nome na antiga literatura judaica. Nos primeiros séculos da Igreja, houve algumas dúvidas em considerá-los parte do Cânone. De fato, não constam no Cânone da Bíblia Hebraica dos judeus palestinenses; mas fazem parte da Bíblia do judaísmo de Alexandria. Este fato veio a criar, por parte das igrejas protestantes, uma atitude de reserva para com eles; quanto aos outros dois, cedo lhes foi recusada a classificação de livros bíblicos, tanto pelos judeus como pelos cristãos.

NOME

Chamam-se Macabeus, não porque tal fosse o nome do seu autor, mas porque Judas – o protagonista dos principais acontecimentos narrados nos dois livros – foi denominado “Macabeu”. Porém, foi São Clemente de Alexandria (séc. III d.C.) quem, pela primeira vez, lhes atribuiu esse título, que se tornou corrente na tradição cristã.

Muito provavelmente, com esse nome ter-se-á querido salientar a missão que Deus, Senhor da História, quisera confiar a Judas Macabeu. De fato, o termo “macabeu” aparece em Is 62,2 com o significado de «designado do Senhor», que corresponde perfeitamente à qualidade de chefe com que Judas é descrito em 2 Mac 8,1-7. Também é muito semelhante ao que se diz dos chefes carismáticos do período dos Juízes e ao papel dos que têm a missão de libertar o povo de um poder político ou de uma cultura que não respeita a fé de Israel.

AUTOR E MENSAGEM

O 1.° livro dos Macabeus é obra de autor desconhecido, mas bom conhecedor da Palestina e imbuído da fé que caracteriza o povo eleito. É precisamente esta fé que o leva a narrar a História recente do seu povo, para impedir os seus irmãos de raça de serem infiéis à aliança.

No horizonte, está o confronto entre a fé de Israel e os novos modos de viver da cultura helenística, em que o judaísmo da diáspora se encontra. Para responder a essa situação concreta e precaver da traição à fé, o autor vai buscar este período histórico e os modelos de fé nele encontrados.

Tocado pela dura experiência do tempo do domínio selêucida, com Antíoco IV Epifânio à cabeça, volta-se para a raiz da fé, que é a aliança do Sinai, e diz ao povo: «Deus está sempre atento e vai fazer surgir homens corajosos e determinados, para resistirmos à imposição dos valores culturais que ameaçam as atitudes de vida exigidas pela aliança». Por isso, mais que descrever objetivamente o que fizeram esses homens, o autor preocupa-se em mostrar como, por atitudes idênticas às deles, o povo fiel pode continuar a viver a sua fé no Deus único e a manter a sua identidade nacional.

GÊNERO LITERÁRIO

Os dois livros dos Macabeus são históricos, segundo os critérios historiográficos da época, e com uma acentuada preocupação religiosa e edificante.

Mais que uma narração objetiva dos acontecimentos do mesmo período, nem sempre concordantes, porque entre si distintos e independentes, asse­mel­ham-se a dois Evangelhos Sinóticos: o 1.° livro abrange o período que vai de 175 a.C. a 134 a.C. (subida ao trono de João Hircano); o 2.° livro cobre o período de 175 a.C. a 160 a.C. (morte de Nicanor).

DIVISÃO E CONTEÚDO

A narração dos acontecimentos está distribuída em quatro blocos: no primeiro traça-se o am­biente político e cultural criado por Alexandre Magno, que origina a revolta dos Macabeus (1,1-2,70); no segundo narram-se os feitos gloriosos de Judas Macabeu (3,1-9,22); no terceiro descrevem-se os feitos de Jônatas (9,23-12,54) e, no quarto, os feitos do Sumo Sa­cerdote Simão, fundador da dinastia dos Hasmoneus (13,1-16,24).

O seu conteúdo poderá ser divido nas quatro partes que apresentamos a seguir:

I. Ambiente político e revolta de Matatias (1,1-2,70): Alexandre Mag­no (1,1-9); Antíoco Epifânio (1, 10-40); per­seguição religiosa (1,41-64); feitos de Matatias (2,1-70).

II. Judas Macabeu (3,1-9,22): primeiras vitórias de Judas (3,1-4,35); purificação do templo (4,36-61); guerra contra os povos vizinhos (5); morte de Antíoco na Pérsia (6,1-17); Antíoco Eupátor ataca a Judeia e faz a paz com os judeus (6,18-63); Demétrio, sucessor de Eupátor, declara guerra a Judas Macabeu (7); Judas Macabeu alia-se aos romanos (8); morte de Judas Macabeu (9,1-22).

III. Feitos de Jônatas, sucessor de Judas Macabeu (9,23-12,54): modificação da situação dos judeus (9,23-73); Jônatas aproveita-se da guerra civil dos sírios (10); confirmação da situação de Jônatas (11); aliança com os romanos e com os espartanos (12,1-23); Jônatas em poder de Trifon (12,24-54).

IV. Simão, príncipe do povo judeu (13,1-16,24): Simão procura resgatar seu irmão (13,1-32); Simão assegura a liberdade do seu povo (13,33-53); Simão é aclamado príncipe do povo judeu (14); Antíoco Sidetes volta-se contra os judeus (15); morte de Simão (16).